A língua Portuguesa e as línguas Regionais de Angola

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A língua portuguesa é a língua mais falada em Angola.

A língua Portuguesa e as línguas Regionais de Angola
Mamã Santa do União Kiela Fotografia: Jornal Cultura

O Português foi uma língua imposta pelo colonialismo português, que desvalorizou as línguas originais dos diferentes povos ou tribos bem organizadas que ocupavam o actual território angolano.
Com o tempo, os diferentes povos ou etnias formam falando menos as línguas regionais de Angola. Quando os angolanos começaram a ter acesso à escola, as pessoas mais escolarizadas, não falavam ou falavam timidamente ou, ainda, às escondidas, falavam as línguas regionais, com receio de serem mal considerados pelos colonialistas. Assim, os progenitores recusavam-se a comunicar-se com os seus descendentes e outras pessoas do seu agregado familiar em as línguas regionais. Por causa do complexo em relação ao uso das línguas regionais e do uso dos nomes originais angolanos relacionados com a nossa língua, muita gente de gerações distintas, nos nossos dias, não fala as línguas regionais angolanas, denominada «dialectos» pelos colonialistas. A estratégia dos deles era a de impedir que os angolanos assumissem a sua identidade cultural. Por consequência, actualmente, os angolanos têm dificuldade de assumir a sua identidade cultural.
Angola é, porventura, o único país africano com maior número de pessoas que têm o português como língua materna – a que é falada pelos progenitores, durante a infanto-adolescência de uma determinada pessoa, particularmente, pela mãe no contacto com o filho. A designação «língua materna» não dá azo a contestações.
Sendo a língua portuguesa a mais falada em Angola e a que unia (e ainda une) os angolanos, o Estado angolano, ao tempo da assunção do Poder, adoptou-a como língua oficial, passando a ser usada nas escolas, na administração, melhor dizendo, em vários sectores.
Durante, o período de colonização, havia mais rigor em relação ao uso da língua portuguesa, escrita e falada. Um pouco depois da proclamação da Independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, ainda havia esse rigor. Porém, com o andar dos tempos e devido às várias influências linguísticas que os angolanos tiveram, à falta de investimento em material didáctico e à exiguidade de professores com domínio do português, a relação dos falantes com a língua portuguesa foi-se deteriorando, paulatinamente, até se chegar à situação preocupante, que podemos testemunhar. Por isso, hoje, muitos estudantes de diferentes escolaridades, incluindo os universitários têm muitas dificuldades de usar o português, quando falam ou escrevem.
A comunicação social, que deve contribuir para que os angolanos, enquanto ouvintes, telespectadores ou leitores tenham melhorias na oralidade ou na escrita do português, muitas vezes, não tem cumprido com esse papel. Às vezes, até, influencia-os negativamente, embora se note alguma melhoria nesse aspecto, o que é de louvar.
A língua portuguesa é, em muitos casos, uma forma de manifestação da angolanidade, pelo que não se deve aceitar o facto de muitos angolanos não a dominarem. É desagradável, quando alguém que não seja originário de um país de expressão portuguesa, fale melhor o português do que um angolano, embora se diga que «a língua portuguesa não tem dono. É de quem a fale». Portanto, o estudo e o domínio do português são questões importantes e devem merecer a atenção de todos os angolanos. Há pessoas que apresentam como desculpa, o facto de o português ter sido imposto pelo colonialismo português. Contudo, não falam quaisquer línguas regionais de Angola.

INSTITUIÇÕES DE FORMAÇÃO
EM PORTUGUÊS
Em Angola, ao que parece, conta-se pelos dedos das mãos o número de escolas ou instituições, públicas ou privadas, que ensinam o Português. Devemos ter consciência de que Angola é um país aberto ao mundo e que acolhe muitos estrangeiros, que vêm à procura de emprego. Essas pessoas precisam do português para se comunicar. Muitas delas gostavam de o estudar numa escola, como ocorre no Brasil, por exemplo. O domínio ou o conhecimento do português facilita a integração do imigrante e contribui para que o português seja disseminado no mundo. E se pretendemos que a nossa língua, que une quatro continentes seja uma língua de trabalho na instituições Internacionais e usada como língua nas relações comerciais, devemos apostar criação de instituições de formação. O mesmo que se diz em relação aos angolanos, diz-se em relação a todos os países de expressão portuguesa – os lusófonos.
Não se pode aceitar que um desportista ou um estrangeiro que exerça uma actividade profissional em Angola, durante um tempo considerável, não domine a língua portuguesa. Por outro lado, precisamos de instituições com credibilidade, que possam traduzir para português, os diferentes documentos que vêm do estrangeiro.
O «Executivo» deve fazer o que estiver ao seu alcance para que haja melhorias no ensino da língua portuguesa, em Angola. Deve apostar na formação de docentes, na cooperação com Portugal e investir em material didáctico, nomeadamente. O Domínio da língua portuguesa facilita a compreensão da comunicação entre o emissor e o receptor. Infelizmente, há pessoas que não entendem informações óbvias por não dominarem o português. Nas escolas, há estudantes que não conseguem responder a perguntas de fácil hermenêutica, porque não dominam a língua portuguesa.

AS LÍNGUAS REGIONAIS DE ANGOLA
Consta-se que muitos angolanos não falam as línguas regionais de Angola, nomeadamente, o kikongo, o kimbundu, o umbundu e o kunhama. Há várias línguas regionais em Angola. Não mencionei todas. Daí usar o vocábulo«nomeadamente». Por causa dessa lamentável realidade, o Executivo, através do «Ministério da Educação», gizou um programa de ensino das «línguas nacionais», em algumas escolas, o que é de louvar. No entanto, a falta de recursos, financeiros, humanos e materiais, faz-me crer que, infelizmente, não terá êxito no seu ambicioso propósito.
Na verdade, o ensino ou o uso das línguas regionais de Angola tem a ver com um conjunto de aspectos interligados. Ou seja, deve haver uma estratégia da qual deva fazer parte algumas instituições, tais como o «Ministério da Educação», da «Comunicação Social» e o da «Justiça e dos Direitos Humanos», não pondo de parte as igrejas, como parte integrante da sociedade civil. Assim, acho que a Lei do Registo Civil deve estabelecer que todos os angolanos, ao serem registados, devam ter, ao menos, um nome angolano relacionado com as línguas regionais e que tenha um significado que não seja ofensivo à moral. Eis alguns nomes, que apresento como exemplo: «João Luvualu Gaspar», «Epalanga José Alberto»,«Domingos MpindaNzau» ou «Hélder Jacinto Cahanga», «Eduardo PaimKambuengo», «Silvino Pambassague», «José Manuel NJuzi», «Maria Dilo», «António NFulumpinga», «Bárbara Epalanga». Estou convicto de que se tivermos essa visão, também, estaremos, paulatinamente, a ultrapassar o nosso problema em relação à assunção da nossa identidade.
É importante dizer que as pessoas são identificadas como sendo de uma determinada sociedade ou de um país pelo seu nome, pelo domínio da língua originária desse país e por outros aspectos físicos e culturais.
Em relação à comunicação social, oxalá, nos diferentes programas radiofónicos e, em particular, os de televisão, se escreva, em rodapé, mensagens em línguas regionais. Estes e outros aspectos, designadamente, a existência de programas em línguas regionais, com traduções de vocábulos e expressões de português para línguas regionais e vice-versa, a existência de prémios musicais específicos para cantores que cantem em línguas regionais e a influência positiva das pessoas de grande relevância na nossa sociedade, resultante do facto de falem, publicamente, em línguas regionais, sobretudo nas entrevistas. Esses aspectos são determinantes para êxito do programa propósito do Executivo.
Constato, como muita tristeza, que em Luanda, a língua da minha região, kimbundu está a morrer. Há cada vez menos gente a falar kimbundu. Há cada vez menos compositores ou cantores a cantarem em kimbundu. Os grandes cantores em kimbundu já morreram. Gostava de deixar uma palavra de apreço ao cantor, Eddy Tussa por cantar em kimbundu, a língua da sua e da minha região – Luanda. Oxalá que haja mais cantores a cantar em Kimbundu e noutras línguas regionais. A Rádio Luanda pode ter um papel de grande influência. O radialista Adão Filipe tinha um programa de rádio, na sintonia 99.9 um programa, que valoriza as músicas cantadas nas diferentes línguas nacionais.
Por, favor, não deixem morrer as línguas regionais de Angola.

José Carlos de Almeida

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