Alberto Oliveira Pinto prémio "Sagrada Esperança" 2016

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O historiador Alberto Oliveira Pinto venceu o pre?mio litera?rio.

Alberto Oliveira Pinto venceu o prémio literário

O historiador Alberto Oliveira Pinto venceu o prémio literário Sagrada Esperança 2016 como ensaio" imaginário da Histópria Cultural de Angola", um texto inédito que aborda as preocupações do autor sobre a chamada historia cultural( ou das representações ou dos imaginários), vista como um conjunto de significados e símbolos construidos pelos homens para explicar o mundo.
Teve lugar, no passado dia 1 de Novembro, no Memorial Anto?nio Agostinho Neto, em Luanda, a cerimo?nia de outorga do Pre?mio Sagrada Esperanc?a, edic?a?o 2016.
O pre?mio litera?rio Sagrada Esperanc?a e? uma promoc?a?o do Instituto Nacional das Indu?strias Culturais e da Fundac?a?o Dr. Anto?nio Agostinho Neto em parceria com o Banco Caixa Geral Angola que patrocina a iniciativa com o compromisso de fomentar a criac?a?o e divulgac?a?o da arte angolana de forma sustenta?vel e agregadora de valor para a sociedade. O historiador Alberto Oliveira Pinto venceu o pre?mio litera?rio Sagrada Esperanc?a 2016 com o ensaio “Imagina?rios da Histo?ria Cultural de Angola”, um texto ine?dito que aborda as preocupac?o?es do autor sobre a chamada histo?ria cultural (ou das representac?o?es ou dos imagina?rios), vista como um conjunto de significados e si?mbolos construi?dos pelos homens para explicar o mundo.
Alberto Oliveira Pinto foi escolhido entre trinta candidatos e e? distinguido pela segunda vez com o pre?mio, depois de ter sido galardoado em 1998 com o romance Mazanga.

“IMAGINÁRIOS DA HISTÓRIA CULTURAL DE ANGOLA”
DE ALBERTO DE OLIVEIRA PINTO.

Imaginários da História Cultural de Angola”, de Alberto de Oliveira Pinto, Prémio Sagrada Esperança 2016, reparte-se por um conjunto de abordagens, um conjunto de textos que percorrem a história do esclavagismo e as influências angolanas para lá do Atlântico, recuperadas para a literatura, com incidência no que o autor designa como “imaginários românticos”, assim como as inequívocas influências brasileiras na História de Angola e na sua literatura, desde o romance precursor Scenas de África, de Pedro Félix Machado, a Luandino Vieira, cujas influências de Guimarães Rosa são evidentes, passando por outras influências e outros autores.
Esta obra percorre ainda ciclos da história do Kongo, a que se associa a enigmática e problemática figura de Luís Lopes Sequeira, associado à batalha de Mpungu-a-Ndongo, à campanha do Libolo e – a mais referenciada – à célebre Batalha de Ambwila, de 1665, de que no final fica como facto histórico a decapitação do Rei do Kongo e o início da ocupação efectiva do espaço que viria a ficar integrado no chamado “Congo Português”.
Outrossim, percorre o Corredor do Kwanza, em que o autor nos dá informações históricas importantes e se detém sobre o percurso biográfico de Mwen’Exi Njinga Mbande, a nossa querida Rainha Njinga Mbande, (importa dizer que MWEN’EXI é como se deve designar os titulares do poder máximo no contexto de língua kimbumdo), com o que somos impelidos a revisitar e a criticar as fontes a partir das quais se escreve a História de Angola, fontes essas muitas delas eivadas de erros propositados, ou decorrentes do pouco conhecimento das línguas e culturas das comunidades em presença, – como de resto se percebe do facto de erradamente, em nosso entender, serem designados como manis, e quiçá ntotela, os mais elevados titulares de poder no Reino do Kongo – como dizíamos, pouco conhecimento das línguas e culturas das comunidades em presença, o que leva a inadequadas interpretação dos factos.
A obra de Alberto Oliveira Pinto desemboca, por fim, na luta de libertação nacional e independência do país, na forma de análise semiótica de textos literários, umas vezes, na forma de narração de factos históricos, outras, cuja análise e discussão se faz no brilhante prefácio à obra feito por Irene Alexandra Neto que, discordante por vezes com o autor, tal como nós quanto a alguns detalhes da mesma, dizíamos, Irene Alexandra Neto evidencia o sentido da necessidade do “mais alargado debate de ideias” proposto pelo presidente Neto no seu célebre discurso Sobre a Cultura Nacional, e, do mesmo modo, evidencia o exercício da plena democracia que, não obstante os críticos e as críticas, se converterá seguramente num dos principais elementos identitários dos angolanos.

CONTRADIÇÕES
E MISTIFICAÇÕES
A par dos temas já enunciados, o autor remete-nos igualmente para contradições e mistificações quer do processo colonial, quer da luta de libertação nacional, quer do processo pós-colonial de Angola, quer para algumas questões candentes que povoam o nosso imaginário e provocam acesas discussões nos nossos dias, nomeadamente, as teses da crioulidade e do lusotropicalismo que, a par das novas correntes “auctoctonistas” e da chamada “Angola profunda”, parecem querer fazer morada entre nós, contraditoriamente, no país independente.
Sendo embora discordantes quanto à exclusão de Alfredo Trony da Literatura Angolana, para situá-lo na literatura colonial pelo facto de, à semelhança de Scenas d’África, ter sido a sua obra instrumentalizada como veículo da propaganda colonial, (escreve a páginas 70 o autor: “ De uma perspectiva objectiva, Cenas de Áfria -  Romance  Íntimo, de Pedro Félix Machado – à semelhança aliás de Nga Muturi de Alfredo Trony – pode ser considerado um romance de literatura colonial porque, havendo sido publicado num jornal de Lisboa em 1891, (…) independentemente da vontade, da sensibilidade e dos sentimentos do autor, foi utilizado como veículo de propaganda colonial e como legitimação ideológica do facto colonial.”), ou se, tendo reservas quanto à tradução do topónimo Kakongo como Pequeno Kongo ou Konguinho, partindo do prefixo diminutivo KA, próprio do kimbundo, língua que não faz parte do contexto daquela região, diferentemente do kikongo, língua em que o diminutivo KA só se encontra presente nas zonas de confluência linguística entre o kimbundo e o kikongo, o chamado dihungo, poder-se-ia encontrar na língua kikongo uma tradução mais própria, até porque a partir da tradição oral nessa língua encontramos explicações para a génese dos Estados daquela região que teriam sido constituídos a partir de um dos sobrinhos do Ntinu, do Ntetela, do Ne Kongo, que teria  sido enviado castigado para aqueles territórios.
É no entanto com grande júbilo que felicitamos o autor Alberto de Oliveira Pinto que, estando embora na diáspora, talvez seja o único daqueles até agora, que faz uma abordagem clara e objectiva destes e outros temas como o do lusotropicalismo, da angolanidade e da crioulidade, respondendo de algum modo às dúvidas que aqui temos sobre as teses  da génese crioula  da literatura angolana sustentada pela escola portuguesa, representada por Mário António, (curiosamente um dos grandes poetas da Mensagem), José Carlos Venâncio, Salvato Trigo, Carlos Pacheco, David Mestre, apadrinhado por Hamilton e por Gerald Moser”.1
Cremos mesmo que o nosso júbilo deve ser redobrado, pois, Alberto de Oliveira Pinto, com esta obra, se, por um lado nos traz importantes subsídios à história contemporânea de Angola, particularmente quanto a contradições entre e no seio dos movimentos na guerrilha durante a luta de libertação nacional, e  que se reflectiram no processo que culminou com a proclamação da independência angolana pelo Dr. António Agostinho Neto, de que emergiu o Estado em que hoje vivemos, Estado nascido  num contexto de implosão do Estado e da Economia coloniais por consequência do abandono do território pelos portugueses, o que explica em certo momento da nossa história a estatização da economia, e a proclamação no Huambo de uma outra independência e Estado, a República Democrática de Angola,  entretanto falida à nascença, como dizíamos, devemos congratular-nos porque esta obra do Alberto de Oliveira Pinto, com a qual o autor se torna talvez no primeiro daqueles angolanos  na diáspora que nos traz uma clarificação do que deve ser entendido por literatura angolana, por oposição à literatura colonial,  nos evidencia as teses do lusotropicalismo de que se alimentou em larga medida o sistema colonial e  uma clarificação quanto à questão de uma suposta crioulidade em Angola e posiciona-se de forma única e inequívoca ante a interpelação de Maria da Conceição Neto quando esta escreve a propósito da crioulidade:
(O conceito) “paradoxalmente, vem sendo cada vez mais usado, sobretudo a partir de portugueses e angolanos residentes em Portugal, o que mereceria outra reflexão, sobre o papel das diásporas no jogo das (re)definições identitárias.”2

