A história do Reino do Ndongo

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A obra de João Mainsel Romanceia.

A história do Reino do Ndongo
Livro

Estamos aqui reunidos para testemunhar o lançamento da primeira obra de João Mainsel, que se estreia assim aos 40 anos nas lides literárias angolanas.
Falando primeiro do autor, pretendo destacar alguns aspectos que considero relevantes. O primeiro deles tem a ver com o facto de se tratar de malanjino de gema, nascido no bairro da Kizanga, com pais originários também de Malanje.
O segundo aspecto está relacionado com a vivência do autor. Nascido em Malanje, como já referi, foi para o Huambo com apenas 1 mês de idade, tendo crescido nesta cidade do Planalto Central. Com 17 anos, veio para Luanda, onde se fez homem e constituiu família.
O terceiro elemento tem a ver com a formação do autor, que encerra elementos das Ciências Sociais, da Gestão e da Administração. Fez a Licenciatura em Lisboa e o Mestrado e Doutoramento, em Orlando (Estados Unidos da América). Como se verá adiante, esta sua formação algo diversificada contribuiu para intensificar o gosto que tem (muito provavelmente, nato) por bibliotecas, por arquivos e pela leitura.
Um penúltimo elemento tem a ver com a sua área de trabalho – a construção imobiliária. Não se tratará certamente do maior gestor do ramo imobiliário de Angola, mas não nos admiremos que daqui a dez anos o tenhamos perto de o ser, tais são o seu talento, a sua argúcia e a sua perspicácia. A este respeito, quero aqui destacar o facto de o João Mainsel nos demonstrar ser possível juntar a argamassa ao livro. Eis aqui, pois, a prova de que não só de gestão de espaço, ferro, areia e cimento vive um incorporador imobiliário. A leitura, o interesse pela história e alguma dedicação podem fazer do gestor um escritor, um artista ou um cientista.
E finalmente, para não me alongar nos considerandos relacionados com o autor, não posso deixar de mencionar a sua família. Começando pela parte nuclear, tenho de mencionar o grande apoio que lhe tem dado a esposa, Esmeraldina, e o carinho dos filhos (a Mayara e o Mário), que têm no pai um exemplo a seguir.
No que diz respeito à família alargada, quero mencionar cinco exemplos de sucesso nas lides literárias e artísticas, cujas pegadas são agora seguidas por João Mainsel. Começo por mencionar o incontornável tio Moisés Kamabaya, autor dos livros Renascimento da personalidade africana, Contribuição de África para o progresso da Humanidade e Os heróis da Baixa de Kasanje. Um segundo tio, também irmão da mãe, é Félix Pereira Bravo, missionário e poeta. Seguem-se os tios João Gaspar e José Gaspar, músicos com actuação numa banda musical do Huambo e com participação na formação de outros instrumentistas. O tio José Gaspar foi também jornalista, que trabalhou no Jornal do Huambo, na década de 1980. A quinta pessoa que devo mencionar também é incontornável – a jornalista Sandra Mainsel, a Sandrinha para os amigos, como eu. A Sandra é a segunda irmã mais velha do João, de um total de oito irmãos (4 mais velhos e 3 mais novos). Angolanos de várias gerações conhecem o nome da família Mainsel exactamente devido à Sandra, cuja imagem penetrou durante décadas em nossas casas e locais de trabalho, através dos écrans da televisão. Foi a imagem de vários programas informativos, com destaque para o “Ecos & Factos”, o “Jornal da Tarde”, o “Jornal da Noite” e o “TPActualidade”, e também do educativo “Quem sabe, sabe”. É hoje subdirectora de Multimídia da Televisão Pública de Angola.
Portanto, o ingresso do João Mainsel nas lides literárias, que hoje confirmamos, é apenas sequência do que outros familiares vêm fazendo nas lides jornalísticas, artísticas, literárias e académicas.
Terminadas as referências ao autor, passo de imediato a referir-me à obra. A Travessia é um romance que assenta em dados históricos, de natureza sociológica e antropológica, a respeito de um dos povos de Angola – os ambundu, que habitam há já alguns séculos o corredor Luanda–Malanje. Retrata ocorrências do século XVII, no âmbito do então Reino do Ndongo.
Tal como o autor refere na nota de abertura, a sua intenção é “contribuir para realizar a missão do «havemos de voltar», fazer justiça histórica e inspirar possibilidades para as novas gerações” [p. 13]. São 256 páginas de contacto com a história, uma história que serve para recordar aquilo que somos hoje, uma verdadeira amálgama de culturas que confluem em similitudes e diferenças que nos identificam como angolanos.
Gostaria de começar por destacar que o autor nos apresenta a forma como vive o povo do reino, mas também nos apresenta tramas da corte real, com intrigas e desacordos palacianos que conduzem ao afastamento e desterro de uma princesa, candidata ao trono. Estamos a falar de Nzinga-a-Mbande, sobejamente conhecida por todos nós, a “rainha incapturável”, a rainha que combateu os portugueses traficantes de escravos.
O livro tem uma série de protagonistas, dos quais destaco o jovem guerreiro angolano Kizzura, a sua mãe Muenga, o jovem português Óscar, Nvunda, e a já citada Nzinga-a-Mbande. Inclui o conhecido “incidente da cadeira”, protagonizado por Nzinga-a-Mbande, num encontro com o governador português [pp. 181-191].
O modo de vida dos protagonistas é confrontado com uma série de elementos históricos, como sejam a presença portuguesa no actual território de Angola, o comércio transcontinental e o incontornável tráfico de esravos. Fala-se em 15 milhões de africanos levados para longe das suas terras, mas o número real terá sido bastante superior a esse, tendo em conta os muitos escravos que morriam por se revoltarem, por tentarem a fuga ou por perecerem durante as longas viagens oceânicas.
