A literatura sapiencial entre os Kibala

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Resumo
Numa recolha de onze adivinhas e quarenta e seis provérbios feita na região da Lamanda, Kibala, ao analisar-se a função de nível implícito percebe-se que estes dois géneros considerados como pertencentes ao mesmo modo de discurso literário, macro conjunto lírico, apesar de prefigurarem condições sociais de comunicação idênticas ocorrem em settings distintos implicando as adivinhas um ritual próprio que resulta do facto do ensinamento, móbil de qualquer um dos géneros, ser, neste caso, escondido e acessível só depois de desvendado o enigma posto.
Tanto o provérbio como a adivinha ocorrem em situação obrigatória de troca (COSTA PEREIA: 2015, 32), mas enquanto aquele em transacção discursiva do quotidiano e de modo espontâneo, esta em setting cuidadosamente preparado implicando um ritual que impõe regras com prémios e sanções.
Palavras-chave: LOT, função implícita, provérbios, adivinhas, literatura sapiencial.

A literatura sapiencial entre os Kibala
Povo apois a produção Fotografia: Jornal Cultura

Introdução
Os provérbios e as adivinhas aparecem, na teoria da Literatura Oral Tradicional (LOT) como textos de natureza “formulística” (sic) (PINTO-CORREIA; 1992, p. 122) porque correspondem a uma relativamente baixa ou mesmo inexistente variação. É frequente encontrarmos textos ocorrências cujas formulações não correspondem à variante da língua correntemente falada testando essa capacidade de resistência à variação. Este facto torna estes textos como ideais para se estudar a variação diacrónica das línguas mas não é isso que nos traz hoje aqui. Hoje queremos falar de adivinhas e provérbios como modelos da literatura sapiencial entre os Kibala, grupo humano de falantes de Kimbundu que se fixou na região do K-Sul a que deram o nome, vindos do potentado do Ndongo, no séc. XVII, devido à grande movimentação dos Jagas a partir do baixo Kasai, a quando da formação do potentado Lunda dando origem ao que ficou conhecido pelo “Grupo Cinguri” ou Kimburi que designou o ciclo de migrações com origem no Leste e que atingiu toda a região ambundo desde a Matamba ao Libolo no extremo Sudoeste do Ndongo.
A adivinha que usamos para iniciar esta comunicação é usada nesta região como formulário de abertura de outras adivinhas (como nos afirma VUNGE; 2016. Classificação Genológica de Adivinhas, Contos e Provérbios da Kibala, Monografia de licenciatura de ELPLN da UniPiaget, 2016) o que varia, não só no conteúdo como na fórmula de outras regiões para os falantes de Kimbundu.
Em Luanda, por exemplo, tal como nos reporta Óscar Ribas (1964, p 149), “o narrador anuncia: – Nongonongo jami, a que a assembleia autoriza: – Nyongojoka”, o que dá início à sessão de perguntas e respostas com penalizações para quem erra. Já na região do Kwanza-Norte e Malanje, como refere António Fonseca (1996, 46), diz-se sosoya, para lançar a adivinha a que a assembleia responde, soya.
Como se vê, a estrutura é a mesma as palavras é que são diferentes. Para Luanda e Bengo o narrador anuncia que tem adivinhas para desafiar quem quiser decifrá-las e a assembleia responde-lhe que as distribua como quem dá cartas num jogo de cartas. Já na referência ao formalismo referido por Fonseca, o narrador é mais directo pois avisa que vai desafiar a argúcia de cada um para desvendarem enigmas, a que lhe respondem que estão prontos: «desafia!».
No primeiro caso o narrador usa um nome, nongonongo, para, duma forma neutra, anunciar-se como detentor de uma reserva de enigmas: «minhas adivinhas». A acção é determinada pela assembleia que decide adentrar, por sua conta e risco, nesse universo codificado autorizando o narrador a destapar o seu cabaz de enigmas: «Volteia-as!» é esta a tradução colorida que Óscar Ribas faz à forma verbal imperativa nyongojoka e que reproduz não só o sentido de quem apresenta o enigma para ser decifrado mas também que esse acto é feito como quem distribui as cartas numa rodada de poker jogado a feijões.
No segundo caso o acto começa a ganhar corpo logo a partir do narrador que se propõe a desafiar a assembleia para um jogo de descodificação de enigmas apresentando a forma verbal imperativa sosoya: «desafio-vos a que desvendem», a que a assembleia responde soya ou sola: «desafia!»
Em cada um dos casos a fórmula repete-se adivinha após adivinha.
Entre os Kibala o setting que lança uma sessão de adivinhas começa exactamente com uma adivinha:
Kindindindi kindindindi? a que a Assembleia responde à uma: Piña pomaswapo. Após esta fórmula a sessão está legitimada e as adivinhas vão surgindo sem mais entremezes.
Afinal como se traduz esta última fórmula?
A pergunta é composta por expressões onomatopaicas que representam o som da fala, é qualquer coisa como o blá blá da LP, mas atenção pois é um blá blá sentencioso. A resposta dá-nos a medida da dimensão da adivinha: piña pomaswapo. «Aonde se caga, também se urina».
Somos remetidos para o acto mais humano e repetido de todos nós e o narrador é posto à vontade pela assembleia que lhe recorda que todos ali presentes se movimentam no mesmo universo. Ao mesmo tempo somos levados também a lembrar que esse acto se completa realizando duas funções vitais na mesma oportunidade. Da mesma maneira uma adivinha não é só um jogo de palavras para se decifrar enigmas mas que esse enigma nos remete necessariamente para um ensinamento.
Invocar este acto humano, à sensibilidade judaico-cristã, filisteia por convicção, pode parecer grosseiro mas, o que é certo, é que Théophile Gautier, o mestre do parnasianismo, ao defender a arte pela arte dizia que se o belo tem que ser útil então o local mais belo da sua casa era a retrete introduzindo deste modo o humano e solitário acto de cagar na semiose literária. Além disso para um falante de kimbundu o problema da grosseria nem se põe pois também não entende como é que algo tão humano pode ser vergonhoso.
Com esta fórmula não só se dá início à sessão de adivinhas como as aproxima, como literatura sapiencial, aos provérbios. Tanto as adivinhas como os provérbios sustentam-se da lição que se retira de modo a moldar um comportamento não imposto mas escolhido pelo entendimento da justeza da lição. Para melhor adesão a este propósito a cosmovisão destas narrativas líricas é alimentada pelo húmus primordial da alma bantu forjada nas extensas savanas africanas de tal modo que o universo particular convocado facilmente se deixa generalizar.

