Alda Lara: textos dispersos

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Na sequência da apresentação dos primeiros escritos de Alda Lara, na rubrica Textos Dispersos, da edição do nº42 deste jornal, propomos agora a leitura de um artigo desta saudosa autora, “O Profissionalismo da Mulher no Sul de Angola”, publicado em Lisboa, no Jornal Magazine da Mulher, em 1950, alguns meses depois de Alda ter completado 20 anos de idade.

A referida publicação, mensal, foi fundada e dirigida pela também benguelense, jornalista e escritora, Lília da Fonseca. Este mensário assumia-se, à partida, como um projecto cujo objectivo era criar um periódico dedicado aos problemas e interesses das mulheres, abrangente, desinibido e actualizado. No editorial do primeiro número pode--se ler que “esta não pretende ser apenas uma revista de modas, culinária, tratamentos de beleza, processos de tirar nódoas”, porque “relegar o poder de compreensão e interesse da mulher apenas para estes assuntos específicos, é desprestigiá-la na sua qualidade de ser pensante e, o que ainda é mais, estabelecer uma teoria desarticulada da realidade que vivemos.”

A revista, publicada de 1950 a 1956, num total de 52 números, reflectirá sobre a vida da mulher em vários domínios. Sublinhará a evolução e valor da sua participação ao longo dos tempos - o seu papel no mundo laboral, na cooperação e manutenção do lar, a sua condição de trave mestra da família - a sua constância na luta pela vida, na educação dos filhos, na expressão de novos anseios como de ideais de sempre. Neste sentido, a tábua de matérias do Jornal Magazine da Mulher incluía rubricas tão diversas como A Mulher Através dos Tempos, Entrevistas, Reportagem, Biografias, Página de África, Educação, Literatura, Cinema, Figurinos, Beleza e Penteados, Assuntos Práticos e do Lar que, no essencial, se foram mantendo, com pequenas variantes, durante os seis anos da sua publicação.

Ressaltamos, a propósito, as constantes preocupações deste projecto editorial para com as vivências humanas, não só em Portugal e na Europa, como nas latitudes africanas. Assinalamos, por exemplo, o destaque dado em números especiais inteiramente dedicados
à figura feminina na Guiné. Nos vários artigos que compõem estes números, é dada ênfase, então pouco usual, ao lugar de relevo ocupado pelas mulheres Manjaca, Mandinga e Felupe acentuando-se, deste modo, o seu papel,  determinante nas tomadas de decisão e na gestão da vida dessas comunidades, bem como a sua tenacidade perante as adversidades. Esse dossiê contou com diversos colaboradores.

Para além dessas preocupações, acresce o facto de o aumento massivo da população europeia em Angola, a partir da década de 1940, acentuada depois do final da Segunda Guerra Mundial, ser um elemento que, neste enquadramento, não se pode deixar de levar em linha em conta. Naquele contexto temporal, o papel do elemento feminino nas mudanças então em curso assumiu-se numa afirmação gradualmente crescente. O número avultado de homens mortos na Guerra permitiu marcar, de forma cada vez mais activa, a intervenção das mulheres na sociedade. Além disso, o acréscimo do número de mulheres com acesso à instrução favoreceu uma actuação com maior notoriedade.

Em evidente identificação com anseios e propósitos da linha editorial atrás enunciada, Alda Lara colabora num dos primeiros números do Jornal Magazine da Mulher, numa edição de Dezembro. Neste artigo, as posições por ela assumidas contrariam a ideia
que, na então Metrópole, comummente, se veiculava sobre o papel da mulher nas antigas colónias portuguesas, nomeadamente em Angola. Optando por um registo entre o informativo e o opinativo, apresenta dados relativos à participação supostamente menor da mulher angolana, quer quanto à percentagem de intervenientes envolvidas, quer quanto à sua distribuição no terreno, por ramo de actividade e tipologias de desempenho laboral. Alda acentua mudanças ocorridas nas atribuições sociais da mulher no Sul da
Angola entre a década de 1940 e 1950, aponta causas e perspectiva o futuro a dez anos, relativamente ao ministério da mulher na sociedade angolana.

E sem escamotear a premente questão das desigualdades no acesso ao mundo do trabalho, Alda Lara não desvaloriza a importância da lida doméstica ou da plantação e colheita de produtos agrícolas, tarefas necessárias à subsistência da família e geralmente a cargo da mulher negra, sem acesso à escola. Da agricultura à indústria, passando pelo sector terciário, Alda apresenta elementos concretos da inserção da mulher no mundo laboral, nos mais diversos domínios.

Mas, plenamente consciente da estratificação e discrepâncias sociais que afectavam a mulher, o apelo final do texto é dirigido a todas as que, nascidas em Angola, brancas, negras e mestiças, estudavam na Europa, adquirindo conhecimentos e competências nas várias áreas do saber. O seu desejo era que estes saberes fossem, num futuro próximo, postos ao serviço da população angolana.

As informações de que hoje dispomos, consentem a afirmação de que esse desígnio se manifestou, posteriormente, na sua tomada de decisão. Terminado o curso de Medicina, em Coimbra, voltou para Angola cumprindo uma vontade expressa cerca de dez anos antes, tirar um curso que pudesse ser útil no seu país. Deste exercício de observação da realidade circundante e pensamento aturado sobre o mundo, no tempo em que viveu, resulta argumentação consistente e reiterada sobre algumas das inquietudes e anseios desta mulher, a que se junta o seu exemplo de diligência e solidário humanismo.






 





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