O comércio daquela altura incluía uma série de artigos, qua variavam entre alimentos e vestuário, passando por quinquilharia e artigos de higiene. Mas incluía também seres humanos, como objecto bastante lucrativo de troca comercial: “Muitos homens locais, inclusive nobres do reino, aceitaram o assédio das somas pagas pelos traficantes e tomaram parte do negócio”, indicando “as localidades habitadas, o que torna muito mais fácil a captura” [pp. 53-54]. Temos que assumir que esta não foi uma característica de África, uma vez que terá havido tráfico de escravos também noutras paragens. No que diz respeito a Angola, estima-se as perdas de então em 6 milhões de pessoas. Por isso se justifica a existência de descendentes de escravos “angolanos”, não apenas em Portugal ou Brasil, mas também nos Estados Unidos da América. Está inclusivamente em curso um estudo para detectar a origem de negros norte-americanos, a partir do DNA de africanos de várias origens (incluindo angolanos).
O livro traz-nos histórias de luta e resistência à ocupação e ao tráfico negreiro. Mas relata também uma série de ocorrências em fugas pela mata, em ziguezagues sinuosos para tentar escapar da peste responsável pela morte de milhares de pessoas, em peripécias numa travessia oceânica entre dois continentes e em lutas permanentes pela sobrevivência. É precisamente neste quadro de luta pela sobrevivência que ocorre o consumo de carne humana, para sobrevivência de outros humanos [pp. 37-40, 51, 52, 71-72, 118].
Mas não só de tráfico de escravos trata A travessia. O livro dá-nos a conhecer elementos da economia e do sistema monetário do reino [pp. 118-122, 145-146], para além de uma série de profissões – desde artesãos a guerreiros, passando por caçadores, mercadores, marinheiros, pescadores, assistentes sociais, curandeiros (médicos e farmacêuticos) e padres. Fala-nos da vida das pessoas comuns, mas também da família real. E apresenta-nos uma Nzinga-a-Mbande que é um “homem em corpo de mulher”, uma vez que “fala, faz e até luta como homem” [p. 103]. Uma Nzinga preocupada com os seus súbditos, uma Nzinga habituada a lidar com os seus [pp. 97, 103].
Há uma série de outros elementos sociológicos presentes nesta obra. Podemos destacar, neste livro, a menção a duas mulheres aguerridas, daquelas cuja presença marca realmente presença – a já citada Nzinga-a-Mbande e Muenga, uma viúva preocupada com os seus filhos, com a sua terra e com o seu reino, uma senhora que era tecelã e artesã. A presença da mulher vai mais longe, com amneção ao facto de Nzinga fazer questão de incluir mulheres no seu exército [p. 182].
A medicina também está presente, com a utilização de ervas e unções [pp. 66, 74]. Não posso deixar de mencionar os rituais que devem acompanhar todo o processo de cura [p. 75]. E é preciso referir a cautela que devemos ter com as crenças, pois “quando a pessoa tem uma crença sobre alguma coisa, pensa que ela é única e verdadeira”, esquecendo-nos em realidade que crença “significa que a pessoa não tem a certeza, mas acha que a tem” [p. 232].
Outro elemento é a ideia de “civilização”, introduzida pelos portugueses. Tratava-se, realmente, de uma ideia de subalternização dos elementos culturais autóctones, em benefício de valores e elementos da cultura ocidental. A intenção era beneficiar quem relegasse para plano secundário a sua própria cultura. Para isso, utilizavam todos os trunfos de que dispunham, incluindo armas e a religião [pp. 56, 98-100]. Como não há mal que sempre dure, os angolanos conseguiram libertar-se do jugo colonial, depois de cinco séculos de presença portuguesa e de cerca de um século de colonização.
Apesar de termos alcançado a independência política, há uma série de dúvidas que nos atormentam. Uma das grandes inquietações dos angolanos tem a ver com o nosso futuro enquanto nação que se quer consolidar. Não admira, pois, que o autor se indague como é possível a sua filha, na altura com apenas cinco anos de idade, ter ouvido falar de “Cleópatra, Catarina a Grande, Rainha Elizabeth e Margareth Tatcher”, mas não de Nzinga-a-Mbande [p. 13]. E nós devemos ficar intrigados quando isso acontece com os nossos filhos de 10, 15 ou 20 anos, que nunca ouviram os nomes de Mandume, Mvemba-a-Nzinga, Ngola Mussari ou Deolinda. Não entendemos que crianças e jovens o nosso sistema de educação está a (de)formar, jovens que sabem o que se passa em casa do vizinho do final da rua, mas pouco sabem da história da sua própria casa. Não nos cansamos de chamar à atenção para as deficiências do sistema de educação, cuja actual reforma sem alicerces precisa urgentemente de reforma. E aqui recorro à área da construção, para afirmar que aquilo que se constroi sem alicerces vai ruir, mais tarde ou mais cedo.
O livro A travessia é de leitura obrigatória para adolescentes e jovens, que assim poderão ter contacto com elementos da história de Angola de forma suave e com descrições na primeira pessoa.
Por todos os aspectos que aqui mencionei, A travessia é um livro que recomendo não apenas aos leitores angolanos, brasileiros e portugueses, mas também a moçambicanos, sãotomenses, cabo-verdianos e outros africanos. É um livro que deve ser publicado também aqui em Angola e deve ser vendido nos demais países africanos onde se fala português. Aproveito esta ocasião para lançar ao autor o repto de o traduzir para kimbundu, inglês, francês, russo e mandarim, de modo a levar para outras paragens elementos da história de Angola, tão brilhantemente romanceada neste livro.

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