A Língua portuguesa e os 40 anos de Angola

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Ilustração de Paulo Kussy

A Língua portuguesa e os 40 anos de Angola
Pinturas Fotografia: Arquivo

As razões que, desde sempre, me predispuseram a escrever sobre a Língua Portuguesa no contexto histórico, pedagógico e comunicacional, reflectem-se, negativa ou positivamente, nos mais variados sectores da sociedade, não sendo excepção a dimensão linguística…
Façamos um recurso à história, antes de uma volta ao contexto hodierno da Língua Portuguesa em Angola.

CONTEXTO HISTÓRICO
Convém assinalar que a Língua Portuguesa impôs-se um pouco por todo o lado em Angola, e não só nos meios urbanos. Por altura de 1974, ano em que se iniciou o processo que levou à independência, os portugueses faziam tentativas de generalizar a língua portuguesa através do acesso mais fácil dos jovens negros ao ensino rudimentar e básico. Por outro lado, as rádios transmitiam em Língua Portuguesa (Emissora Oficial, Rádio Clube de Angola, Rádio Ecclésia e as rádios clubes de todos os distritos – a rádio em Angola estava muito desenvolvida e por isso no pós-independência muitos radialistas tiveram grande êxito em Portugal), só havendo uma estação, adjacente à Emissora Oficial, a Voz de Angola, que transmitia nas diversas línguas da "província", funcionando como veículo de contra-propaganda à Voz da Revolução do MPLA (que transmitia em Língua Portuguesa e noutras angolanas) e à Voz de Angola Livre - Liberdade e Terra da FNLA que transmitia de Kinshasa.
A seguir à independência, e com a saída generalizada dos professores portugueses, o Governo tentou formar professores nacionais, sucedendo-se as medidas de formação. Os antigos manuais coloniais foram substituídos por manuais socialistas. Os professores nacionais tentaram impor-se como classe autónoma frente ao poder, mas foi muito difícil. O ensino era todo ministrado em Língua Portuguesa. Em Cabinda, todos gostavam de falar o Português porque aquele povo se sentia muito ligado aos portugueses.(Vide Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)

CONTEXTO COMUNICACIONAL
Ora, no pós-independência, a Língua Portuguesa ganhou novos contornos, sobretudo por os seus falantes estarem mais propensos ao liberalismo linguístico, sem se situarem academicamente, levando-os a um aparte do Português, dito padrão.

A VERDADEIRA CARACTERÍSTICA DA NOSSA LÍNGUA
Quarenta anos é mais que suficiente, independentemente de algumas adversidades, para que se constitua uma nação angolana desde a Língua.
Exactamente isso! O sábio e culto gramático brasileiro NAPOLEÃO MENDES DE ALMEIDA, hoje falecido, deixou-nos, além de muita saudade, o seu testamento espiritual, com cláusula preciosíssima: "É erro de consequências imprevisíveis acreditar que só os escritores profissionais têm a obrigação de saber escrever. Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos. A língua é a mais viva expressão da nacionalidade. Como haveremos de querer que respeitem a nossa nacionalidade se somos os primeiros a descuidar daquilo que a exprime e representa, o idioma pátrio/?" ("Gramática Metódica da Língua Portuguesa", Editora Saraiva, 37.ª ed., 1992, p. 7).

"QUEM NÃO SABE PARA ONDE VAI, QUALQUER CAMINHO É POR ELE ACEITE"
Assim acontece connosco. Por não nos definirmos, por não nos delimitarmos na comunicação convencional lusófona, passamos a amalgamar tudo e mais alguma coisa, defendendo que importa apenas a comunicação, não olhando para a língua como arte, quando há uma elegância.
Sociedades sem ensino rigoroso, sem vida intelectual que se ressalte, no aspecto da Língua, que português poderiam falar? Talvez não sigam a Gramática Portuguesa, mas fazem um terrível esforço por se fazer entender em Português. As populações estão deslocadas, não sabem por onde se apegarem.
Deve haver milhões de "maus falantes" de Português nos megacentros urbanos, ou não só.

