A Poesia da súplica satírica e de atalhos que dão ao coração da África

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MARCAS DA GUERRA

 “Marcas da Guerra, Percepção Íntima outros Fonemas Doutrinários” de Lopito Feijóo

 

 

É, também, entre “ Outros Fonemas Doutrinários”, uma súplica satírica do sujeito ao novo tipo de “Kamikaze” que caminha minado para o futuro e um atalho para o coração da África ante os novos caminhos e “voos” “propostos” pela “bailarina de saia assombrada”, tida como proposta metafórica da dispersão dos novos tempos.

MARCAS DA GUERRA

(...) 

3

Dez

troços nos troços

esta viagem qual

virgem contemplando

se

esfarrapada.

4

Dos olhos

desta criança escorre

um brilho

sangrento

um grito inaudível

um sonho

por suposto

Com trinta e cinco "visões interpretativas" divididas em " Doutrina Sentida", "Rebelde Doutrina" e "Doutrina Telúrica", os poemas estão colocados num sentido de gradação progressiva da tese tecida. Esta arquitetura restringe qualquer possibilidade de desencontro, alternância brusca ou injustificada de tom e de temática na obra e denuncia as três partes como fases de uma metamorfose homogénea do poeta cuja criação é antecedida pelo teste da apreensão dos sentidos, convulsão e, finalmente, a ação anunciadora do porvir. 

Mais do que uma ferramenta da perceção, o porvir cresce gradualmente em todos os poemas ora em reflexo explícito ora implícito na dinâmica da palavra criando uma espécie de a finidade eletiva entre os poemas que conferem a obra a elevação de macrotexto.

Sublimemente rebelada, de ação afetada e sem conflituar com o relativismo, pois professa uma esperança subentendida e um débil hedonismo, o mais concreto desta poesia verifica-se na negociação/combate entre o poeta e a consciência coletiva atual para esta África que é passivamente refém, vítima viciada dos danos colaterais do ocidente e que se desembaraça ante o desbravar dos novos desafios. 

O poeta fotografa o seu medo pela linha ténue por onde seu povo caminha na paradoxal tentativa de ir buscar-se e sofre com a existência da possibilidade de África ser, para a posterioridade, uma ideia funesta, uma réstia em mito de um acontecimento ainda moribundo nos dias de hoje e debate-se parodiando com a dualidade de realidades atuantes desta África que é, simultaneamente, berço da humanidade mas da miséria e da fome e inferno do presente mas "suposto" paraíso do futuro:

INFERNO

(…)

3

Nas copas, loiça de/ mais

Se vai partindo

e nós, de fome, engolindo cacos

(…)

Os poemas não nascem do vago e bradam sobre a sobriedade de uma consciência combativa. A palavra poética é atirada em taquicardia, já possuída de uma imprevisível feitiçaria na criação coesa do poema superior a unidade de crivo da mesma, um tanto contrária da técnica de criação modernista e que transformam os poemas em autênticos gestos da modernidade com gravitações da gravidade do discurso apurado pelas correntes de pensamento da retórica prisional. Do resultado deste palpitante processo criativo nascem recriações arquitextuais que atravessam as diversas formas do lírico e que propõem a comunhão com a prosa:

TESTEMUNHO

(…)

Testemunho por todas as equinas mortos desiguais por sua culpa. Toda ela sua culpa. Venho. Faço das minhas carnes as espadas dos nossos ante/passados por ora num sítio a noroeste de Kush nas margens do Nobre Nilo compartilhando ibundos daqui. Sei que chegarão pela via

De Upemba acompanhados de algum gado,- que havia sido em razão do destino-, vítima da fome aquando da primeira das primeiras de todas as secas com que vimos sendo agraciados.

(…)

A "carga de alma" é aqui expressa por via de um panteísmo praticado pelas culturas africanas e que o poeta segue e toma de contexto e de elmo. No derramamento poético, os rios, desertos, matas e bichos são evocados e restituídos na sua posição transcendental:

NA SEDE DOS RIOS AFRICANOS

-NILO

Percorre divinamente de cabeça esbranquiçada fertilizante de cheias estivais

(n)aquela tela vista por Fromentin

-NIGER

Uma ponte metálica perpassa o íntimo caudal do seu coração

Com destino a Bernue

-CONGO

A espessura do seu marulhar murmura

No reinado com a Sluvial idade das águas benzidas

-KWANZA

Feito símbolo de re(s) posta nação aparece caudalosamente

Reajustado entre norte e sul. Este ou aquele?

-ZAMBEZE

P´los ditos de cantina deleita-se Lungue-Bungo popular

Incenerados seus antepassados levitam próximo do [Zumbo.

-ORANGE

Oh… Garieb. Corre, salta, estende-te, desdobra-te

Autonomiza-te o sol ao Cabo das Agulhas 

Tão bem em razão da identidade!

A obra é um jango onde os deuses africanos se encontram. E, sob a música simbolista de Lopito Fejóo, os deuses dançam em comunhão coma natureza. A

invocação é constante e, mais do que uma entidade identificadora, a natureza acorda reunida na poesia como palco da reunião dos deuses, entidades incorruptíveis,

parte concreta/secreta da África e absolutamente

disponíveis a chorar por ela.

Assim, o poeta, porta/portador qualificado da mensagem, traz das entranhas da África um grito antecedido de choro. Os deuses desfilam na correnteza da ab-reação da poesia de Feijóo:

PURA&MADURA

I

Chamam-me África

Pari bastardos e bastantes

Que mesmo sofrendo além-mar

Seu berço pode e significa.

II

Nkundi ou Npangui são tão Nilhos

Quantotu Do Burundiou Ruanda

Tenho-os tão bem em Luanda [no Kwandaouna Ganda].

III

-Oh feitiço de carne e ossos:

Sincroniza-te em razão dos nossos e como sempre imenso, multiplica-teme.

IIII

Sou mulher/mãe entre Yorubas e Banbaras

Entrego-te-me pouca, louca e madura

PURA AFRICA PURA

PERCEPÇÃO ÍNTIMA

(…)

-Uma cidade por aqui, é um autêntico mercado

da serpente do prazer todos vêm e vão. Vem e vão, vão em vão

II

Esta sinceramente é simples cidade nove vezes fora a tecitura sistemática invisivelmente equacionada à moda acidental

comoventes estradas aéreas rasgam-lhe a textura florestal

estampada no semblante do comum cidadão quase em desuso

Tudo é moderno e original sobre saindo empolgância dos deuses

Háuças, Ybos, Yorubas, Peules, Fulanis,

e etc.

(…)

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