A permanência de Antero de Abreu

Envie este artigo por email

Os poemas escritos na época do liceu

A permanência de Antero de Abreu
Livro de Antero de Abreu Fotografia: Arquivo

Deixou de falar poesia viva desde 15 de Março de 2017 o poeta Antero de Abreu. Fica connosco a sua voz já dita nos versos de A tua Voz Angola (1978), Poesia Intermitente (1978) e Permanência (1979), alguns dos quais transcrevemos no final deste artigo em memória do vate angolano.
Antero de Abreu é considerado por Francisco Soares um dos escritores mais ligados à mentalidade formadora dos autores da revista Mensagem. A sua lírica “revela um sentido do ritmo (rima) diferente do dos seus companheiros, bem como uma intensificação e uma variedade maiores no uso dos recursos retóricos e nas relações intertextuais que constroí.” Sobre os poemas escritos na época do liceu, este crítico diz que: “eram os únicos a revelar uma amadurecida absorção do verso e da estrofe modernistas.”


A TUA VOZ ANGOLA

Nos tribos
E assobios
Dos pássaros bravios
Ouço a tua voz Angola.
Dos fios
Esguios
Em arrepios
De mulembas sólidas
Escorre a tua voz Angola.
Nas ondas calemas
Barcos e velas
Dongos traineiras
Âncoras e cordas
Freme a tua voz Angola.
Em rios torrentes
Regatos marulhentos
Lagoas dormentes
Onde morrem poentes
Brilha a tua voz Angola.
No andar da palanca
No chifre do olongo
No mosqueado da onça
No enrolar da serpente
Inscreve-se a tua voz Angola.
No acordar dos quimbos
Nos cúmulos e nimbos
Nos vapores tímidos
Em manhãs de cacimbo
Flutua a tua voz Angola.
Na pedra da encosta
No cristal de rocha
Na montanha inóspita
No miolo e na crosta
Talha-se a tua voz Angola.
Do chiar dos guindastes
Do estalar dos braços
Do esforço e do cansaço
Emerge a tua voz Angola
No ronco da barragem
No camião da estrada
No comboio malandro

Nos gados transumantes
Ecoa a tua voz Angola.
Dos bongos e cuícas
Concertinas apitos
Que animam rebitas
Farras das antigas
Salta a tua voz Angola.
A flor da buganvília
A rosa e o lírio
Cachos de gladíolos
O gengibre e a cola
Perfumam a tua voz Angola.
Ouve-se e sente-se e brilha
A tua voz Angola
Inscreve-se nos seres talha-se nas rochas
A tua voz Angola
Vai com o vento goteja com o suor
A tua voz Angola
Por toda a parte por toda a parte
A tua voz Angola
Que voz é essa tão forte e omnipresente
Angola?
Que voz é essa omnipresente e permanente
Angola?
É a voz dos vivos e dos mortos
De Angola
É a voz das esperanças e malogros
De Angola
é a voz das derrotas e vitórias
De Angola
É a voz do passado do presente e do porvir
De Angola
É a voz do resistir
De Angola
É a voz dum guerrilheiro
De Angola
É a voz dum pioneiro
De Angola.

(A Tua Voz Angola)

AQUI NÃO HÁ ESPERANÇA

Aqui não há esperança
Aqui é tudo espesso igual e morno
Até onde a vista alcança
Ó sombras do caminho
Nada se define em torno
Aqui tudo são brumas
Movediço e ilusório
O que se vê são sombras não as árvores
São imagens não as coisas
E as estrelas após tantos mistérios
Ainda são almas em sonhos merencórios
Tudo aqui é uniforme.
Onde se apalpa
Sente-se o decompor dos corpos mortos
E a cada passo - uma barreira
E a cada luz - um véu de trevas
E em cada bússola os ponteiros tortos
Na luta somos desiguais
No amor somos mentiras
Na vida somos estéreis
Se temos coração
É para o rasgarmos dia a dia em tiras
(Ó lobos dos caminhos
Fauces de angústia em ânsias de apetite
Comei-nos a boca e os braços
Imolai-nos de vez à vossa fome
E uivai depois felizes aos espaços)
Aqui tudo é dúbio e vacilante
Num chão de trincheiras os espectros
Andam fugindo de ódios que os corroem
Claras bandeiras de matizes claros
Refugiam-se nas sombras por que doem
Tudo aqui se amortalha nos mistérios
Borbotões de vida que cessaram
Dão passo à serenidade
Caiada e estéril dos cemitérios
Tudo o que se come tem sabor a mastigado
Tudo o que se ouve é como já ouvido
O presente é um fruto descascado
E o futuro é um canto repetido
Andam os répteis a banhar-se em luz
Andam morcegos a comer os fogos
Aninham-se sapos em doçuras moles
E andam as almas a acalentar malogros
(Lobos dos pinhais de fauces tenebrosas
Vinde roer-nos o olhar e a mão
Vinde matar-nos e uivar contentes
À serenidade do tempo na amplidão)
Tudo aqui é derrota sem batalhas
Tudo aqui é um rugir de reses
Tudo aqui são pálidas mortalhas
A fingir de cotas e a fingir de arneses
Andam flores a desabrochar para quê?
Para que andam aves a voar no vale?
Para que andam trigos a doirar ao sol?
Para que brilha na parede a cal?
Sonhos de sonhos a subir alados
Trémulas mãos a tactear os pomos
E enforcados
Secam na árvore os apetecidos gomos
Deitam-se as redes mas o mar é sóbrio
Olha-se a lua mas a lua é morta
Cravam-se os cravos mas o casco é inútil
Bate-se a aldrava mas não se abre a porta
Tudo aqui é tranquilo como os mortos
Tudo aqui é sonâmbulo e vencido
Tudo aqui é cavo como um sorvo
Imóvel como um olhar estarrecido
(Ó lobos dos caminhos
Que a fauce negra entreabris lasciva
Vinde seguros acabar connosco
E uivar alegres à eternidade altiva)
E não nos dêem uma alma
Para que sobreviva.     

(Permanência)

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos