A literatura infantil angolana

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“Filhos do coração” filhos de África. Meio de educação e de resgate e preservação dos valores e tradições

A literatura infantil angolana

Marta Santos, escritora angolana, escreve no livro “E nos céus de África... era Natal” que tem filhos que escolhem as suas mães, “são os filhos do coração, os que aceitamos, porque temos amor para dar!”

São para mim, filhos de África que protestam, sentem a necessidade de uma infância condigna, educação para todos sem distinção, logo garante de seu desenvolvimento.

Vem dai a literatura infantil angolana contribuindo para a educação das crianças pois é inegável a importância que ela tem. Por meio dela a criança desenvolve a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa e acima de tudo a carga pedagógica que encerra.

O livro é um elemento fundamental no processo de desenvolvimento da criatividade e da personalidade das crianças. A literatura infantil deve então ser concebida visando o deleite e a recreação mas acima de tudo a formação.

Fácil notar nos autores angolanos essa preocupação a julgar pelos títulos dos livros editados: “A esperteza dos animais” de John Bella, “Dois reis no céu para a terra” de Yola Castro, “O luar do saber” da Marta Santos” e outros nomes que pintam letras na escassa mas que se quer vasta literatura infantil angolana.

E aproveito aqui parabenizar a nova escritora vencedora do prémio “Jardim do Livro Infantil” Zulini Bumba, aguardamos pela obra.

A literatura infantil angolana vem ainda a ser meio de resgate de valores ao propor estórias onde, como escreve Maria Celestina Fernandes “Aparecem personagens que são figuras míticas, como a sereia kianda, a deusa das águas, os gingongos (gémeos, tidos como pessoas sobrenaturais) e também os seres inanimados da natureza que falam, sentem e se emocionam como os humanos.

Os autores identificam-se bastante como seu meio, a terra de origem” a moral das estórias traz ao de cima os valores da solidariedade, amizade, persistência, empenho, amor.

John Bella, o mais prolífico dos escritores na vertente infantil, escreve no livro “Estes dois são cão e gato”: “Tata Yetu não gostava de sujidade. Por isso achava bonito, quando via gente a pegar em vassouras, varrendo as ruas do local onde morava.

Depois apanhava-se o lixo. Era colocado no balde e iam deitá-lo no contentor...”

No livro “O golozo” de Yola de Castro o menino Juca mostra persistência, empenho, para ser um bom jogador de futebol. “Juca procurava estar sempre informado sobre as últimas do futebol. Assistia a todos os jogos na televisão... Sonhava como futebol... No seu imaginário, marcar golos para a vitória fazia-lhe experimentar um gozo superior ao da realidade.

"A solidariedade de Tiago sente-se por ele nos seus sonhos oferecer balões vermelhos a todas as crianças. Aprontou-se para a “festa festança” no Jardim do Livro Infantil onde certamente partilharia com amigos muita alegria como se lê no livro da Cremilda de Lima “O balão vermelho”. Apreciamos ainda o exemplo da verdadeira amizade que deve ser valorizada no livro de Áurio Quicunga, “Lodinho, menino de lodo - boneco de ouro”.

A kianda, o mar, o pescador, são temas recorrentes que trazem ao imaginário infantil aquilo que constitui “as nossas tradições/ as nossas raízes culturais” escreve Cremilda de Lima no livro “A kianda e o barquinhode Fuxi”. A oralidade está muito presente nas obras o que aproxima as crianças ao objeto livro pois a linguagem e alguns contos são inspirados na oratura, a fim de introduzi-las na cultura tradicional.

A biblioteca viva é a figura do avô que conta nas noites de luar onde “o canto das cigarras e o crepitar das fogueiras acesas...” aumentam o encanto de ouvir. É assim na África, “avós e netos à volta da fogueira, a aprenderem coisas novas: lições de vida!”.

O Fuxi, esse nome africano era-lhe assim chamado porque nasceu a seguir aos gingongos, “comas suas mãozinhas foi fazendo ondas e o barquinho navegava mesmo... Não se contentou só em fazer ondas pequeninas. Não! Quis também fazer ondas grandes... cada vez maiores... e assim...Que “GRANDECALEMA” Desesperado e lágrimas nos olhos vem o avô para o consolo.

Fuxi vai então “aninhar-se nos joelhos do avô, “um velho pescador, cabelos brancos, olhos de quem viu e sabe tanta coisa domar” que lhe iria contar a história da Kianda.
“...escuta... vou-te contar uma história que o meu avô me contou e ele dizia que o avô dele já tinha contado...
Certa noite...”

A kianda, figura mítica, é apresentada ao Fuxi e este percebe então que “Não é só ir buscar peixe, é preciso também dar de comer e beber a kianda” a rainha do mar manifesta-se na grande onda os pescadores “para aclamarem a kianda” deitam comida, bebidas ao mar. “Todos os anos fazem uma festa do MAR em sua homenagem”. Assim todos os “fuxis” percebem, ainda que fantasiosamente, a tradição, e identificam-se com a cultura.

O gênero poesia, precisamente a poesia infantil, não é cultivada tendo sido apenas publicado escassos títulos. Ocorre-me agora o nome de Manuel Rui com “O Assalto, 1979” e Maria Celestina Fernandes como livro “A estrela que sorri 2005” do qual retiro versos do poema “o pescador” para selar minha divagação nas letras para os “cambongas” que são deveras “filhos do coração”:

“Seguia remando seu dongo
garboso pescador da ilha,
quando, no alto mar,
ouviu um canto de encantar.
...
ora, no canto e na luz
que da sereia seriam,
ficou para sempre enterrado
o sossego do garboso pescador.”

Mulemba waxa Ngola, 06 de Junho de 2012.

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