As adivinhas e os provérbios
Estes dois géneros da LOT aproximam-se em termos de modo de discurso.
Lasapo é a palavra usada entre os Kibala para referir o conjunto de adivinhas, provérbios, contos e também canções. Nesta categoria entram todas as ocorrências que nos remetem para um propósito sapiencial.
Lasapo é o conceito alargado de LOT e desdobra-se em:
• Manoñonõ para designar os provérbios;
• Lasapo para designar as adivinhas;
• Maka para designar as narrativas mais longas, lendas, mitos, sagas, fábulas, contos;
• Mihimbu, finalmente, para designar as canções. As canções são estratégias de comunicação incorporadas nos outros géneros com a finalidade de activar a função explícita da ocorrência.
Nesta nossa reflexão interessa-nos simplesmente os conceitos que tratam os provérbios (manoñoño) e as adivinhas (lasapo). Em ambos os casos estamos perante géneros do modo lírico, mas se o provérbio nos remete directamente para o ensinamento que se pode retirar do caso particular convocado, já a adivinha, para atingir o mesmo objectivo, terá de ser primeiramente descodificada pois envolve um enigma.
Vejamos estas duas ocorrências retiradas do corpus que sustenta este trabalho:
• Provérbio: Akwambata kwalula wipwa. A tradução: Quem é transportado às costas não apanha tortulhos.
• Adivinha: Pergunta: Pumbulukutu munyana? A tradução: Vape, no deserto? Resposta: Luhuny lumoxi kalukutu. A tradução: Com um só pau não se faz um atado.
O provérbio ensina-nos directamente que se se é dependente a nossa vontade, a nossa liberdade de acção, fica limitada, já a adivinha para nos levar ao ensinamento que propõe, isto é, que a união faz a força, necessita ­primeiro de que se descodifique o enigma que a envolve.
Vejamos:
Que é isto de pumbulukutu munyana? Uma onomatopeia que nos remete para a deslocação do ar de uma vara a ser vibrada no deserto? A pergunta leva-nos a questionar, como é que pode, no deserto, vegetação arbustiva erecta, vibrar? Pode-se encontrar uma ou outra vara mas não é o deserto o sítio certo para ouvir o vape da vibração pois é um espaço despido de vegetação. Se não é o deserto o local indicado para que ocorra esse fenómeno então por que razão é invocado? A palavra-chave que nos permite desbloquear o enigma é a vara, o pau, a lenha que é tão procurada no meio rural pois é com ela que se faz o fogo para cozinhar, e esta sendo tão parca no deserto então não é lá que se vai à lenha, pois um só pau não pode ser amarrado para formar um feixe.
Depois de descodificado o enigma chega-se finalmente ao ensinamento: a união faz a força.

