A semana dos sete poemas do papagaio de Cabinda

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A semana dos sete poemas do papagaio de Cabinda

POEMA DE SEGUNDA-FEIRA

Fui à caça dos gambozinos
Trouxe um saco de pirilampos
Fui pastar um gafanhoto saltitão
Trouxe para casa Um gorila mandrião
Fui à pesca dum mosquito
Trouxe para casa um periquito
E quando o quissonde
Passava na terra Provocando Aquela terrível confusão
Eu aproveitava Para ensinar onça Leão e até jiboia A saltar à corda E a fazer salto mortal

POEMA DE TERÇA-FEIRA

Acendi uma fogueira
Para afugentar besouros e formigas
Desabou sobre a minha cabeça
Um bailado de libelinhas
E borboletas
Catei feijão no rio
Juntei lenha nas nuvens
E apanhei dendém no mar
Acabei comendo Peixe assado e pirão
Ao jantar

POEMA DE QUARTA-FEIRA

Cortei o rabo A sete lagartixas Duma vez só
E a terra tremeu Nos bigodes do meu gato
Passei a mão
Na carapaça
Da grande tartaruga dos mares
E o caracol saiu do capim Cheio de cócegas nos corninhos
Para dar a volta ao mundo
Toquei batuque
Nas orelhas dum elefante Rabugento
E acabei Carregando às costas A linha do horizonte

POEMA DE QUINTA-FEIRA

Fui à escola da lebre e do coelho
Ver passar as fábulas, os contos
As adivinhas e os provérbios
Num grande carrossel
De letras, números
Vozes e palavras
E aprendi a ler e a escrever fácil
Pintando o caderno da minha imaginação
Com as cores do senhor Camaleão

POEMA DE SEXTA-FEIRA

Fui nadar atrás dum hipopótamo
Voltei sem poder mais
De saco cheio de cacussos
Montei uma girafa em pêlo, no deserto
Acabei atravessando o sol de bicicleta
A cavalo numa avestruz Imitei o canto da coruja
O choro da hiena E o rugido do leão
E perdi o medo que tinha Do canto das cigarras E do coaxar das rãs

POEMA DE SÁBADO

Na festa da jiboia
Guardei a pele que ela deixou
Me tornei maestro de puíta e reco-reco Na quizomba
Fui comprar
Um quilo de cócegas ao rei
Trouxe todos os compadres
Que encontrei
Escrevi no terreiro do leão A estória arrepiante do seu reino
E virei poeta e cantor
Das sereias do mar distante

POEMA DE DOMINGO

Fui correr pela manhã
Na meia-lua do arco-íris
Voltei para casa
Pela mão dum dinossauro
Atirei uma pedra
Naquele gavião safado
Acabei voando
Nas asas do louva-a-deus
Ensinei mestre Sapo
A dançar o semba
No quintal
Dona Aurora do Sol-Posto
Me esconjurou feio
Estragando meu final de semana
A tristeza
É um grande atrevimento
Da alegria

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