A propósito das Línguas Ncionais e em particular sobre o kimbundu

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Hoje, o Kimbundu é falado.

A propósito das Línguas Ncionais e em particular sobre o kimbundu
Viagem nos tempos passados Fotografia: Arquivo

Ao pretender estudar, sessenta anos depois da minha iniciação no Kimbundu pela Velha Muhongo, minha Avó, o estado da evolução e da expansão na utilização da língua, após a independência de Angola, encontrei-me perante duas situações contrastantes: em primeiro lugar no que respeita à sua expressão oral e, em segundo, relativamente à sua escrita.
Na infância e na adolescência da minha geração, pouca gente falava e muito menos escrevia o Kimbundu, por força da doutrina da “assimilação” generalizada à escala da colónia, mas com efeitos mais despersonalizantes na sua área de influência. Sabe-se que nela, contrariamente ao que se passou nas zonas de expressão do Kikongo e do Umbundu, por exemplo, os nomes dos angolanos foram alterados até ao nível do apelido. Lembremo-nos do baptismo – aceite por conveniência política – da Rainha Jinga, aliás D. Ana de Sousa!
Nós só ouvíamos a língua materna “no quintal”; foi nesse contexto que me foi dado, e a outros como eu, conhecer o Kimbundu através das histórias, lendas, provérbios e canções contadas, explicados e cantadas pela minha Avó. Muitos da minha idade não tiveram essa oportunidade, ou não puderam aproveitá-la, por imposição dos pais, inclusivamente.
Hoje, o Kimbundu é falado – muito bem, ou pouco mais ou menos – por largas franjas da sociedade nas faixas etárias inferiores às dos setenta ou sessenta anos. Há, no entanto, quem se tenha lamentado, dizendo-me que “muitos jovens não se interessam pelas nossas línguas, convencidos que estão de que só o português conta para progredirem”. Eu tive, porém, a grata surpresa de encontrar, no Dondo, em Luanda, Malange ou na Muxima, estudantes do ensino secundário que me respondiam, em kimbundu, sem hesitação, quando provocados. É verdade também que, muitos outros, sorriam e confessavam não conhecer a língua.

DISPERSÃO DE GRAFIAS
As línguas nacionais são hoje ouvidas em programas regulares das estações públicas, e de outras, de radiodifusão e de televisão do país.
Em contraste com a situação atrás exposta, a escrita do Kimbundu encontra-se, no mínimo, numa grande dispersão de grafias, consoante os autores, não poucos, que se exprimem em jornais e revistas; em livros sobre os mais diversos temas; e também em compêndios como Gramáticas, Dicionários ou outras obras de difusão da língua [ 1 ].
Encontram-se escritos em que desapareceram os acentos de qualquer tipo e apóstrofes como na seguinte transcrição de um provérbio, por um estudioso do Kimbundu: “Kyakalunga kwendela mu usuku mu ilunga yezala ifumbe”. Outros há em que se encontram acentos em tudo quanto é vogal, como numa interessante publicação de um ilustre antropólogo angolano: “Ngúlùngù wà Ngùlù”; “Mpúngù à Ndòngò”; “Kálàndùlà kà Ngòlà”. Sem esquecer a aglutinação, de várias palavras numa só, como por exemplo de um verbo no imperativo, de um artigo e de um substantivo no plural, como se pode ver no título de uma famosa telenovela, em voga, “Jikulumesu”, em vez de “Jikula o mesu” ou melhor ainda “Jikul’o mesu”
Os esforços envidados pelo Governo angolano, desde a independência, para a valorização das línguas nacionais, revelam o interesse que esse elemento essencial da identidade cultural colectiva mereceu das autoridades. De lembrar que foi em 1977, que a República Popular de Angola assinou um projecto - ANG/77/009/C/01/13 - com a UNESCO e o PNUD, destinado a “incrementar o estudo das línguas nacionais com vista à sua aplicação na Alfabetização e no Ensino” seguido da criação, em 1979, do Instituto nacional de Línguas, convertido posteriormente no actual Instituto de Línguas Nacionais.
É no âmbito da implementação do referido projecto que resultou a publicação, em 1987, dos alfabetos das seis línguas nacionais consideradas de maior difusão, designadamente Kikoongo, Kimbundu, Cokwe, Umbundu, Mbunda e Kwanyama; publicação ratificada pela Resolução n.º 3/87 de 13 de Maio, do Conselho de Ministros, na qual, após os considerandos se lê, no seu Artigo 1.º - São aprovados a título experimental os Alfabetos das Línguas «Kikoongo», «Kimbundú», «Cokwe», «Umbundú», «Mbunda» e «Oxykwanyama» e as respectivas Regras de Transcrição, em anexo que fazem parte do presente diploma.
Quando o Instituto de Línguas Nacionais pretendeu, então, que “ O estabelecimento de uma forma escrita normalizada e baseada na descrição científica, responde a uma necessidade real de se substituírem as várias transcrições paralelas de uma língua e não adaptadas ao sistema fonológico da mesma, por uma escrita uniforme” e que “Fornecendo este instrumento que são os Alfabetos, esperamos poder estimular a produção de obras em Línguas nacionais …” constata-se, 28 anos depois, que se está muito longe do almejado. Continuamos a ver, por um lado, várias transcrições paralelas, pelo menos em Kimbundu e, por outro, que a produção de obras em línguas nacionais não é ainda significativa.
Porque será? Como compreender que após tanto empenho no processo de uniformização dos instrumentos da expressão gráfica das nossas línguas o público parece longe do pretendido?

COKWE?
A leitura do “Histórico sobre a criação dos Alfabetos em Línguas nacionais”, de que se extraiu o conteúdo do anexo atrás mencionado da Resolução do Conselho de Ministros, não é de leitura fácil para os leigos como eu, e levanta muitas questões; muitas dúvidas. Dúvidas sobre a razão e a justeza de certas decisões que estiveram na base das conclusões; dúvidas sobre o interesse prático de algumas delas.
Como aceitar, num país em que o Português é, segundo vários autores [2 ], a “língua oficial e de escolaridade, constituindo um dos factores de unificação do nosso país, pois está definida com o estatuto de língua comum de comunicação entre os falantes das várias línguas nacionais” que se tenha convencionado, por exemplo, que o “C” se deve pronunciar - Tchê - em Umbundu, em Txokwe ou em Mbunda, como ele soa em Italiano ou Servo-croata? Com que ânimo é que os falantes de Chokwe/Tchokwe ou Txokwe, sobretudo aqueles que sabem ler e escrever, aceitaram que a sua língua materna se chame Cokwe?
Não pretendo que esteja, só aí, a chave da não realização das aspirações do Instituto de Línguas Nacionais. Mas estou convencido que se deveria retomar a discussão sobre os alfabetos das nossas línguas, decidir com ponderação o que aceitar entre as propostas dos especialistas e como valorizar a opinião e a percepção dos outros elementos, das equipas a constituir, leigos mas falantes e profundos conhecedores de cada uma das línguas nacionais.
A experiência das “instituições especializadas estrangeiras nos países limítrofes e com línguas comuns” deve, evidentemente, ser estudada mas pelas razões já apontadas, não se deveria, por enquanto, pretender harmonizar e estandardizar uma grafia comum dessas línguas.
É que, uma vez mais, dado o facto de as línguas nacionais terem atingido o status de línguas escritas através da contribuição das “línguas oficiais”, e sendo ela diferente, no caso de Angola, por exemplo, das línguas oficiais do Congo, Namíbia, RDC ou Zâmbia, dever-se-ia dar tempo a que as nossas línguas se difundissem livremente nas respectivas zonas de influência, ganhassem dinamismo próprio, se emancipassem e evoluíssem a ponto de poderem confrontar-se com outras, sem perder a sua especificidade. Depois, se a prática assim o aconselhar, então, sim, poder-se-ia estudar uma eventual harmonização das respectivas grafias.

