A representação da prostituição na ficção narrativa angolana

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(Notas para um estudo de caso do conto
"A resignação", de Aristides Van-Dúnem)

A representação da prostituição na ficção narrativa angolana
Escultura de Acácio Videira

Antes de entrarmos no mérito da questão da funcionalidade do tema na narrativa de Aristides Van-Dúnem, iremos fornecer ao prezado leitor uma breve nota biográfica do contista em questão.
O AUTOR, Aristides Van-Dúnem, nasceu em 1935, sendo oriundo da aristocracia sociológica local e o mais influente entre os da sua geração contestatária e de inconformados na luta contra o sistema de dominação colonial. Foi um dos precursores do nacionalismo moderno angolano, tendo participado do surgimento de vários grupos clandestinos sob capa recreativa, como o Botafogo e o Espalha Brasas.
Em 1955 funda com Viriato da Cruz, António Jacinto e o seu primo Domingos Van-Dúnem, o Partido Comunista de Angola. Em 1955 participa na Conferência dos Não-Alinhados em Bandung, capital da Indonésia, em representação de Angola, em fase de afirmação da luta reivindicativa pela independência, ainda na fase incipiente do nacionalismo angolano, que se dinamizava através de associações recreativas, cívicas e mesmo partidos, com a adopção de panfletos como cavalo de batalha.
Na sequência da sua intensa actividade clandestina foi preso e condenado, acusado de subversão da integridade territorial e da segurança do Estado da colónia de Angola, nos anos 60, então sob domínio do chamado Portugal Maior.
Liderou a ala interna do MPLA durante a luta de libertação nacional, ainda nos anos 60. Foi membro do Comité Central do MPLA e secretário-geral da UNTA até 1977. Mais tarde exerceu o cargo de director nacional dos Petróleos e administrador do Estado junto da Refinara de Luanda. A morte apanhou-o vítima de prolongada doença, exercendo o cargo de embaixador de Angola no Zimbabwe.
Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, publicou dois livros sob essa chancela, entre os quais “Estórias antigas”, de que se extraiu o texto em apreço neste breve discorrer.

Apesar da resignação
e do nojo da vítima

São vários os núcleos temáticos em que assentam as matrizes discursivas da literatura angolana, com enfoque para as mais diversas manifestações da actividade social e humana, como o trabalho braçal, a prostituição, o alcoolismo, o feitiço, a religião e a luta nacionalista, incluindo o futebol.
No que à matéria em apreço diz respeito, são vários os poemas que fizeram e fazem apelo ao tema para pintar essa chaga da sociedade angolana, num subúrbio da capital, localizado sobretudo na zona de fronteira entre o areal vermelho do musseque e o asfalto da baixa, mais rigorosamente falando no Bairro Operário (B.O.); relíquia da sociologia urbana que o camartelo ameaça devorar, com todas consequências deletérias para o burgo luandense, alterando a sua geografia humana e emocional, que os poetas e prosadores pintaram, os pintores retrataram e os músicos cantaram o encanto. Não seriam para aqui chamados o Ngola Ritmos ou o Henda Xala e demais herdeiros da vibrante tradição artística angolana.
No seu conto “A resignação”, Aristides Van-Dúnem, fiel depositário dessa tradição pinça, com penetrante rasgo sociológico, o enredo da pobreza material e da indigência espiritual, bem como da prostituição, mal social subjacente, situando a sua prática num torrão privilegiado e famoso, no B.O., onde uma menora de 13 anos é forçada a dedicar-se ao vício ruim pela tia, a pretexto de aumentar o pecúlio do mísero orçamento familiar, dando largas aos seus caprichos mais abjectos e aos demais vícios praticados em casa e cercanias, como o alcoolismo.
A tia coloca a sobrinha a envolver-se com os distintos clientes que frequentam a casa, tirando proveito financeiro da situação, quando a menora sente-se resignada, apesar de não poder contrariar a sua tutora, pois os seus pais há muito haviam falecidos.
Entregue a um familiar mais directo, uma tia, a adolescente não teve melhor sorte, senão a prática da velha profissão do mundo, de que a dona da casa já era antiga e vacinada praticante, com cartão de sanidade à mistura. Presume-se(!) da releitura - conforme era moda no tempo em que ocorre a acção/situação.
Paisagens pícaras evoluem no tempo e espaço traçadas a lápis, régua e esquadro, por A. Van-Dúnem, com talento e mestria- diga-se de passagem.
A dinâmica psicológica das personagens é o gancho tipológico de figurões, figuras e figurinos, sem prejuízo do detalhe da descrição, a trave mestra da sua narrativa discursiva. A ameaça e o medo por represálias é um deles.
A chantagem exercida pela família desestruturada no contexto da sociedade colonial urbana está retratada neste diálogo, salpicada da linguagem coloquial do musseque, que fez escola na Geração da Cultura nos anos 50 e subsequentes, expressa através da recorrente corruptela "num" (não), entre outros empréstimos e coloquialismos:
“- Ela é capaz de num aceitar!...
- Num aceita, ela porventura aqui manda? Aqui não manda nada. Ela concerteza num sabe aonde é que costuma sair o dinheiro para ela comer e vestir? As outras é que vão continuar a abrir as pernas para ela comer e vestir?”
E eis, logo de seguida, a expressão mais abjecta da chantagem a que a orfã é submetida:
“Ela tem coisa de ouro num é? Se tem coisa de ouro e num pode abrir as pernas para ganhar (a vida), quando é que ela vai pagar então o que gastamos com ela?... Diga lá”- interrogou-se a tia, cobrando a factura de um conto de reis paga pela sua guarda.
Segundo o narrador tinha chegado a hora de “Inês pagar o que se tinha gasto com ela durante quase uma dezena de anos”.

