A maka do sintagma 'literatura infantil'

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Do naufrágio na conceção epistemológica à acidental literatura

A prudente impossibilidade de uma definição rigidamente estática dos géneros literários (formalismo russo) causada pela unicidade das obras literárias abre, com razão do relativismo, caminhos para novas tendências de produção além das propostas apresentadas até hoje e aceites como as que mais se aproximam da definição ideal.

Por literatura, modelou-se entender a produção livresca em primeira instância. Assim, as ciências, com exceção da Literatura, apreendem este lexema para comungar com a especificidade (literatura médica).

Entretanto, esta terminologia, quando aplicada sem fator identitário, resulta imediatamente na ciência literária, matrona do termo, que assenta na literariedade.

Na Literatura, as modalidades estéticas que sustentam a ciência literária ganham também terminologias identitárias para uma diferenciação interna (literatura gótica = literariedade + especificidade).

O problema, cuja saúde é a sua não conclusão satisfatória, está precisamente na inconstância da homogeneidade do conceito quando aplicados às obras.

Esta problemática abre possibilidades de convivência com obras taxadas pela produção livresca como pertenças da Literatura mas que não satisfazem, primeiramente, as exigências de literariedade e, posteriormente, as suas decorrentes modalidades estéticas (géneros literários).

Por esse motivo, não passam de mera produção livresca sem fator identitário, ou ruído na harmonia hierárquica e nos limites de separação entre a Literatura e as demais ciências.

Trazendo à questão a nossa realidade literária, a receção teorética da possível conceção epistemológica do sintagma `literatura infantil' abarca, no insuficiente entendimento da especificidade: infantil, um campo aberto que seduz, paradoxalmente, algumas instituições literárias da nossa praça a determinarem a idade como limite da produção desta sensibilidade.

Assim, na conceção destas, toda uma produção feita pela faixa etária alvo é, imediatamente, definida por literatura infantil.

O resultado infeliz desta insuficiência é bastante híbrido. Forçadas a assumirem a categoria de literatura infantil, mais por conceção da idade do autor que por qualidade de fundo e forma, estas iludem lutar contra um vácuo (carência de produção qualitativa e procura de uma identidade própria ante os arquétipos ocidentais) e repousam satisfeitas na posição de pseudo-tentativas protegidas pelo fator idade.

Com este quadro, ganhamos a seguinte indução minimalista da estética da receção: fator idade= obra + autor + leitor.

Este hibridismo não deve ser confundido com uma mutação positiva e/ou características próprias de um literatura (a famosa singularidade artística com que Croce contrapõe o exercício rigoroso do género), nem tão pouco interpretado como um "amadurecido rebento" da comunhão entre teorias da Biologia e da Literatura (formulação naturalista e evolucionista dos géneros literários do século XIX, defendida por Brunetière na sua explanação de que os géneros literários também estão sujeitos ao ciclo vital: nascem, desenvolvem-se, envelhecem, morrem ou transformam-se); ou, na ambivalência da discussão do problema, a sua heurística tida como exercício de dogmas e apelo ao essencialismo.

Trata-se, sobretudo, de debilidades teoréticas cuja aplicação resulta na aceitação de uma produção livresca sem apreciação literária possível.

Entretanto, esta medida desajustada e deformadora de uma apurada educação estética (teoria elevada por Shiller em "Cartas para a Educação Estética do Homem"), legando àquela faixa etária a pesada responsabilidade de si mesma e, imediatamente, deduzindo-lhe uma responsabilidade artística inata que, precocemente, desemboca em atividade criadora; espelha, em primeira instância, o diagnóstico das patologias conceptuais de um período e seus danos colaterais.

Este desvio, transformado, de certo modo, em tendência de produção, na sua intenção de produzir um corpus da literatura infantil angolana dos dias de hoje, produz, contrariamente, uma mão cheia de livros sem qualificação literária. Ou seja, nem se trata de literatura, nem, e muito menos, de literatura infantil.

Pois, é preciso atenção para hierarquizar que o primeiro assenta na literariedade e que, em comunhão com a especificidade infantil, dá-se a origem do segundo (literatura infantil = literariedade + especificidade).

Indiferentes à máxima das lides literárias de que um escritor é, em grande medida, resultado de muita leitura, momento em que o desenfreado "dom" se verga às regras ou subverte-as trazendo, da sua particularidade, à cena literária um novo tipo (o original), ou, negligentemente, sugerindo a ideia de inferioridade da literatura infantil ao ponto de sujeitá-la a experimentações, os concursos literários virados à puerilidade assumem, por via do critério etário de participação naquele, contornos erróneos na tentativa de incitar rebentos, provocar genialidade literária ou inclinações a fins.

Acidentalmente, por uma débil interpretação da especificidade infantil, esta literatura experimental assume o seu corpus com obras que não oferecem uma fuga inteligente ao quotidiano e ao vulgar, recorrendo à imaginação fantástica, e estão muito aquém de proporcionar uma leitura deleitosa às crianças e aos demais.

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