CONTEXTO PEDAGÓGICO
Jomo Fortunato, licenciado em Línguas e Literaturas Modernas [variante Português-Francês] pela Universidade de Aveiro, diz que devemos apostar na formação dos professores e trabalhar na pesquisa dos erros mais comuns, tendo defendido ainda que o latim nunca poderia ser retirado do currículo escolar nacional. Para o especialista, quem estuda latim aprende o Português como se estivesse a ver as coisas de cima. Ainda segundo o professor, o que temos do latim não são somente as palavras, mas também a sintaxe.O docente universitário diz que o ensino da língua é um processo muito complexo, pelo quetemos de saber qual é a origem do aluno, isto é, se ele tem o português como língua materna, língua segunda, ou língua estrangeira. Há três variantes de ensino. Ao ensinar, por exemplo, um sujeito que tem o português como língua materna, o método é diferente, assim como o que o tem como língua segunda ou estrangeira. Mas, boa parte dos professores de Português não o fazem, porque não são especialistas na área. Eles dão Português – afirma – porque acham que sabem falar bem português. Essa também é outra questão. Por fim, defende que os professores de Portuguêsdevem estar cientes de que vivemos num território onde todos nós cometemos erros.
"Precisamos urgentemente de um sistema sério de formação de formadores de língua portuguesa, com métodos de ensino baseado nos erros que ocorrem de forma mais frequente entre os falantes angolanos. Tenho defendido que um professor de nacionalidade portuguesa não é, necessariamente, o melhor professor de língua portuguesa para os angolanos, em termos de optimização do processo ensino-aprendizagem.
Os contextos culturais assumem importância capital e diferentes opções pedagógicas, quando ensinamos uma língua, enquanto materna, segunda ou estrangeira.
As flexões verbais, os modelos de conjugação e as diferenças modais do verbo, sobretudo do conjuntivo, são aspectos que devem ser tratados nas aulas com muitos exercícios. Aliás, eu tenho transformado as minhas aulas em "oficinas de língua", com maior predominância nas práticas. Abandono cada vez mais o método expositivo, que só ocorre para resolver um problema prático. Não há sintaxe sem o conhecimento da classe das palavras. Na frase, "O João come laranjas", perguntei a um aluno universitário para sublinhar o verbo, e não sabia. Só depois do conhecimento da categoria das palavras, estamos em condições de entender a sua função no contexto frásico". (Jomo Fortunato, mestre em Literatura Angolana, pela Universidade Agostinho Neto)
António Correia, por sua vez, defende a definição da verdadeira característica da nossa língua, ou melhor, defende que 40 anos é mais que suficiente, independentemente de algumas adversidades, para que se constitua uma nação angolana desde a Língua. Para ele, nem os professores, nem os jornalistas, nem ainda alguns académicos, entre outros, têm sido capazes de exercer os seus reais papéis para definição do que já é, em alguns círculos, tido como “portuangolense”.
"Antes de começar a discorrer, é oportuno felicitar o meu caríssimo amigo e irmão na língua, Alberto, por se ter mostrado disponível a encetar tão grande missão académica. A priori, o meu muito obrigado, como expressão mais alta da atitude despretensiosa de quem reconhece a participação de outrem na sua vida, desconhecendo a auto-suficiência.O país independente sempre teve uma elite urbanizada que perdeu algo da sua raiz étnica. Isto pode ser controverso e poderá haver opiniões divergentes. Os dois presidentes de Angola, Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, pelo que conheço, sempre se expressaram em Português. Acompanhei comícios em várias partes de Angola e sempre se expressaram em Português. Tanto um como outro se enquadram naquilo que poderá chamar-se de grupo angolano de Língua Portuguesa.
Quanto ao sotaque do Português de Angola, é muito diferente do que se ouve em Portugal e no Brasil. Não tem nada a ver nem com um nem com outro, é muito característico. Muitos sons abertos em Portugal e "muito abertos" no Brasil são pura e simplesmente fechados em Luanda. Por outro lado, o português angolano é "cantado" e "arrastado", influência ainda das línguas locais, não aceitando que alguém considere esta realidade errónea. É nesta última frase que reside o meu problema, a minha maior batalha. Quarenta anos depois, ainda não conseguimos definir a verdadeira característica da nossa língua, quando temos alguns académicos e “perfeitos” letrados. Se, de facto, e para aqui chamo Fernando Pessoa quando afirma que ‘a Língua Portuguesa é a nossa pátria’, então é nossa missão sentirmo-nos no direito de a cuidar e definir, de acordo com a convenção vernácula, isto é, de determinada região linguística." (António Correia, linguista, jornalista e classicologista)

Alberto Sebastião

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