Arnaldo Santos próximo da natureza

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Estamos aqui para a apresentação do 17º livro do escritor Arnaldo Santos, o autor (dentre outros) de Kinaxixi, Tempo de Munhungo (Prémio Mota Veiga, atribuído em 1968), Poemas no Tempo,

À mesa os escritores Carlos Ferreira e Arnaldo Santos e o sociólogo Paulo de Carvalho

Estamos aqui para a apresentação do 17º livro do escritor Arnaldo Santos, o autor (dentre outros) de Kinaxixi, Tempo de Munhungo (Prémio Mota Veiga, atribuído em 1968), Poemas no Tempo, A boneca de Kilengues, Crónicas ao Sol e à chuva e O vento que desorienta o caçador. Vários dos livros, contos e poemas de Arnaldo Santos estão traduzidos para francês e inglês, assinalando-se também a sua presença constante em antologias que se publicam em Angola e fora de portas.

Depois de A casa velha das margens, Crónicas do balão e Sabina, Arnaldo Santos surge agora com O Mais-velho Menino dos Pássaros. Trata-se de um conto, que é simultaneamente uma curta auto-biografia que retrata alguns anos de vida do autor, que neste livro recorreu aos dotes artísticos de Luandino Vieira para as ilustrações.

Quando tive o primeiro contacto com a obra, pareceu-me um livro dirigido a crianças. Certamente muitos de vós terão tido a mesma sensação, perguntando-se se o mais-velho Arnaldo Santos, agora que entrou para a segunda infância, não teria tido a ideia de voltar a escrever para crianças.

Mas não. O formato do livro e a forma como estão feitas as ilustrações conduzem a esse equívoco. O Mais-velho Menino dos Pássaros é literatura dirigida a adultos, pois apesar de retratar parte da infância e adolescência do autor, o livro contém elementos que podem contribuir para os pais aprimorarem a forma de educação dos seus filhos.

Uma vez que a época retratada no livro é a da infância e adolescência do autor, o livro transporta-nos ao período pós-II Guerra Mundial (segunda metade da década de 1940 e início da década de 1950, já lá vão quase 70 anos), um período de privações várias em Luanda, onde havia até alguma escassez alimentar.

Não nos admiremos, pois, de ver o Xaxa a utilizar a sua fisga para matar pássaros que depois vão servir para a alimentação dos petizes. Xaxa via-se "como um caçador" (págs. 22, 25), um caçador de pássaros e de outras aves.
O autor põe-nos em contacto com a natureza, chamando à atenção para a diversificação da fauna voadora de então, na "floresta" (pág. 21) do Kinaxixi. Para além de rolas e outras aves, cita uma série de pássaros, como sejam: bicos de lacre, bigodes, cardeais, catetes, maracachões, pardais, pica-flores, pírulas, rabos de junco, siripipis e viuvinhas negras. Termina a sua odisseia com um canário do kwanza, a respeito do qual falaremos no final desta apresentação.

Quanto a personagens, o destaque vai para o ndengue Xaxa (filho da Dª Dadinha "da Casa Azul" - pág. 6) e para o seu homónimo, o kota Cândido Alexandre.
Acerca da mensagem que o livro transmite, penso ser de referir quatro aspectos que me saltam à vista.

O primeiro deles tem a ver com a educação dos nossos filhos, daqueles que amanhã vão ocupar os nossos lugares de escritores, de investigadores, de comerciantes, de ardinas, de domésticos, de polícias, de professores e de políticos. Quanto tempo dedicamos hoje à educação dos nossos filhos? Será que temos consciência da forma como os nossos filhos estão a ser educados por outros? Será que nos apercebemos que pagamos muitas vezes, para nos deseducarem e nos maltratarem as crianças e os adolescentes? Será que já nos perguntámos se o consumo de droga e outros desvios que ocorrem com os filhos do vizinho podem também estar a ocorrer com os nossos próprios filhos? Será que paramos para perguntar se os nossos filhos são realmente felizes, ou se a nossa própria felicidade ocasiona de facto a infelicidade dos nossos filhos? Temos de nos fazer todas estas perguntas e temos de ter consciência que será a resposta a elas que nos dará conta da resposta a uma outra pergunta fundamental: somos nós bons pais?

E temos de olhar também para a forma de diversão que as crianças encontram. Se estamos hoje na era dos videojogos e os i-pads, há 70 ou há 50 anos atrás tivemos a era das fisgas, que Arnaldo Santos tão bem retrata nesta sua obra. Se hoje as crianças aprendem a dar tiros virtuais contra tudo aquilo que se move, há 50 anos os tiros partiam de um misto de fisga e pedra, tão certeiros quanto dolorosos para as vítimas.

