A propósito do romance "Em Busca da Dignidade", de Rotane Sandjimba A origem da degradação dos valores morais e cívicos

Envie este artigo por email

A reassumpção da nossa personalidade cultural, que o longo período de guerra estrangulou, levou milhares de homens e mulheres a passarem por peripécias, angústias e até perda de vidas humanas.

A origem da degradação dos valores morais e cívicos
A origem da degradação dos valores morais e cívicos

De facto, foi o preço da dignidade definida como uma realidade da ordem dos fins conjugados com a ética e a moral assentes nos fins fundamentais
(como morar e viver bem na comunidade), nos valores imprescindíveis (elementos de defesa, especialmente dos mais indefesos) e nos princípios fundadores de acções benevolentes (dar de comer a quem tem fome), tal como escreveu Leonardo Boff no seu livro “Ethos Mundial, Um Consenso Mínimo Entre os Humanos”, 2009, página 30.
Durante os sucessivos conflitos armados que desestruturaram instituições de educação formal e informal, económicas e sobretudo familiares,
os valores perenes dos hábitos e costumes conheceram declínios e degradação que se reflectiram e continuam a reflectir-se na nossa vida
e no nosso dia-a-dia.
A “paz-relâmpago” de alguns meses de 1992 e o interesse suscitado pela emigração para o enriquecimento imediato nas obras nas terras lusas
(com todos os fracassos e marginalização possíveis), e depois nas lundas como segunda alternativa, inspiraram muitos angolanos a empreenderem
viagens ao Nordeste de Angola, concretamente para Lucapa, Kafunfu, Nzaji, Kamusombo, Mukhita, Mukonda, entre outras localidades.
A busca da dignidade transformouse num negócio de vária ordem, envolvendo inclusivamente meios abomináveis e condenados pela ética social e
cristã: prostituição, adultérios, tráfico de drogas, de armamento e de equipamento militar.
A busca da dignidade (todos podemos ter esse direito e virtude), da auto-realização dos cidadãos, transformou-se num calvário que sacrificou
vidas de muita gente, desagregou famílias, tendo a prostituição, o adultério, a feitiçaria, a caça às bruxas, as dívidas, as perseguições e o ajuste de
contas tomado o controlo dos “buscadores da dignidade”.
A busca da dignidade e da felicidade custou traições e denúncias nos centros de acolhimento dos ex-militares de quem foi ou não militar de um dos
lados (do Governo e dos rebeldes armados). Muitos acusados, mesmo sendo civis em missão de negócio, sofreram os horrores dos açoites, chicotadas, humilhações e de outros tipos de tortura inimagináveis.
Em busca da dignidade, povos, culturas, hábitos e costumes exógenos afluíram naquele espaço angolano, resultando daí relacionamentos que
atiçaram os incontornáveis e inevitáveis choques de identidades. Surgiram novos relacionamentos e casamentos tradicionais com danças e
músicas típicas côkwe para a sua legitimação.
É o caso amoroso do jovem citadino, vindo de Luanda, chamado Mingoso, que traduzido literalmente da língua nacional côkwe significa
“negócios”, com uma rapariga da comunidade rural de nome Chihunda, que quer dizer “aldeia” ou comunidade.
Para esta, o que vem da cidade é uma dádiva dos antepassados. Quer dizer, para o kacôkwe não cristianizado, tudo de bom ou de mal vem dos espíritos dos antepassados malemba ou ashakhulu como prosperidade ou como castigo traduzido em infortúnio.
No caso, Mingoso, marido de Chihunda, com maneiras urbanas diferentes, é obra dos ancestrais.
Muitos, pelos fracassos nos objectivos preconizados, nunca mais voltaram às suas terras de origem desde 1992, tendo contraído matrimónios
com parceiros de outras latitudes culturais, inclusive com estrangeiros da RDC, do Mali, do Senegal e de outras nacionalidades. Alguns desses estrangeiros eram favoráveis e protegidos da UNITA, tomando às vezes posições mais privilegiadas do que as dos próprios angolanos, que em busca da dignidade se digladiavam e se traíam nas terras de kuku, erradamente denominado Samanyonga, que traduzido significa “pensador”.
A dignidade, a felicidade e auto-realização da pessoa humana é um direito dos cidadãos na sua dimensão pessoal, social ou colectiva, que se realiza
por intermédio das virtudes, dos bons hábitos e dos costumes e estatutos jurídicos, que são, por sua vez, caminhos concretos para a auto-afirmação e dignificação, como disse, e muito bem, o teólogo brasileiro Leonardo Boff.
Não se busca a dignidade recorrendo a meios condenáveis ou colocando de lado o conjunto de valores perenes que sustentam a nossa idiossincrasia.
Não se busca a dignidade em troca do sofrimento dos outros, pondo de lado os bons hábitos e costumes consagrados na tradição e que sempre colocaram a família na dimensão privilegiada das políticas sociais.
O romance da autoria de Rotane Sandjimba, “Em Busca da Dignidade”, editado pela Mayamba, que recomendamos aos leitores e estudiosos dos
fenómenos sociais recentes que concorreram para a degradação dos valores morais e cívicos em Angola, chama a atenção para o facto de, nesse período, a sociedade tender mais pelo ter (económico) do que pelo ser (das virtudes e das riquezas espirituais).
O homem, funcionando como um sistema, tem dimensões múltiplas que devem ser satisfeitas na sua plenitude, para sua honra e dignidade.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos