Angola–Portugal Representações de si e de outrem ou o jogo equívoco das identidades de Arlindo Barbeitos

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Esta obra de Arlindo Barbeitos é uma busca árdua multidisciplinar, histórica, sociológica, antropológica e até filosófica. Uma procura de respostas inclusivas e adequadas para a luta dilacerante que opôs irmãos angolanos durante os últimos trinta anos em guerra civil que foram antecedidos pelo combate anticolonial.

No prefácio, como diz o autor, vários intelectuais, sobretudo estrangeiros, tentaram entender as emanações políticas anticolonialistas e dar explicações várias de natureza histórica ou antropológica da realidade angolana e, assim, compreender a sua génese. Em parte, devido à estreiteza e ao dogmatismo do pensar político-filosófico da potência colonial.

Muitos desses autores influenciaram a acção política e até o ideário dos movimentos de libertação ou os seus próprios actores. Por isso, são também responsáveis por movimentos de exclusão e de aceitação menor do outro, quer dês minorias ditas raciais ou étnicas...

A dissertação de Arlindo Barbeitos é um trabalho de longa duração pois abarca um período cronológico que começa no séc. XVII e vai até meados do séc. XX. Ela tem o mérito de, pela primeira vez, um angolano utilizar um instrumentário científico actual para desconstruir as teses elaboradas sobre os angolanos e a realidade social e histórica angolana desenvolvidas por conceituados africanistas estrangeiros.

Esta é a grande novidade e constitui o grande pilar deste trabalho; representa, porventura, a primeira vez que tal acontece nas ciências sociais da lusofonia africana. Deste modo, em termos teóricos, o africano deixa de ser objeto passivo do olhar forâneo e torna-se sujeito ativo na reconquista do próprio passado.

Para isso, ele recorreu às fontes dos séculos XVII e XVIII, nomeadamente, de Cadornega e de Silva Correa, entre outros, dando enfoque aos “filhos do país e à complexa relação entre forasteiros e nativos. Ao mesmo tempo, ele aborda a mestiçagem cultural e biológica que será considerada, conforme as diferentes fases da colonização.

De acordo com esta perspetiva, Arlindo Barbeitos estuda a relação dialética entre as dimensões doutrinárias bioligizantes e essencialistas do colonizador para consigo mesmo, para com o negro e para com o mestiço. Ele procura mostrar como as consequências políticas práticas dessa visão teórica reducionista dos homens assumirão foros cada vez mais contraditórios e opressivos, em particular desde 1890- Isto, quando o poder de Lisboa muda drasticamente de paradigma ideológico e político face às colónias e ao trato da metrópole com elas. Esta alteração, como nos revela o dissertador, a pesada marca de Oliveira Martins.

A Independência do Brasil em 1822 e a reorientação das elites portuguesas para África, influenciadas, dentre outras correntes de pensamento, pelo liberalismo britânico, ajudaram, sobretudo a partir de 1860, a formar uma nova elite intelectual, como a chamada geração de 70 do séc. XIX em Portugal. A esse escol, pertenceram Eça de Queirós e o já citado Oliveira Martins imbuídos de fervor nacionalista que via no império, tal como António Ennes, discípulo do segundo, a salvação da Pátria.

No capítulo dedicado ao referido autodidata Oliveira Martins, o autor procede a uma análise inédita dos intelectuais da modernidade portuguesa que cunhou a República e perdurou até ao Estado Novo. A esse pensador luso se deve a noção de racionalidade impessoal e a respetiva substituição da razão divina, portanto, torna-se em acérrimo defensor do progresso e da técnica. Ele defende um darwinismo social cruel e duro, que assume a seleção natural como extensiva à sociedade e, nesta senda, pugna por um racismo de Estado. Oliveira Martins demonstra ser um dos defensores da noção orgânica do poder cesarista tão próximo das ditaduras e, por isso, tão cara a Salazar.

Ainda no encalço da explicação da sociedade angolana, segue-se o capítulo acerca do missionário suíço Heli Chatelain e do papel das igrejas cristãs na transformação sociocultural dos indígenas e indica como elas foram eficazes em inculcar nessas gentes representações de si e de outre de origem europeia e alheias às culturas locais. Por exemplo no território do antigo Reino do Congo os bairros foram divididos em grupos católicos e protestantes.

Esta postura religiosa do sacerdote estrangeiro traz consigo aspetos determinantes do romantismo europeu e dos nacionalismos etnicistas e racistas que ele fomentou pelo Ocidente e pelo resto do mundo. Porém, a despeito de tudo, tais atitudes e comportamentos estranhos estiveram nos primórdios do nacionalismo angolano. Heli Chatelain, para facilitar a missão evangelizadora, contribuiu muito à fixação do Kimbundo e do Umbundu, facto que em si guarda um elemento muito positivo. Contudo, durante a guerra de libertação e após ela, o lado particularizante e comunitarista regional dessas ideologias forasteiras dificultaram, entre muitos nacionalistas angolanos, a compreensão adequada da situação colonial e da ação comum que ela implicava.

Como prova dessa influência fragmentadora, Arlindo Barbeitos debruça-se sobre a passagem do racismo popular ao “científico” e demonstra como e quando se efectua, contra tendências proto-nacionalistas angolenses anteriores, a clivagem entre negros e mestiços na sociedade colonial moderna. Aliás, como ele também desvenda, essa divisão, está ligada à substituição do direito matrilinear tradicional pelo direito patrilinear assumido pelo cristianismo e pela legislação colonial.

A tese, em meio a outras conclusões, explica que a história angolana é uma história de longa duração de violência colonial que, não raro teve semelhanças a um fascismo brutal. Mas, não deixa de parecer contraditório que essa violência tenha gerado os próprios Estado e Nação angolanos, Por conseguinte, a mesma guerra civil contribuiu para o aumento da consciência nacional.

Enfim, as identidades angolanas refletem um processo através do qual a permanência de um indivíduo e de um grupo, no tempo e no espaço, é assegurada, por todo um conjunto de características sociais e culturais específicas dos indivíduos e dos coletivos modernos em que se incluem as representações de si e de outrem.


Luanda, 20 de Maio de 2012

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