O discurso literário
Como discurso literário fixemo-nos na análise da categoria espaço e tempo para, com mais pormenor, olharmos para a cosmovisão convocada.
A cosmovisão é própria de um universo rural onde os actantes se movimentam impulsionados por um mundo utópico, isto é, a sucessividade dos acontecimentos é a esperada pelo concerto determinado pelas leis superiores da natureza. Não se pense que estas são imutáveis, que não são, pois, como diz Hampaté Bâ (2010; 187), “Na tradição da savana, […], o conjunto das manifestações da vida na terra divide-se em três categorias ou «classes de seres», os seres inanimados, os seres animados imóveis e os seres animados móveis” e o homem, que pertence a esta última categoria, só é completo quando incorpora, e de um modo dialéctico interpreta, esse conjunto de manifestações da vida na terra cada uma com o seu propósito definido sem excluir nem sobre ou sub estimar nenhuma.
A linguagem é prosaica pois é universal, é acessível a toda a comunidade de falantes e não só a iniciados (privilegiados), isto é, é inclusiva. Além disso, na LOT, a ambiguidade é cercada pelos implícitos legitimados pela cosmovisão convocada que supõe sempre uma semioesfera partilhada pelo mundo utópico onde se movimenta a sociedade ideal que corporiza os comportamentos modelo propostos o que limita a indeterminação.
A leitura destes textos curtos, formalísticos (adivinhas) ou contingentes (provérbios), obedece ao critério atrás referido e não se compadece de interpretações casuísticas e descontextualizadas.
(Analisando os textos orais sob o critério de «situação de comunicação» as ocorrências breves, formulários (adivinhas) e contingentes (provérbios), agrupam-se em situação obrigada de troca.) Zavoni (1988; p. 39)
Como recurso estilístico capaz de activar a função de nível explícito, isto é, a função responsável pela literariedade do texto oral, as onomatopeias são as estratégias mais produtivas que o discurso narrativo usa quando pretende presentificar o contexto situacional.
É claro que a LOT bantu recorre a muitas outras estratégias discursivas, nomeadamente os motivos sugeridos pela cosmovisão convocada como, a plasticidade do caminho de pé posto que se destaca, dum modo impressivo, entre as bordaduras verdes (ou cor mel) da vegetação circundante, a trempe formada por três pedras que sustentam a panela e concentram o calor, e muitos outros próprios do dia a dia rural que corporiza o seu universo.
Mas os sons que acompanham a vida são particularmente aproveitados para incorporar musicalidade à narrativa. Italo Calvino, num texto de 1955, realça a relevância do uso de onomatopeias na tradição narrativa africana que as passou, através da gíria do tempo da escravatura, à linguagem dos comics americanos: “É aliás sabido que das histórias africanas de animais descendem os contos de Uncle Remus, introduzidos no folclore norte-americano pelos negros, e cujo ciclo disneyano do Mickey Mouse é apenas uma tardia prole.” (1999; p. 8).
No corpus que se apresenta a seguir podemos encontrar o recurso a esta estratégia tal como já vimos nas duas adivinhas atrás referidas, a primeira das quais usada ela mesmo como fórmula que marca o início do setting próprio duma disputa de adivinhas.
Também nos provérbios encontramos alguns desses usos.
Vejamos o seguinte provérbio: Kila zakazaka so kila mbwi/ Depois de estar quente arrefece. Tentando uma correspondência com um provérbio corrente em português diríamos que após a tempestade vem a bonança.
A palavra sublinhada é uma onomatopeia que se usa para que possamos perceber que a água está a ferver pois que quando isso acontece o líquido passa a ter «voz». Não precisamos de pôr a mão para saber se está quente, basta ouvir o que ele, o líquido, tem a nos dizer. É esta a força da onomatopeia que por isso é introduzida com toda a oportunidade no discurso para captar a sua força ilocutória.
Neste outro provérbio: Waxemuka e waxemuka eme ngamunzumuna/ Qualquer indivíduo que aparece a transpirar: «Eu é que corri com ele». Os atrevidos em todas as ocasiões querem promover-se, andam sempre a «pôr-se na ponta dos pés».
Neste caso, a palavra sublinhada refere-se à «voz» suplementar do ofegante, a alteração da respiração por ter realizado um esforço não habitual faz-se ouvir. O som da respiração ­alterada é exagerado para que não passe despercebido e suscite curiosidade, vazia, tornando mais evidente a impertinência do atrevido.

Conclusão
A produtividade da onomatopeia como recurso discursivo está bem patente na tira de BD que a seguir apresentamos e retirada da última página da revista Cultura, 94, editada em Luanda.
Como podemos ver nos exemplos atrás apresentados, tanto os provérbios como nas adivinhas e, já agora, também na tira de BD, as onomatopeias não só cumprem um papel narrativo no domínio da estratégia de proximidade do universo convocado como torna o discurso mais apelativo por se tornar mais facilmente receptivo, relevando a função explícita deste tipo de textos.
A função explícita é fundamental para que os valores, que são comportamentos regulados e portanto submetidos a um mecanismo severo de censura social, possam ser transaccionados nos actos de fala em que ocorrem tanto os provérbios como as adivinhas.

I – ADVINHAS

A1– Ay kolunga axya magina. /Awa axitela apa axya kyezu /Awa akalakala apa axya mathemo.
A1– Os que morreram deixaram nomes. /Os que aqui varreram deixaram vassouras/ Os que aqui trabalharam deixaram enxadas.
R: – Mathu ay majina asala
– Os que morreram deixaram seus nomes.
– Os que partiram deixaram suas obras.

A2– Ixina kilandungu kukyumbu kya y kutena unonako so mukwi unona ko.
A2– Um jindungueiro no teu quintal e tu não podes colher jindungos, só os outros podem.
R: Com a tua irmã tu não te podes casar.

A3– Hombo isangila yahila kumukolo?
A3– O cabrito de sociedade morreu amarrado?
R:– Isangila andiko wenji.
– Sociedade não é negócio.

A4– Kindindindi kindindindi?
A4– (Expressões onomatopaicas/ sem possível tradução).
R:– Piña pomaswapo.
– Aonde se caga, também se urina.

A5– Mema yaya isekele kisala?
A5– A água vai e a areia fica?
– No rio, a água corre, mas a areia deposita.
R:– Mathu yaha magina yasala.
– Os homens passam mas as suas obras permanecem.

A6– Munu wammi oh?
A6– Ai do meu dedo?
R:– Nzala izo yo.
– Ali vem a fome.
– 6 a) Kema limunwe?
– 6a) E por detrás do dedo?
– 6b) Uku kutunda nzala kapwe wengya ko.
– 6b) A fome vem sempre, mas ninguém sabe de onde ela vem.

A7– Ngele muthumba ngatañana lumusoso ngite wawa ngeti?
A7– Fui à mata, ao me deparar com uma árvore pensei, ai se tivesse um machado, derrubá-la-ia!
R:– Mukwenda ngatañana lwilumba ngwite wawe etali.
– Ao andar deparei-me com a mulher dos meus sonhos e retorqui, ai se pudesse…
(Amor à primeira vista, convém recordar que na tradição da Lamanda é notória a primeira impressão, tanto é, que se diz que é a primeira cacetada que mata a cobra).

A8– Pumbulukutu munyana? (Onomatopaica)
A8– Vu pá, no deserto?
R:– Luhuny lumoxi kalukutu.
– Com um só pau não se faz um feixe.

A9– Lumbungu sambwa lumbungu sambwa?
A9– Um caniço de cada lado do rio?
R: U wemihta u wemitha nay usambwisa mukwo?
– Uma grávida em cada berma, qual de entre elas ajuda uma à outra na travessia?
– kapwete/Nenhuma

A10– Solaly lyatundu kumbonge lambota zike kate pusingo?
A10– O soldado vindo do quartel abotoado até ao pescoço?
R:– Muzi u mundombo.
– É a mandioca.

A11–a) Eti opupulu? Katyo kolyesu mbako.
– Que escuridão? Como de olhos vendados.
A11– b) Eti omwanya? Katyo kopala mwanyu.
– Que raios solares tão ardentes? Que nem de carecas a brilhar.

II – PROVÉRBIOS

P1– Akwambata kwalula wipwa.
P1– Quem vai às cavalitas não apanha tortulho.
– Quem é dependente tem a sua liberdade condicionada.

P2– Akwijya u kota eye wawapa u ndenge.
P2– O conhecido é mais do que o bonito.
– Vale mais o conhecimento do que a beleza.

P3– Angongolo amako nvula eh mumbongo wali.
P3– O Tortulho deu guarita ao milpés enquanto chovia, ao fim da chuva este comeu o pedúnculo do tortulho.
– O bem fazer e ser mal agradecido.

P4– Apa otukula kawanika po.
P4– Aonde se apanha o tortulho não é aconselhável que lá se estenda.
– Cada coisa a seu tempo/os santos da casa não fazem milagres.

P5– Apa pwapila pungu ipo tumwena ikengo.
P5– Onde há milharais há sempre o sobrevoo de aves.
– O sobrevoar das aves numa certa zona significa algo.
– Na juventude, onde há raparigas é motivo de atracção para vários rapazes.

P6– Apa pwapite owhe, onette kapitululapo linge.
P6– Se passa um esquilo, o rato não se pode queixar de falta de espaço.
– O que serve para o maior serve para o menor.
P7– Apa pwathotho kweko, ndunge itena po.
P7– Aonde não chega a mão, o pensamento certamente que chega e com facilidade.
– A inteligência vale sempre mais que a força.

P8– Apa pwene usakasaka mema pwene musoso.
P8– Aonde a correnteza da água está a curvar, tem pau.
– Todo enunciado verbal conotativo tem significado codificado.

P9– Apa pwete lusimba katela po lusapo.
P9– Onde está a chita, não se declamam provérbios.
– Não se fala mal do porco ao lado do javali, pois ambos têm semelhanças e comungam os mesmos ideais apesar de viverem em meios distintos.

