A periodização da história da literatura angolana

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Não podemos ignorar a nova realidade introduzida pelo factor independência.

A periodização da história da literatura angolana
Livro de Carlos Ervedosa Fotografia: Arquivo

Infeliz e desafortunadamente, as tentativas para a formulação teórica da História da Literatura Angolana parecem esbarrar com o problema da sua periodização, enquanto trave metodológica fundamental para empreitada em se estriba a ciência que estuda o (seu) passado. Neste particular, os exemplos abundam e as experiências não escasseiam, podendo ser ilustradas a partir do Brasil, onde é portentoso o cruzamento entre a história da imprensa e da literatura brasileiras, de Portugal, pela mão de José António Saraiva e Óscar Lopes, na “História da Literatura de Portugal”, e mesmo de Moçambique, por via da professora Fátima Mendonça, na sua obra “Moçambique - As histórias e as escritas”, para cingirmo-nos ao espaço da língua comum. No fundo, leitura comparativa a não ser negligenciada, na periodização da História da Literatura Angolana e não só.
(Numa palestra que tivemos a ventura de animar há alguns anos atrás, no Marco Histórico “4 de Fevereiro”, trazemos à colação tal problemática no vértice da nossa abordagem. Um destacado dirigente do Ministério da Cultura disse na ocasião que a comissão criada para o efeito de elaboração da história literária angolana, em 2005, esbarrou com este problema. O meu interlocutor deixou escapar que terá sido essa a questão que tolheu, pelo menos em parte, a não consecução até aqui do referido projecto redactorial, apesar do investimento feito, pois, como se sabe, este projecto envolveu diversos especialistas angolanos, brasileiros e portugueses, que se têm ocupado com os estudos literários africanos de língua portuguesa, com inúmeras viagens de permeio no eixo Brasil-Angola-Portugal, tendo Luanda como base de trabalho várias e inconclusivas reuniões de consulta, pagas com os nossos tão caros petro-dólares.)
Vale ressaltar que, a par dos períodos literários, um dos critérios para a sua fixação escrita será também o das gerações. Citando Pedro Lira, professor universitário e poeta brasileiro, Francisco Soares, um conhecido docente universitário da nossa praça académica, refere que (PL) “calculou que a periodização das literaturas por gerações obedece a um ritmo definido: mais ou menos de 15 em 15 anos aparece uma nova geração”. O que não parece ser o nosso caso, onde o grosso das gerações surgem de dez em dez anos, salvo as honrosas excepções que pontuam com a periodologia de Lira.
O referido especialista angolano sustenta que “Aplicando o conceito à nossa poesia e à geração de Nehone, esta seria a dos que nasceram entre 1955 a 1970. Como sempre, haverá alguma excepção, mas o autor de “Peugadas de uma musa” nasce em 1965. Quase no meio do período”, observando que “A sua posição no seio da primeira geração a revelar-se após a independência é também do meio – ou, pelo menos, moderada. “

INTENSIFICAÇÃO
DOS PROCESSOS ESTÉTICOS
Em termos temáticos a mesma fonte frisa que “Nesta geração, de forma geral, o paradigma da poesia militante foi ultrapassado por uma prática artística já iniciada antes e então largamente desenvolvida”, avançando que “O amor, sem adjectivos nem colagem às ideologias, voltou a ser tema dominante (não é que não se abordassem motivos políticos, é que eles deixaram de ser obrigatórios)”.
F. Soares enfatiza uma outra hipótese de trabalho, já no plano sócio-linguístico: “Um bom desempenho linguístico também (fosse no português padrão, no português de Angola ou no uso de palavras e expressões de origem bantu), rematando que “Uma geral intensificação dos processos estéticos típicos da verbalidade, particularmente de figuras analógicas, é comum, por igual, a toda a geração.”
De uma maneira geral, o modelo geracional foi utilizado, entre outros, na meritosa fixação inicial da “Resenha…” de Carlos Ervedosa, retomada no “Itinerário.” e refundido logo depois da independência, no seu Roteiro da Literatura Angolana, embora haja quem não lhe reconheça validade científica - não sem razão - para ser tida como a verdadeira história da literatura angolana, desde os seus primórdios entre os finais do século XIX e princípios do séc. XX até 1961, desdobrado depois para 1975, que é o último lastro temporal coberto pelo referido pesquisador, dado o seu carácter meramente descritivo, mais do que analítico; crítica desassombrada, aliás, desferida por Alfredo Margarido, num artigo publicado nos anos 80, inicialmente na revista Colóquio e Letras.
Data desta mesma época a publicação de um outro texto por banda deste autor, no jornal o Estado de São Paulo, em finais de 1983, intitulado “A emergência da literatura angolana”, onde procura fixar 4 períodos para a história literatura angolana, a saber:
1) Desde finais do séc. XIX/princípios do séc. XX até 1930, onde se destaca a célebre geração 1900, onde se destacam Cordeiro da Mata, Fontes Pereira, Silvério Ferreira, Apolinário Van-Dúnem e Paixão Franco. No fundo, no fundo, a geração progenitora do famoso manifesto, escrito a várias mãos, “A voz de Angola clamando no deserto”, que foi um autêntico libelo acusatório e uma vigorosa reacção de uma plêiade de proto-nacionalistas angolanos a um labéu de cariz racista, vindo a público num periódico da época, burilado por um escriba colonial.
2) De 1930 a 1945, o chamado “período de quase não literatura”, onde avultam os raríssimos nomes do advogado, dicionarista e romancista, Assis Júnior, sem esquecer o escritor e pesquisador cultural Óscar Ribas e o escritor Castro Soromenho.
3) De meados dos anos 40 até 1961, com despoletar da luta armada. Neste período temos as gerações da “Mensagem” e da “Cultura”, sendo um dos momentos privilegiados de imposição do nosso processo literário face à ordem cultural colonial.
4) De 1961 até 1975, onde temos a geração da guerrilha e a de 70, sem esquecer os escritores que gramaram no Tarrafal (alguns dos quais vindos da geração da “Cultura”).
É interessante notar que Mário Pinto de Andrade comunga com essa proposta de periodização avançada pelo antropólogo e crítico literário Alfredo Margarido, fornecendo uma periodização similar, em entrevista publicada no início dos anos 90, pela revista “Notre Librairie”, na edição dedicada à Angola, avançando que o romance de Pepetela, “Mayombe”, inaugura um novo período, seguintes às 4 propostas metodológicas aludidas.
Na verdade, em nosso modesto entender o quinto período da literatura angolana há-de ser inaugurado no pós-independência com temas propostos por essa nova realidade histórica e respectiva sua tematização literária.
“Não podemos ignorar a nova realidade introduzida pelo factor independência”- diria o poeta Agostinho Neto, dirigindo-se aos seus colegas escritores na sede da UEA, em Novembro de 1977.

PEDRADA NO CHARCO
Contudo, se é verdade que depois de 1975 a literatura angolana e os mais velhos autores dão-se a conhecer junto do seu público de forma mais massiva, com edições entre os 5 mil a 20 mil exemplares, não é menos verdade que a nova geração literária surge cinco anos depois, nos anos 80. Surto literário registado, basicamente, por via das brigadas jovens de literatura, e que vai concorrer para a sua reafirmação e consolidação, tornando-a mais expansiva junto deste mesmo público e propondo outra reinvenção temática e novos modelos estéticos, despindo-se, por exemplo, do diletantismo do panfleto poético, dada a sua outra releitura do mundo circundante, por via do experimentalismo e não só, apesar de apanhados de chofre no crisol da ruptura dos anos da febre revolucionária, - dado que o 25 de Abril de 1974 teve o condão de precipitar o princípio do fim do colonial-fascismo português, em plena cidadela do império e, por arrastamento, nas colónias, onde há muito havia sido posta em marcha a luta de libertação nacional durante 14 anos.
Entrementes, muito embora seja dada primazia ao texto literário, a periodização da literatura angolana não deverá deixar de lado o contexto em que brota. Isso mesmo fizemo-lo ver a um conhecido politólogo e crítico literário angolano, ainda na segunda metade dos anos 80, num encontro fortuito na Biblioteca Municipal de Luanda, dado que pretendia que o texto seria bastante para tanto.
Assim sendo, se nos anos 80 assistimos à emergência e afirmação de uma “geração da revolução ou das incertezas”, cuja consolidação se processa nos anos 90, vale ressaltar que à entrada do séc. XXI, uma nova geração tem estado a (a)firmar-se nos últimos anos, ainda que tímida mas seguramente, sendo os “eleitos” no meio de muitos entusiastas e amantes da literatura, que dão um valor acrescentado ao impacto produzido pela recepção literária. Aliás, os diversos movimentos existentes falam por si. Mas, tal como num passado recente soçobrou ao nível do massivo brigadismo e sendo a literatura vista como uma “arte de elite” à luz da sociologia literária, é mister assinalar que poucos sobrarão para contar a história na primeira pessoa do singular, na hora de depor no tribunal implacável e inapelável da História das nossas letras, em feliz (des)construção potenciada pela sua (re)leitura crítica ou até lúdica.
Portanto, urge separar o trigo do joio, sendo certo que existe muito pretensiosismo no nosso ainda indigente e mesmo provinciano meio literário, onde todos se conhecem com paternalistas palmadinhas nas costas de permeio.
Aqui chegados um pergunta se impõe: quem lança a primeira pedrada no charco do nosso marasmo cultural, para agitar as ondas concêntricas de afirmação de uma critica literária eficaz e eficiente, no plano institucional (imprensa especializada e universidades) para desencorajar a mediocridade literária ainda reinante, pois nem tudo que se pretende é poesia, já avisava o Mestre, nem nada que se pareça, em todo horizonte, com a escrita criativa o é à partida. Há que burlar a palavra até à exaustão do belo golo, perdão gozo, suscitado pela sua fruição estética e/ou emotiva!!!

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