SEPARADOR DE ÁGUAS
Cremos ser oportuno dizer que a presente obra de Alberto de Oliveira Pinto, do muito que nos traz, permite-nos também esclarecer de maneira exaustiva, algumas das questões que ensombram os fundamentos iniciais da CPLP cujos sentimentos lusotropicalistas ainda pairam entre muitos e se transpuseram para o actual acordo ortográfico da língua portuguesa, felizmente não subscrito por nós.
“Imaginários da História  Cultural de Angola”, é uma obra que seguramente se imporá como obra de referência, quer no estudo das Letras, quer da história antiga, quer da história contemporânea de Angola, pois, ao esclarecer-nos sobre as questões acima, ao deter-se sobre a realidade  actual, partindo dos textos literários na mesma referenciados, ao trazer valiosos esclarecimentos sobre informações que nas fontes antigas se fazem a propósito de Mwen’Exi Njinga Mbande, a rainha Njinga Mbande,  ou ainda ao trazer de maneira expressa referências a contactos com madeireiros portugueses do Moxico, em 1971 e acções de cooperação “com o exército português na luta contra a Frente Leste do MPLA”3, como de resto pode ser lido a páginas 198 deste livro,  permitirão ajudar a compreender alguns dos problemas que o país viveu. A propósito, para ajudar a encaminhar o estudo desta questão, lançando desde já o repto aos estudiosos, importa lembrar que Angola, em 1972, passou de Província Ultramarina a Estado de Angola, o que deixa então antever uma perspectiva federalista porventura, autonomista talvez… uma política de associação entre Portugal e Angola. Entretanto, nesta análise, importa  atender ao facto histórico de, no actual Zimbabwe, ter sido antes instituído o Estado da Rodésia do Sul, que teve  vigência de 1965 a 1979 e uma independência, declarada unilateralmente pelos colonos brancos, entretanto não reconhecida, “tendência independentista branca” que igualmente existiu em Angola e que teve de adaptar-se na estratégia, em função do não reconhecimento daquele Estado (Rodésia do Sul), poderemos vislumbrar que, na base da cooperação e acordos a que acima fizemos referência, com a transformação do estatuto de Angola de Província Ultramarina em Estado de Angola, se instituiria entre nós um poder político de “maioria negra”, com uma “supremacia económica branca”, o que de resto constitui uma das razões de alguma hostilidade que ainda hoje encontramos em alguns círculos da antiga metrópole.
Como nota final, quereremos sublinhar que esta obra do Alberto de Oliveira Pinto, para lá do que já foi dito, virá ajudar a “separar as águas” entre a literatura angolana e a literatura colonial, sendo por isso um instrumento precioso para aqueles que virão a escrever a História da Literatura Angolana, assim como para aqueles que terão a seu cargo no futuro escrever a História de Angola com todo o rigor que se impõe, do mesmo modo que permitirá iluminar as mentes quanto à Nação Angolana em cujos fundamentos se encontram a nossa história e a nossa cultura, cuja diversidade é como os afluentes que fazem a força do Rio Kwanza.
1 Caley, Cornélio – Teoria de Angolanidade Literária: ensaio sobre caracterização do texto literário angolano , Colectânea de textos sobre angolanidade literária, INIC, Luanda, 2011.
2 Neto , Maria da Conceição, Ideologias, Contradições e Mistificações da Colonização de Angola no Século xx, pp. 327-359 Lusotopie 1997 “Evitemos equívocos lembrando, em primeiro lugar, que « crioulo » tem uma pluralidade de significados que chegam a ser contraditórios : no Brasil, designava o escravo negro nascido localmente; noutras colónias americanas, os brancos ali nascidos. Em Cabo Verde, todos se assumem « crioulos » de longa data. Em Angola, o termo está hoje em dia fortemente politizado, ao ponto de haver três ou quatro significados correntes, donde resulta ser cada vez menor a operacionalidade do conceito. Mas, mesmo no sentido que na história de África geralmente se dá a « crioulos » (grupos social e culturalmente distintos, com consciência de grupo, reivindicando-se da dupla herança africana e « ocidental »), crioulidade e mestiçagem « racial » não são sinónimos. Não só a mestiçagem não é condição suficiente para o surgimento de « crioulos », como também pode suceder que estes não se distingam « racialmente » dos «não-crioulos» que os rodeiam. (…) Ou seja, os processos de «crioulização» pertencem a diferentes épocas e a povos diversos e referem-se a novas identidades socioculturais resultantes da interacção prolongada de línguas e culturas diferentes, num espaço geralmente limitado e em determinadas circunstâncias (ou então, seríamos todos crioulos, como resultantes que somos de múltiplas interacções culturais). “Durante todo o período que antecedeu a criação da Comunidade dos países de língua portuguesa (CPLP) (« inocentemente » chamada por várias vezes Comunidade lusófona, lusofonia ou, pelos saudosistas do império, Comunidade lusíada), a par de posições mais esclarecidas, foram inúmeras as declarações que explícita ou camufladamente ressuscitaram o lusotropicalismo, aparentemente sem sequer se darem conta do choque provocado em alguns dos seus parceiros africanos. Aquele que foi um dos motores da criação da Comunidade dos países de língua portuguesa, José
 Aparecido de Oliveira, foi pródigo em afirmações «lusotropicalistas», de que cita :
« A CPLP já nasce com a herança que Portugal legou ao mundo, esse
"mundo que o português criou", a que se referia Gilberto Freyre. Ela aí está viva perante nós… » .-Dizia  no (O Dia, 25 de Janeiro de 1994).
3 Idem.
4- Pinto, Alberto Oliveira – Imaginários na História Cultural de Angola, INIC, 2017.

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