P10– Eye wepulisa opulungu eye wakalilisa.
Quem questiona a viúva é o culpado dos seus choros.
P10– Quem questiona a viúva, é tido como o culpado do choro desta, pois que, às vezes, ela já se esqueceu do falecido, ao perguntar-lhe sobre o falecido, esta, antes de tudo, chora.
– Desmontar o passado (recordações tristes) muitas vezes, fere sensibilidades.

P11– Fundanga lyalizembe lutupya.
P11– A pólvora odeia o fogo.
– A pólvora não é amiga do fogo e vice-versa, porque o seu encontro é explosão.

P12– Hundu kayete lusapo kayoto.
P12– Uma conversa sem um provérbio é como uma canção sem ritmo.
– A sabedoria embeleza a fala.

P13– Ikyi kyaliseke okyo kilisaka ou kyalisungu okyo tilisaka.
P13– Quem se cruza e se abraça é que sente o impacto.
– Os que vivem juntos, são os que vivem as mesmas vicissitudes, independentemente da sua origem.

P14– Imbulu kyakuka so mwangu unzombi.
P14– O burro velho só mesmo capim novo.
– Quanto mais velho o burro, mais fresco é o capim do qual se alimenta.

P15– Jipa ngulungu makamba ndumba, jipa muthu makamba otila.
P15– Matas um antílope, muitas amizades para comer a carne, porém, matas alguém só algumas amizades para te visitar na cadeia.
– Na felicidade muitas amizades, na desgraça só algumas.

P16– Kembilaxi kalula.
P16– Quem não deixa perder não apanha.
– Quem não sabe perder não sabe ganhar.

P17– Ki hoxi yatundu kapiñana ongo.
P17– Quando o leão se ausenta o substituto é o leopardo.
– A força é sempre substituída pela força.

P18– Ki iñana kyekuta, hima unzenza.
P18– Se o macaco se empanturra o chipanzé imita-o.
– Macaco de imitação.

P19– Ki wandala utanga la ngandu, muzua kumema upeko.
P19– Se quiseres amizade com o jacaré, retira as armadilhas do rio.
– O verdadeiro amigo, não coloca impasses ao companheiro, pelo contrário, facilita.

P20– Ki we kuzolwisa kaponine, eye eh kuzolwisa kupono.
P20– Se quem nos tem como alvo ainda não parou tão pouco nós podemos parar.
– O nosso adversário é que nos fornece o descanso.

P21– Kila zakazaka so kila mbwi/ (onomatopaico).
P21– Tudo que tem princípio tem fim.
– Após a tempestade vem a bonança.

P22– Kumbondo kakwimi nyañwa.
P22– Ao embondeiro não florescem abóboras.
– Nem sempre o grande gera grandeza.
– Nem tudo que brilha é ouro.

P23– Kweko lyakwata papa kapwene.
P23– A mão segurou em bolso roto.
– As aparências iludem.

P24– Kweko lyakwata phoko lyalyase mbole.
P24– A mão que empunha o punhal aleija-se.
– O mesmo indivíduo, de um lado tem cerimónia de casamento e do outro tem óbito. Implica dizer que obrigações sociais não são negociáveis.

P25– Kwinjya nzamba kwenda andiko ukula.
P25– Conhecer o elefante passa por andar e não crescer.
– O saber não ocupa lugar.
– Ser mais velho, não significa saber tudo.

P26– Mona kajimbi tato.
P26– O filho jamais esquece o pai.
– Por mais que se esconda o filho ao pai, o sangue que nele circula, pertence-lhe.

P27– Mwippanga wimbilamo.
P27– Ao menos deve ter um animal no curral.
– Para se discutir de animais é preciso que se tenha no mínimo um animal no curral. Para discutir com propriedade certos assuntos precisamos de peritos.