O “véu da virgindade”
e a exploração sexual de menores

A módica factura pela ruptura do hímen da sobrinha havia sido ditada à ditacuja vítima pela tutora, Sã Antónia, com a promessa esfarrapada de que dia seguinte iria às compras:
“Amanhã vou te comprar um vestido de lavona, uma combinação de seda com rendas e um fio d’ouro grosso com medalha.”
Era tudo quanto valia a honra da pequena vendida ao desbarato e entregue definitivamente ao submundo da profissão mais antiga do mundo. Mas de preços não é tudo, a patroa ditara uma tabela semanal: 15 escudos de segunda à sexta-feira, sendo repartidos 10 para a sobrinha e 5 escudos para a madrinha; ao fim de semana a fasquia aumentava: 25 escudos, sendo 15 para a afilhada e 10 para a madrinha; como não era a única afilhada, bem se vê o macabro regime de exploração sexual a que estavam submetidas e quanto Sã Antónia facturava à grande e à francesa à custa do sacrifício alheio, imitando o colono explorador que vivia do trabalho (forçado) da mão de obra nativa.
Ainda assim, o indício da resignação da protagonista pelo dinheiro obtido das noitadas em claro é saliente quando, a posteriori, Inês passou a sair a mando da tia com um mais velho “bon vivant” que conduzia um automóvel e residia na baixa, o que não era pouca tripa para a época em análise- conforme se colhe do seguinte trecho (sendo que o horizonte da protagonista se perde depois entre prédios e montras, imagens vertidas pelo narrador):
“Depois de transpor o quintal da casa do senhor de cachimbo, Inês olhava para a nota de 50 escudos e sentia vontade de escarrar, rasgá-la e atirá-la para o chão; mas em casa a tia esperava pelo dinheiro.”
O escárnio seria ainda maior ante a indiferença com que os transeuntes a encaravam no modo com levava, de forma desprezível, o dinheiro pelos dois dedos, sem se aperceberem do quadro pungente que vivia, o que agravava o seu drama sócio-psicológico, com todas as consequências atinentes ao desvio comportamental forçado no processo natural do seu crescimento físico e espiritual. Dir-se-ia que foi um trauma psico-analítico que acabou mutilando as suas perspectivas de vida em plena flor da idade, quando deveria ir para a escola ou aprender uma profissão digna e não a mais antiga do mundo - a de vida de kitata (do kimbundo, prostituta). Coisas que o trágico destino (leia-se o enredo) tece.

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