Alda Lara: textos dispersos

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Alda Lara é, essencialmente, conhecida do grande público como poeta. A sua poesia tem sido lida por muitos angolanos, e não só, da sua geração e das que se lhe seguiram.

A mulher que foi no tempo em que viveu e a globalidade dos seus escritos não terão talvez a mesma dimensão. Além disso, a sua meteórica passagem por este mundo não lhe permitiu desenvolver uma obra muito vasta.

A actividade profissional, como médica pediatra, a sua participação cívica e a condição de mãe de uma prole crescente consumiram-lhe as réstias de lazer necessárias a um maior recolhimento e à arte da escrita. Mulher de convicções, vítima de conjunturas várias, um ser em busca de si, nunca desistiu do Sonho.

O seu percurso parece tê-la conduzido, por caminhos pejados de obstáculos, à percepção de que a vida em sociedade se rege, sobretudo, por razões de pragmatismo. No entanto, fez do amor, da esperança, do desejo de liberdade, fraternidade e igualdade entre todos os seres humanos lemas de existência. Esse era o âmago de valores e sentidos que sempre exaltou, de forma empenhada e militante, por palavras e atos, num tempo em que se confrontavam condições de vida adversas, contra as quais se rebelava.

Em vida, o que dela ficou testemunhado foi o que os jornais ou outras publicações iam assinalando, em espaços de divulgação cultural de Portugal e da Angola colonial. Segundo notas de imprensa, esses registos encontram- se disseminados por publicações periódicas,algumas delas diárias ou bissemanais, ao longo de várias décadas, facto que tem dificultado a sua recuperação e consequente divulgação. Alguns só aparecem postumamente.

Em periódicos da época foi possível resgatarmos alguns desses documentos, que aqui pretendemos deixar em memória. Assim sendo, esta apresentação de Textos Dispersos, de Alda Lara, que agora se inicia, visa referenciar a sua presença em publicações periódicas em Portugal e Angola, desde a década de 40 até à década de 70, do século XX. Aqui se divulgarão escritos de genologias diversas como o texto narrativo, o poético, o artigo, o diário ou a carta. Se atendermos às matrizes formais e natureza das informações neles contidas, estes permitirão igualmente assinalar a riqueza, a diversidade e o carácter heterógeneo do texto de imprensa.

O que de Alda Lara se publicou deu-nos o que é mérito reconhecido dos textos plasmados na imprensa de um determinado tempo – os seus insubstituíveis testemunhos, preciosos instrumentos de análise e estudo dos períodos históricos, dos factores sociais e culturais, elementos imprescindíveis para o devido enquadramento das problemáticas, para o questionamento das atitudes, das opções, das soluções encontradas em cada momento e, consequentemente, para uma melhor compreensão dos actores e dos tempos aludidos.

Alda Lara nasceu a 9 de Junho de 1930. Os primeiros escritos surgem para o mundo no primeiro dia do ano de 1945, sob o título Divagando, no Jornal de Benguela, terra que a viu nascer. Pequenos retalhos de narrativa que permitem, desde logo, sublinhar a elegância da escrita e as preocupações desta jovem de catorze anos com os seres e o mundo que a rodeavam, aspectos que se tornarão uma constante ao longo da sua curta vida.

À alegria da família reunida em festa para comemorar a chegada de um Novo Ano, cíclico anúncio de novas Primaveras, contrapunha ela o sofrimento de tantos que nessa quadra se agudiza. E fê-lo associando-se, ainda na Primavera da vida, ao sentir mais pungente decorrente da dor da separação e da distância, ocorrências próprias daquele espaço e daquele tempo, mas sempre mais manifestas nesse particular momento do ano.

Nesse tempo, Alda exaltava ainda a intensidade com que o som da Guerra atordoava o coração dos homens, realçava a importância protectora  dos “mais velhos” ou acentuava a luta insana entre a vida e a morte. Mais de meio século volvido sobre a data do seu falecimento, a 30 de Janeiro de 1962, em Cambambe, ao reler estes escritos de juventude, talvez seja lícito afirmar que as sementes que lançou à terra continuam espalhadas por esse mundo. E todos os anos, a ordem cíclica das estações anuncia, após cada Inverno, a chegada de uma nova Primavera.

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