África louvada em Luanda com poemas no fio da noite

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É preciso uma certa dose de paixão pelo traço escultural da imagética Bantu para transformar a própria casa em museu de arte Africana. Quando se alia essa paixão à poesia, a escultura ali exposta ganha Voz. Junte-se a esses dois ingredientes uma data importante: o 25 de Maio, Dia de África, o mar da Corimba, a maresia e o farfalhar das folhas do coqueiro frente ao muro da casa do poeta Lopito Feijóo, agregue-se-lhe um grupo de gente encantada pela arte da palavra e o resultado é uma tertúlia sui generis.

É preciso uma certa dose de paixão pelo traço escultural da imagética Bantu para transformar a própria casa em museu de arte Africana. Quando se alia essa paixão à poesia, a escultura ali exposta ganha Voz. Junte-se a esses dois ingredientes uma data importante: o 25 de Maio, Dia de África, o mar da Corimba, a maresia e o farfalhar das folhas do coqueiro frente ao muro da casa do poeta Lopito Feijóo, agregue-se-lhe um grupo de gente encantada pela arte da palavra e o resultado é uma tertúlia sui generis.
Tal aconteceu no dia seguinte, 26 de Maio, sob o olhar expectante de um fio pendurado de poemas, que cada um pôde arrancar e dizer na noite que se prolongou até à madrugada de Domingo.
Sandra Poulson, uma angolana dedicada a projectos de promoção do livro e da leitura junto das comunidades rurais, foi a mestre de cerimónia do encontro que abriu com uma encenação do actor Osvaldo Xiseke, a dizer poemas do anfitrião e de Shakespeare.
Porque se comemora o Dia de África, se não há Dia da Europa nem da Ásia?, questionou a mestre de cerimónia, pergunta que ficou sem resposta no ar já meio frio do Cacimbo adventício.
Mas a noite aqueceria com os legados poéticos de António Jacinto, na sua Carta de Um Contratado, dito por Filomena de Mendonça, para além de outros nomes mui altos da poesia africana de língua portuguesa, como Noémia de Sousa e Alda Lara.
Aminata Goubel quis honrar o marido e recitou De Pedra & Cal, criado por Lopito Feijóo num dia já distante, poema este que deixaria a declamadora com a fama de Mamã África e a levaria a jamais deixar o seu hábito de trajar-se estritamente de cores e adereços do Continente-berço.
O linguista de Benguela Márcio Undolo, o velho fotógrafo cubano Raul Booz, o jornalista brasileiro João Belisário, a poetisa Olinda Castro, Luís Rosa Lopes, o próprio Lopito Feijóo e outros convidados fizeram da festa de África um tempo de poesia que tanto saía do fio pendurado na noite, de obras abertas no local ou da memória de cada um.
A música marcou presença, com acordes extraídos da viola do exímio compositor dos SSP, Jeff Brown, e da melódica voz de Jay Lorenzo, enquanto Raul Booz comprimia o dedo indicador no botão da câmara fotográfica, registando imagens para a posteridade.
Um momento sublime foi a proposta para um improviso poético colectivo. Com o microfone a andar de mão em mão, o círculo de vozes fez cumprir o lema “Poetas e Artistas de todo o Mundo, cantai África!”

KALUNGA
(do bloco de notas de Sandra Poulson)
Kalunga, mar, azul, oceânico e atlântico, de areia branca com conchas multicolores, seres aquáticos e outros louvores é a extensão do quintal da casa do poeta Lopito Feijóo, local místico onde a arte africana é rainha. Ainda o poente não era laranja para cobrir o mundo, quando os portões do edifício cor de Sol, de dois pisos, foram abertos. Cá fora dançavam borboletas e pássaros rodopiando e chilreando dando as boas vindas.
O património histórico-cultural do interior do edifício nada deve a qualquer Museu. Onde a arte paira no ar, os aromas são do antigo, as diversas peças entre esculturas e bustos africanos moviam-se em direcção aos visitantes, enquanto estes multiplicavam os olhares para beber todo o saber que estava contido no ambiente, nas luzes, nas paredes e nos tesouros.
O valor afectivo e emocional que as peças tinham foi transmitido pelos proprietários aos visitantes de forma gratificante e singela.
Cá fora as iguarias eram servidas. Havia de tudo. Funji malanjino, de bombó sem bolhas. Kisaka, saka-folha, jinguba. O cozido, esse, era à portuguesa. A bebida relevante era o sumo de múcua e o sumo de uvas. Tudo servido em recipientes tradicionais angolanos.
À medida que o mar se espraiava beijando a areia branca, o Sol aproveitava também para beijar o mar, fazendo com que a penumbra da noite despertasse as mentes artísticas.
É no poente que a arte de sunguilar começa a dar os seus melhores frutos. E quando se encontram altas patentes artísticas, os frutos maduros obrigatoriamente contagiam os verdes.
Foi o continente africano valorizado e lembrado, por leigos e artistas de várias áreas e continentes.
De Angola, estiveram presentes: da província de Malange, do Município do Lombe, J. A. S. Lopito Feijóo K., com o seu “Poema Primeiro da causa”, declamado pelo próprio. Da província do Cuanza-Sul, da Cidade da Gabela, esteve a Linda Marques, que cantou e encantou músicas brasileiras. Da Província do Cuanza-Norte, da comuna da Mussuemba, município do Golungo Alto, esteve o escritor e poeta José Luís Mendonça, que num guardanapo de papel redigiu o poema que abre esta reportagem, tendo lido acompanhado à viola pelo músico Jeff Brown, da Província da Lunda-Sul e ao reco-reco e também ao coro o cantor de Jazz, Jay Lorenzo. Da província de Luanda, eram múltiplos os representantes; entre autores e poetas estava Luís Rosa Lopes.
De Angola, a poesia abriu brilhantemente com Filomena Mendonça que declamou vários poemas entre eles “Namoro”, de Viriato da Cruz. Sandra Poulson declamou “O testamento” de Alda Lara, entre outros. Também se ouviu poesia de Benguela de Raul David.
De Moçambique, foi também lido por Sandra Poulson o poema “Sangue negro”, da poetisa Noémia de Sousa.
Do Brasil, o que mais se destacou foi o rapper João Belisário que sem algum treino cantou várias melodias.De Cuba, o fotógrafo Raul Booz chamou durante minutos a atenção sobre si, quando contou uma emocionante história.
O contador de histórias mais novo, tinha 4 anos de idade.
Alguns participantes foram chamados à ribalta, outros, espontaneamente actuaram naquele palco sem fim, em que os espectadores eram os habitantes do mar, as estrelas e a Lua. A luz da Lua é a única que tem o dom de chamar as literaturas da noite, a poesia que vem do âmago, as cantigas da nossa juventude e a veia teatral.
E foi desta forma que o continente africano foi lembrado, enaltecido, tendo como anfitriã uma mulher rigorosamente vestida, penteada, e ornada à africana: Mamã África.

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