CONSOANTES TILADAS
É no âmbito da especificidade das nossas línguas que gostaria, a propósito do Kimbundu, de apelar o Instituto de Línguas Nacionais para se repensar a questão da pré-nasalização das consoantes com “M” ou “N”, pelo menos daquelas colocadas no início das palavras, repito, aquelas no início das palavras, como em Nzambi; Nzinga; Nzamba; Mbambi, Mbeji, etc.
Na maioria dos dicionários de Kimbundu que conheço, incluindo no de Joaquim Dias Cordeiro da Matta, mas com excepção digna de nota no de António de Assis Júnior, essas palavras estão listadas nas páginas reservadas às letras M ou N. Assim, as letras iniciais próprias dessas palavras, perdem a precedência a favor das letras “M/m” ou “N/n” que aparecem em maiúscula nos dicionários, como letras iniciais das séries de vocábulos. Em nomes próprios, mas igualmente noutros, como em Mbinda; Nzambi [Deus]; Nzinga; Nzamba [Elefante]; Ngandu [Jacaré]; etc., isso não é aceitável.
É nesse contexto que se poderia nasalizar as ditas consoantes, directamente através de um “Til (~)” colocado por cima das mesmas, pondo um termo à pré-nasalização delas como até aqui. Assim: ~Gana; ~Dandu; ~Vunda; ~Zamba, ~Zambi; ~Zinga, etc.
Tive a veleidade de considerar inédita, original esta ideia e entusiasmei-me quando o meu irmão kasule, depois de ter dado com a cabeça nas paredes à procura da solução, me mandou, por correio electrónico, o seguinte: “Foi difícil, mas consegui. Descobri como fazer”:
à ~B, ~C, ~D, ~E, ~F, ~G, ~H, ~I, ~J, ~K, ~L, ~M, Ñ, Õ, ~P, ~Q, ~R, ~S, ~T, ~U, ~V, ~X, ~Z.
ã , ~b, ~c, ~d, ~e, ~f, ~g, ~h, ~i, ~j, ~k, ~l, ~m , ñ, õ, ~p, ~q, ~r, ~s, ~t, ~u, ~v, ~x, ~z.
Verifiquei, mais tarde, que já A. Assis Jr. havia evocado, no século passado, essa mesma ideia ao escrever no seu dicionário, sobre a composição do “alfabeto kimbundu” e sobre o valor das letras comparativamente ao do alfabeto português. A propósito da pré-nasalização das consoantes, ele notou: “Apesar, porém, de opiniões em contrário, continuamos a adoptar, como nasalantes, o m antes das labiais b, p, v, e o n da dental d, para evitar confusões na grafia das palavras …” acrescentando mais adiante “Essas opiniões vingarão possivelmente, um dia, quando o tipógrafo tiver na caixa, consoantes tiladas. Mas por ora … não” [3 ].
Hoje qualquer angolano pode escrever e publicar trabalhos literários sem depender do tipógrafo, nem da caixa de letras. O computador, se existisse naquele tempo, teria permitido ao grande A. Assis Jr. concretizar essa sua ideia inovadora. Porque não retomá-la hoje?
Na língua inglesa ou na língua francesa, não se conhece o til! Nós temos uma maior valia à nossa disposição. A propósito, poder-se-ia convencionar que o “Ñ/ñ” se pronunciasse como o “Nh” em português para se contornar a dificuldade ligada ao facto de, em Kimbundu, o “H/h” ser sempre aspirado como em “Hoji”; “Henda”; “Inhi”; entre outras palavras, e também por a proposta de substituir “Nh/nh” por “Ny/ny” não corresponder ao que se pronuncia quando se diz “Menha” - água -; “Nhiki” – abelha -; “Nanhi” – quem -; Etc. Se a sugestão for aceite escrever-se-á, amanhã, “Meña”; “Ñiki”; “Nañi” e outras da série.
NOTA: Este artigo, foi sugerido pelo José Luís Mendonça, quando o visitei, Agosto último, no jornal “Cultura” para lhe falar das minhas preocupações sobre a escrita das línguas nacionais, ao dizer-me “Escreve um artigo. Nem que seja curto”.
Aqui está ele!
Ao escrevê-lo não quis provocar polémica mas, sobretudo, agitar ideias para fazer sentir, em quem de direito, o dever de reabrir o debate sobre o tema, propor convenções mais acessíveis aos leigos, para que muitos mais angolanos se sintam encorajados a cultivar as nossas línguas, a ousar escrever sobre elas, a contribuir para lhes dar a dinâmica necessária para se desenvolverem, desabrocharem e projectar-se dentro e fora das nossas fronteiras.

MANUEL RODRIGUES BOAL

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