A propósito do dia da língua portuguesa

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Língua comum, Cultura e ideários diferenciados

A propósito do dia da língua portuguesa

Durante o Estado Novo, a Casa dos Estudantes do Império (CEI), embora tivesse sido criada, em 1944, por iniciativa do próprio governo português, contou com um grupo de estudantes africanos muito activos (sobretudo os que se encontravam na delegação de Coimbra), que, mais tarde, vieram a contestar e a romper com o regime de Salazar. Alguns foram presos, outros tiveram que se exilar, por estarem em sintonia com o ideário independentista das colónias portuguesas em África.
Apesar da repressão policial, a Secção Cultural da CEI levou a cabo publicações de obras de uma plêiade de bons escritores originários das colónias portuguesas em África, dos quais, entre outros, destacamos: Agostinho Neto, Alda Lara, Pepetela (em 1997, Prémio Camões), Ernesto Lara Filho, Viriato da Cruz, Mário António, Luandino Vieira (em 2006, Prémio Camões, que, segundo um comunicado de imprensa, recusou “por razões íntimas e pessoais”) e Alexandre Dáskalos, estes de Angola; de Cabo Verde, Corsino Fortes, Gabriel Mariano e Ovídio Martins; de S. Tomé e Príncipe, Manuela Margarido e Alda do Espírito Santo; e de Moçambique, Noémia de Sousa e José Craveirinha (em 1991, Prémio Camões).
É certo que todos estes escritores constituíram a sua obra literária em português. Mas, o seu ideário político e literário foi-se direcionando no caminho das suas respectivas identidades culturais, onde denunciavam a falta de equidade na relação entre colonizadores e colonizados. Conotaram-se com as variantes específicas da língua portuguesa e afastaram-se do espírito da portugalização. Foi este imaginário de portugalidade e da política propagandística de multirracialidade que, após as independências das ex-colónias se perdeu,sendo compensado pela ideia doutrinária de “lusofonia”.
Os registos de uma memória colectiva comum colocam-nos face ao discurso pronunciado por António de Oliveira Salazar, presidente do Conselho de Ministros, a 13 de Abril de 1966, em resposta ao chamado tributo que lhe fora prestado pela então Província Ultramarina de Angola. Na sua alocução chega ao ponto de procurar impedir os naturais laços de afectividade, fraternidade e consanguinidade que, de forma espontânea, existem entre povos em contacto, desde que não se ponha em causa princípios de horizontalidade, na dinâmica individual ou colectiva das relações entre povos e pessoas.
Afirmou então à época Salazar: “(…) a sociedade multirracial é possível, prova-o em primeiro lugar o Brasil, a maior potência latino-americana e precisamente de raiz portuguesa, e seria portanto preciso começar por negar esta realidade, além de muitas outras, para recusar a possibilidade de constituição social deste tipo em território africano”.Um ano antes, em Julho de 1965, na sequência de uma visita secreta realizada por Moisés Tschombé a Lisboa, na qualidade de presidente do Congo-Leopoldeville, Salazar, confidenciou ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira: “Gostei do homem. Olhe, promovi-o a branco”.
Ultimamente, registámos a opinião do poeta Ferreira Gullar, a propósito da publicação em quatro volumes da “Literatura e Afrodescendência no Brasil”, uma antologia crítica organizada pelos professores Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Fonseca, da qual constam colaborações de académicos de diversas universidades brasileiras e estrangeiras. Ferreira Gullar, agraciado, em 2010, com o Prémio Camões e, em 15 de Outubro de 2010, com o título de Doutor Honoris Causa na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma, nos dias de hoje, que “a literatura, sendo a menina dos olhos da cultura, deve ser defendida da invasão dos negros” e chega a comparar homens negros com “urubus”. Assim, de facto, estamos mal.
Edgar Morin afirma que as ideologias são como os mapas: ou estão próximos da realidade, quando são receptivas à absorção de novas informações; ou, então, criam sistemas imunológicos, mais ou menos eficazes e aproximam-se dos toscos mapas medievais, que representavam o mundo de forma imaginativa e fantasiosa.
No dia 5 de Maio, comemorou-se o Dia Língua Portuguesa. Como proprietária do seu usuário, língua de oficial e de escolaridade, em convívio com outras línguas angolanas, temos o dever de a tratar o melhor possível sem descurar a nossa própria variante linguística. Contudo, o facto de, em primeira instância, sermos maioritariamente bantuófonos, leva-nos à necessidade de uma cooperação linguística que concorra para o nosso desenvolvimento sustentável, com a marca identitária e soberana que, só a nós, diz respeito.

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