A poiética da metalepse na escrita de Manuel Rui Monteiro

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Numa das obras fundacionais da poética de Manuel Rui, Sim Camarada, emerge uma situação enunciativa que podemos designar metalepses.

Trata-se de uma passagem em que as fronteiras que separam o mundo fictivo das personagens, o momento e o lugar históricos onde Manuel Rui escreve e o mundo igualmente histórico, embora distante do espaço de produção, onde o conto é lido, surgem confundidas.

"Desculpem-me os leitores mas o angolano abusa da falta de respeito! Não querem ver: Valentim também tinha uma bengala dessas de fazer milagres e não é que um camarada nosso lhe ficou com a bengala, da primeira vez que levaram surra lá, e agora a usa, aqui em Luanda, repressivamente, contra os gatos do quarteirão que o camarada diz esquerdistas. Olhem ainda esta!" (SC, 14)

Na incipit de uma outra obra, Crónica de um Mujimbo, exibe-se a seguinte epígrafe: "Perdoem-me os leitores pelo fim que escolhi... mas é que eu não sou dos Mujimbos. O autor", exibição que pode ser colocada paralelamente a uma outra epígrafe igualmente problemática de Da palma da mão: "Isto é realidade e qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência. m.r."

Estamos perante enunciados em que se gera uma espécie de curto circuíto na organização do discurso, de que resulta um desfazer da linha de fronteira entre o mundo da narração e o mundo do narrado. Ora, a ausência dessa linha bem definida entre o mundo do enunciado fictivo e o da enunciação real faz desses fragmentos metalepses, pelo menos no sentido que Gérard Genette imprimiu ao termo.

Entretanto, se é certo que existe na poiética de Manuel Rui um procedimento de transgressão enunciativa, os casos encenados nos textos que mais diretamente nos ocupam agora não são de uma génese mítica da linguagem.

Sobretudo não se trata de procurar uma origem perdida. De facto, a formulação "Perdoem-me os leitores pelo fim que escolhi... mas é que eu não sou dos Mujimbos. O autor" e a definição que exibe, num discurso próximo do do texto "Desculpem-me os leitores mas o angolano abusa da falta de respeito![...]", assim como, de forma variante, o texto "Isto é realidade e qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência. m.r.", mostra que não se trata de encontrar "coincidências" enunciativas acidentais, mas de produzir um determinado funcionamento textual, que é o funcionamento do discurso de uma narrativa, não só em estado de nascimento, in statu nascendi, mas também em processo.

Trata-se de conseguir fazer com que não se apague a verificação de que a escrita de Manuel Rui tende, desde os seus vários "lugares" - das notações em epígrafe ao corpo da narrativa -, para o jogo metaléptico, que é figuração do fazer o que se diz, dizer o que se faz. As metalepses são, assim, em Manuel Rui, textos em que mais exibidamente a narrativa se prova retoricamente como texto, mostrando o seu funcionamento, a sua poética.

Os processos da sua inscrição são múltiplos, mas rejeitam a sua integração pacífica no mundo ficcional, não podendo igualmente insinuar-se, enquanto acontecimento, no mundo da produção e muito menos no da receção.

Estamos perante violação de fronteiras ontológicas e epistemológicas. Nesse sentido, as metalepses de Manuel Rui encenam o encontro do autor, das personagens, e dos leitores, num mundo inventado ad hoc.

No plano temático, o encontro entre o âmbito espácio-temporal do Autor, das personagens e dos leitores tem consequências, na medida em que remete para a figuração de mundos ucrónicos, em particular mundos de ação do discurso carnavalesco, onde não existe fautor, uma vez que todos são fautores.

Mas falar do discurso carnavalesco é falar, também, de uma geografia imaginária, pois o lugar em que se materializa é um lugar desprovido de fluídos temporais. Aliás, no discurso carnavalesco, mais do que a lógica da temporalidade, importa é a lógica da coexistência, uma vez que o visado é a reprodutividade significante, a multiplicação semântica desses momentos de migração por mundos incompatíveis: o habitado pelo Autor, o habitado pelos leitores e pelas personagens.

Nesse sentido, quando se coloca a questão, em ilusão referencial assumida, que o Autor pertence ao mundo não actual, não histórico, das personagens do seu universo diegético, engendra-se um mundo inédito, que inclui propositadamente o mundo histórico social no fictivo.

As metalepses acima descritas são, assim, meios de qualificar o estatuto referencial das obras, constituindo, simultaneamente, uma aplicação, no sentido técnico da palavra, isto é, um gesto de induzir um certo sentido polifónico ao texto, que assim é direcionado para no mundo a que se destina: o mundo do leitor. Num interessante ensaio, J. Searle descreve o ato ficcional como uma sequência de asserções dissimuladas .

Ora, relativamente ao domínio da representação e da sua relação com o referente, as metalepses aludidas podem ser definidas como declarações assertivas, porquanto fazem coexistir o Autor e o leitor num mundo que, por princípio, é pertença de personagens. No fundo, trata-se de fingir representar uma realidade que só tem cabimento no mundo ficcional.

Aliás, só com este procedimento a produção se concebe como gesto criativo que provém do encontro entre a invenção de um referente e encontro imaginante com esse mesmo referente.

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