P28– Ndunge wilonga mumu wisanga.
P28– Ensinas o conhecimento em alguém dotado para tal.
– Há que prover condições tanto psicológicas, sociais como filosóficas para o ensino de qualquer saber proveitoso. Senão torna-se inútil o esforço de ensinar aquilo que é cognoscível.

P29– Nzila imoxi yazowola kuny linzila.
P29– Um só caminho salvou dez caminhos.
– Com uma só cajadada matam-se vários coelhos.

P30– Njila kotenena kutholo ya so mungwi ukwasila ko.
P30– O pássaro que pousa por cima da alça de mira da tua arma é impossível abater. Excepto se alguém o fizer por ti.
– Em lógica, os nossos problemas são resolvidos por outros. Casa de ferreiro espeto de pau.

P31– Opya lyokulu lipwiza upelwila.
P31– Na lavra antiga, não é difícil o novo cultivo.
– O sapato antigo não custa calçar.

P32– Teya limoxi likwata ombya.
P32– Uma só pedra não consegue suster uma panela ao lume.
– A união faz força.

P33– Tulengela kiki kyali maso uhombo kumulu.
P33– Veremos o que foi mastigado pelos molares superiores do cabrito.
– É sabido que o cabrito só tem molares no maxilar inferior... dizem-nos que o quimo foi mastigado pelos molares de cabrito do maxilar superior? A ver vamos.

P34– Ulyelela ufula kwimba ndunge uputu.
P34– Confiar é falhar, ter uma ideia do que fazer é sempre melhor.
– “A improvisação é excelente, mas para os rouxinóis”

P35– Umona andiko ujipa.
P35– Imaginar não é realizar.
– Em termos de caça, ver um animal, não significa possuí-lo. Logo, é preciso trabalhar para aniquilá-lo e a posteriori adquiri-lo.

P36– Undandu utunda kumoxi ukamba ulimuna.
P36– A família resulta da origem comum (laços consanguíneos), já a amizade é a cordialidade interpessoal.
– A amizade cultiva-se.

P37– Wahi kakine ñoma, ki watema loza.
P37– Os mortos não dançam batuque.
– Não perca as oportunidades que a vida lhe oferece, pois os mortos não têm a mesma chance e existem oportunidades que não se repetem.

P38– Wahile mumunguny eye uvita inemo.
P38– Quem já esteve preso numa armadilha, sabe quão é duro lá estar.
– Quem já teve dificuldades na vida, sabe quão é difícil viver a vida.

P39– Walyela kuti pulappambu wapyana.
P39– Sempre que te arrependeres já terás ultrapassado o cruzamento.
– O arrependimento não é solução, é sempre tardio.

P40– Wandundwila iselelu kyeye.
P40– Reservou um terreno bastante rico.
– A sorte protege os audazes.

P41– Wanohina kamwezeka kutupya.
P41– Ao molhado pela chuva, não se lhe mostra a fogueira.
– Não se ensina o pai-nosso ao cura.

P42– Watimika onzo kamwimbilamo.
P42– A quem ateia fogo à casa não se lhe atira para dentro dela.
– A justiça deve ser clara e imparcial. Não deve ser reactiva.

P43– Wawapa kaliwesa maji.
P43– Quem belo é não precisa de adornos para enfeitar.
– O critério da verdade é a prática.

P44– Waxemuka e waxemuka eme ngamunzumuna.
P44– Qualquer indivíduo que aparece a transpirar, sou eu quem correu com ele.
– Os abelhudos metem-se em todos os assuntos. São os especialistas de tudo.

P45– Woximbi a ngo puxita upitile.
P45– Cortaste a árvore mas não a podaste.
– Começa mas não acaba.

P46– Ymonya/ysonde utendela so mutemo.
P46– O preguiçoso diz sempre que a sua enxada tem defeito.
– O preguiçoso procura sempre alguma desculpa para o seu insucesso.

Pedro Ângelo da Costa Pereira

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