A segunda questão tem a ver com a diferenciação étnica. O autor não se refere a ela taxativamente, mas esta diferenciação está presente quando refere diferenças entre humanos e outros seres vivos, que são similares às diferenças que ocorrem na sociedade humana entre pessoas de vários grupos (a diferenciação étnica é apenas uma das que estão presentes em sociedade). A este respeito, temos de nos perguntar até que ponto somos tolerantes em relação aos demais. E por que razão aquele que nasceu noutro espaço sócio-cultural terá de ter tratamento diferente daquele que me é concedido. Este é um problema que está omnipresente na nossa sociedade, que de nada serve tentarmos olvidá-lo.

O terceiro aspecto está relacionado com os direitos humanos (pág. 17). Este é um assunto sério, que nem sempre é tratado de forma séria. Acontece muitas vezes que a sua abordagem se faz em função de interesses de grupo e de interesses de agremiação política. Este é um problema global, que ocasiona o descrédito até nalgumas das maiores democracias do mundo. Como é possível os Estados Unidos terem tantos pobres a vaguear pelas ruas, mas as suas autoridades querem dar lições de direitos humanos aos demais. Não se respeitam os direitos de muitos dos que estão lá dentro e desrespeitam-se os direitos mais sagrados (com o direito à vida no topo) dos que são de fora. E nós? A jovem democracia angolana precisa de aprender com os muitos erros que se vêm cometendo, de modo que possamos seguir em frente, de cabeça erguida, rumo ao bem-estar e ao progresso de todos os angolanos, sejam eles de onde forem e vão eles para onde quiserem ir.

Por fim, tenho de voltar necessariamente à questão relacionada com a preservação do ambiente, um aspecto muito em voga pelo mundo, onde as petrolíferas comandam a forma de actuação e a agressão ao meio ambiente, obrigando agrupamentos humanos numerosos a mudar costumes e hábitos alimentares. Os direitos ambientais fazem parte dos direitos humanos e são também direitos da fauna e da flora, quantas vezes agredidas pela ambiciosa mão (des)humana?

Em relação aos quatro aspectos acabados de referir, temos forçosamente de perguntar onde pára o sistema de educação angolano - ou melhor, temos de nos perguntar onde parou o sistema educativo angolano. E a conclusão é que a marcha foi diminuindo gradualmente desde a segunda metade da década de 1980, para atingir o ponto zero já nesta década, com o início da implementação da actual reforma educativa, que está a conduzir as nossas crianças e adolescentes ao obscurantismo, à ignorância e ao desejo de vingança para com os mais velhos, que somos os responsáveis pelo actual estado de falta de educação que grassa pelas escolas do país e começa já a chegar também às universidades. É tempo de dizer basta, para que não nos arrependamos amargamente daqui a dez anitos.

Em conclusão, podemos dizer que este livro é uma balada a respeito da natureza, daquilo que ela nos oferece e daquilo que nós lhe devemos retornar. Não se trata propriamente de uma serenata de exaltação à Mãe Natureza, já que o Homem é parte dessa mesma Natureza, que contém outras partes que devem habitar em perfeita harmonia - o que nem sempre sucede. Aliás, o próprio autor começa referindo algum arrependimento face àquilo que pode ser considerado agressão à natureza, mas depois o personagem principal cresce, ao ponto de entender essa necessidade de viver em harmonia com a Mãe Natureza, qual deusa dos deuses. Esse crescimento do ndengue Xaxa resulta do ferimento de um canário do kwanza (pág. 35), o derradeiro dos pássaros da nossa história, aquele que carrega consigo o nome do Kwanza que traz vida, saúde e alegria às populações humanas e às demais populações que habitam milhares de quilómetros quadrados das margens ao longo desse monstro da Natureza - que é o rio Kwanza, o rio da vida, o rio do dinheiro dos angolanos que serve para alimentar muita gente também fora de Angola.

Estão, pois, de parabéns o autor (não é qualquer escritor que chega ao 17º parto...) e a União dos Escritores Angolanos.

(*) Sociólogo. Texto lido na apresentação do livro "O Mais-velho Menino dos Pássaros", de Arnaldo Santos, na União dos Escritores Angolanos, aos 27/03/2014.

Podemos dizer que este livro é uma balada a respeito da natureza, daquilo que ela nos oferece e daquilo que nós lhe devemos retornar

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