Angola, Angolê, Angolema

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Poesia de Arlindo Barbeitos

Arlindo Barbeitos

A voz de Arlindo Barbeitos, considerada pelo editor Sá da Costa como "algo de inteiramente diferente no panorama da literatura africana de expressão portuguesa", apareceu, em edição de 1975, no volume `ANGOLA, ANGOLÊ, ANGOLEMA' e logo exerceu nos leitores um fascínio desmedido, devido ao "seu universo, a via livre da sua expressão, a força do estilo, a concentração e densidade do verso, o seu grande respeito pela palavra".

É um livro que recomendamos para reedição urgente pela UEA, dada a sua longeva desaparição do mercado livreiro, num momento em que as jovens gerações buscam um caminho para a sua afirmação literária. Servir-lhes-á, evidentemente, de referência estético-formal e ideológica.

Na introdução à obra, o poeta Arlindo Barbeitos afirma perentoriamente: "eu não sou um poeta europeu. Interessa-me ler a poesia europeia porque posso aprender muita coisa que me ajude a exprimir aquilo que não é nada europeu. (...) O poeta leu muitos poetas africanos e achou que estava correto, sentia os mesmos anseios que eles, mas afastou-se dos habituais sendeiros da poesia africana de expressão portuguesa. (...) São influências subterrâneas, e então aí há muitas; há subjacentes, e às vezes saindo mesmo cá para fora, formas culturais africanas que recordo do meu passado, eu vivi no interior, e da minha profissão de etnólogo.

Mas também muito maior que a influência portuguesa, num cero tipo de construção, e muito mais do que se possa pensar, há a influência da poesia chinesa, da poesia japonesa.

Temos aqui uma certa aneira artesanal, primorosa, de modelar a palavra, mas tudo isto tem a ver precisamente com a forma, e menos com o conteúdo." Barbeitos tentou, como ele próprio diz, "criar "uma poesia que tende à harmonização, no sentido de um terminar da alienação, embora se saiba que é quase impossível. Mas esta é a esperança."

1
Almas de feiticeiros desaparecidos repousam de noite nas copas de árvores antigas
nuvens brancas pássaros noturnos
o hóspede de sandálias de pacaça aproxima-se do fogo e adormece
almas de feiticeiros desaparecidos repousam de noite nas copas de árvores antigas

2
amanheceu
quem diria que inda agora hoje era ontem
e que cacos ao longe não iam ser olhos de bicho
quem diria que patos-bravos mergulhando não eram jacarés
e que lagartos azuis iam a quatro patas quem diria que bosta de elefante não eram pedras
e que guerrilheiros antigos iam pisar a sua mina
quem diria que o professor cismando não era surdo e que os alunos não iam falar a sua língua quem diria que a moça do Muié que inda agora era virgem logo já o não é
quem diria que inda agora hoje era ontem amanheceu

3
árvore sem sombra mulher sem sexo vento sem poeira cão sem rabo

4

em meio das ruínas das ruínas das pedrinhas das pedras uma galinha uma galinha só

5
camarada
a lenha molhou-se
os fósforos acabaram-se
e
ochima está Jicando frio
vem
só pássaros de vento
voando sem rota
não temem a chuva

6
No dorso
do escaravelho bizarro
o escudo intacto
do guerreiro
há tempo morto

ARLINDO BARBEITOS nasceu a 24 de Dezembro de 1940, em Ikolo e Bengo. Fez estudos primários em Catete e Luanda. Na capital, frequentou o antigo colégio das Beiras e depois o Liceu Salvador Correia. Seguiu, em 1958, para Portugal para ingressar na Universidade. Cedo se converteu em membro da antiga Casa dos Estudantes do Império (C.E.I.) e ali se tornou militante do Movimento Anti-Colonialista (M.A.C.).

Em 1961, escapou para Paris, onde se integrou nas fileiras do MPLA. De França, ainda em Setembro de 1961, partiu, já sob o mando daquele "movimento", para Frankfurt/Main, na Rep. Federal da Alemanha. De 1961 a 1963, trabalhou como operário braçal naquele grande centro económico e financeiro alemão, europeu e mundial.

Em 1964, na J. Wolfgang Goethe Universitaet, iniciou o estudo de Sociologia, onde permaneceu até o Vordiplom (bachelerato) 1968. Então, nesse mesmo ano, encetou uma formação em Antropologia.

Em 1971, regressou ao país e foi colocado como quadro do C.I.R (Centro de Instrução Revolucionária) nas zonas libertadas do Moxico. No princípio de 1973, provido de autorização superior, já de volta à Alemanha, agora em Berlim Ocidental, começou o tratamento de uma tuberculose e de outras sequelas de ferimentos adquiridos em combate em que participou na luta contra o colonialismo português.

Interrompeu, em Setembro de 1975, a formação e a atividade docente em Berlim e veio para Luanda; integrado no Protocolo da Presidência da República Popular de Angola, trabalhou, por dois anos, como intérprete de alemão do Dr. Agostinho Neto;

A 10 de Dezembro de 1975, tornou-se um dos escritores-fundadores da União dos Escritores Angolanos (U.E.A.). De imediato, em versão um tanto modificada da edição em português-alemão, saída na Holanda em 1974 , publicou-se em Luanda, o livro de poemas Angola, Angolê, Angolema. Em 1979, veio a público N'Zoji, 1991, chegou a vez de Fiapos de Sonho, por fim em 1998, em Lisboa foi editado o Na Leveza do Luar Crescente.

Todos estes livros, de poesia, espelham, em forma transfigurada de metáfora poética, reflexões sobre diferentes fases da História de Angola - da luta de libertação, da independência, da revolução, do de conseguimento seguinte e da guerra civil. Em 1985, divulga, através do U.E.A., as estórias curtas de, O Rio - Estórias do Regresso.

Em 2005, 2007, respetivamente em Lisboa e em Luanda, aparece o ensaio de filosofia política, A Sociedade Civil, Estado, Cidadão, Identidade em Angola. Numerosos poemas seus surgiram em diversas antologias, angolanas, portuguesas, brasileiras espanholas, italianas, francesas, alemãs, etc. A sua dissertação doutoral veio à luz, em versão original, em francês - Angola/Portugal: des identités coloniales équivoques. Historicité des représentations de soi et d'autrui, em 2008 em Paris.

Esta tese resultou de uma longa e complexa investigação, que demorou mais de 6 anos, principiada em Luanda e prosseguida em arquivos portugueses. A tradução para o português foi publicada em Luanda, 2012, pela Editora Kilombe-Lombe.

7
Catete
Oh terra quente
de beiços de imbondeiro
e barbas de milho
quantos filhos
não esmagaste
ente teus finos dedos de algodão
Catete
Oh terra quente
de beiços de imbondeiro
e barbas de milho

8
Catete
Oh terra quente
de beiços de imbondeiro
e barbas de milho
quantos filhos
não esmagaste
ente teus finos dedos de algodão
Catete
Oh terra quente
de beiços de imbondeiro
e barbas de milho

Uala
Quinga
Cunga
Guimbe
Quindambiri
E Uanga-Zanga
Só pra ver
O comboio de Malanje chegar
houve gente que veio mesmo do Tar


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