A incompletude disciplinar das literaturas africanas

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A incompletude da disciplinarização das Literaturas Africanas manifesta-se através da incompatibilidade existente entre os fundamentos epistemológicos e metodológicos que sustentam a sua teorização, crítica e ensino, por um lado, e a especificidade do seu objeto de estudo, por outro.

Embora as Literaturas Africanas constituam um campo que atrai a intervenção de especialistas como resultado da divisão do trabalho intelectual, no plano institucional e epistémico não é ainda uma disciplina no sentido pleno, na medida em que é reconhecível um défice de disciplinaridade. Para que tal situação deficitária seja alterada será necessário alcançar o «nosso objectivo final» que, de acordo com Paulin Hountondji, consiste no seguinte:

[…] um processo autónomo e autoconfiante de produção de conhecimento e de capitalização que nos permita responder às nossas próprias questões e ir ao encontro das necessidades tanto intelectuais como materiais das sociedades africanas. O primeiro passo nesse sentido seria talvez formular “problemáticas” originais, conjuntos originais de problemas estribados numa sólida apropriação do legado intelectual internacional e profundamente enraizados na experiência africana.

À luz da sociologia da ciência, a constituição das disciplinas pressupõe a existência de um tipo de organização. Entre os seus indicadores temos: aparato de conceitos e categorias que configuram uma linguagem e normas técnicas; a integração no currículo do ensino superior; métodos e programas específicos; instituições de carácter associativo; profissionalização e consensos da comunidade científica disciplinar; publicações de referência e respetivos índices bibliométricos.

Ora, se concentramos a nossa atenção sobre os países africanos de língua portuguesa, percebe-se que o estatuto disciplinar das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa há-de ser aparentemente consistente, se o submetermos ao teste de contextualização epistemológica, partindo do postulado segundo o qual o conhecimento científico é uma construção social que denuncia as marcas dos sujeitos ou grupo de sujeitos que o produzem bem como as injunções do tempo e do lugar em que se realiza a sua produção.

A noção de campo científico proposta por Pierre Bordieu tem aqui uma relevância particular, na medida em que introduz o elemento de conflitualidade entre os agentes que o integram, pondo em causa a ideia de homogeneidade que parece caracterizar a comunidade científica ou o segmento dos que se dedicam aos Estudos Literários Africanos.

Os agentes que intervêm no campo científico podem ser sujeitos individuais ou disciplinas. Mas as disciplinas organizam-se numa estrutura hierárquica, de tal modo que elas são definidas pelas propriedades intrínsecas e pela posição que ocupam no espaço das disciplinas, tal como Pierre Bourdieu.

Por isso, a luta aparentemente inexistente que os investigadores e especialistas Africanos e não-Africanos travam entre si visa a aquisição de um bem escasso: o monopólio do discurso científico sobre as Literaturas Africanas que vem legitimando a existência de uma profissionalização, podendo dizer-se que o exercício da docência, a leitura e a sua interpretação ocupam um modesto lugar no sistema de disciplinas e subdisciplinas, garantindo o exercício de uma atividade profissional com a qual se auferem rendimentos para uma vida inteira relativamente confortável como acontece nos Estados Unidos da América, segundo o testemunho de Bernth Lindfors.

Essas vantagens obtêm-se, em grande parte dos casos, à custa de uma flagrante incompetência de que derivam sentimentos de hostilidade movidos por professores não-Africanos contra os seus colegas Africanos sustenta Pius Ngandu Nkasama. Se entendermos que a inventariação das controvérsias que ocorrem no campo da teoria da literatura e da crítica literária opondo Africanos e não-Africanos, sugere a ideia de incomensurabilidade e, por conseguinte, a adoção de um relativismo rígido, torna-se necessário compreender, em primeiro lugar, o funcionamento das comunidades científicas, as relações, os consensos e os dissensos que se estabelecem no seu seio. Para tal a atenção deve deslocar-se para os princípios em que assentam as lutas pela imposição e hegemonia

A lógica desta e de outras lutas que ocorrem no campo dos Estudos Literários Africanos não pode ser suficientemente compreendida fora de uma comunidade e correspondente contextualização. Semelhante perspetiva pode suscitar a acusação banalizadora de relativismo, quando se coloca a questão de saber quem são os que têm legitimidade entre agentes, posições e disciplinas que lutam pela hegemonia.

A busca do consenso que mobiliza as comunidades disciplinares dos Estudos Literários Africanos não é rigorosamente o grande objetivo dos agentes que as constituem. Tal se deve à existência da já referida desigual distribuição de recursos no acesso aos espaços de legitimação e confrontação dos agentes. Compreende-se assim que o potencial de dissenso seja mais forte do que o de consenso, no contexto de uma assimetria epistémica de tipo vertical que se verifica na relação que os investigadores Africanos estabelecem com os seus pares estrangeiros.

O consenso epistemológico atravessado pelas práticas da generosidade e pelos fatores de legitimação são instrumentos do exercício da hegemonia. É que se o consenso pode ser entendido com o produto de «um diálogo submetidos às regras da dialética», no dizer de Pierre Bordieu, tais regras têm uma validade condicionada pelo triunfo da força do melhor argumento apoiado por um reforço institucional.
Deste modo afigura-se inevitável avaliar as condições necessárias e suficientes do consenso

O reconhecimento das assimetrias existentes no campo dos Estudos Africanos suscita a revisão das suas regras e convenções enquanto campo científico. Faz todo sentido questionar a validade universal dos conceitos, hipóteses e instrumentos analíticos originários dos países hegemónicos, com que se opera no campo dos Estudos Literários, sendo indefensável a reivindicação da objetividade e da verdade garantidas como pretendem os «realistas», pois estes pensam que o essencial consiste em afastar-se de qualquer comunidade particular, devendo ser observada a partir de um ponto de vista universal, como denuncia o filósofo norte-americano Richard Rorty. Por essa razão, as epistemologias ocidentais suscitam dúvidas sobre a sua eficácia, admitindo sempre a probabilidade de perspetivas concorrentes, no entender do filósofo austríaco PAUL Feyerabend.

Para lá do espaço territorial do Ocidente, deve ser reconhecida a existência de outros mundos e outras tradições, não podendo, por isso, os especialistas não-Africanos reivindicar o monopólio ou a universalidade do saber e da ciência assente exclusivamente na sua experiência. Em comunidades epistémicas que se dedicam aos estudos das Literaturas Africanas será, por conseguinte, legítimo fazer a advocacia do pluralismo teórico e crítico constituindo o relativismo epistémico um princípio fundamental.

Temos de repensar o processo de disciplinarização dos saberes e conhecimentos produzidos sobre África, neste dealbar do século XXI.

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