As antologias do passado e a divulgação da qualidade estética da literatura angolana no mundo

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A reedição das antologias do passado constitui um grande desafio editorial para o FENACULT, desde as seleccionadas e organizadas por Mário Pinto de Andrade, passando pelas da CEI, compiladas por Carlos Ervedosa, Fernando Costa Andrade e Fernando Mourão, desembocando “No caminho doloroso das coisas”, organizada por Lopito Feijóo, em 1989; recolhas donde se colhem o rico filão da qualidade estética da literatura angolana, tanto ao nível da tradição oral, como dos cultores da modernidade poética local, inaugurada com a “Mensagem”.

As antologias do passado e a divulgação da qualidade estética da literatura angolana no mundo
Agostinho Neto

Na verdade, esta é uma lição a reter – a exigência estética – pelos “aprendizes de feiticeiro” do burgo cultural luandense, para não continuarem a publicar à toa e por dá cá aquela palha.
Escrevemos algures, em 1989, que “as antologias têm assumido um papel de transcendental importância das literaturas africanas” e acrescentávamos “veja-se o impacto exercido pela ”Antologie de la poésie noire et Malgaxe”, de Leopold Sédar Senghor, sobre a geração de estudantes e intelectuais oriundos das colónias portuguesas, que evoluíam nas universidades portuguesas, nomeadamente em Lisboa e
Coimbra.
Foi, de facto, um verdadeiro alumbramento!
Com efeito, as antologias, quer poéticas, quer em prosa, têm o condão de contribuir de forma inestimável para a divulgação das literaturas africanas
de língua portuguesa.
A literatura angolana mão foge à regra.
Basta ver que poetas como Aires de Almeida Santos tornou-se conhecido com apenas alguns poemas que não preenchem os dedos da palma de uma mão, sendo que o mesmo ocorreu com Agostinho Neto, cujo primeiro livro eram constituído por apenas “Quatro poemas”, o que o tornou igualmente famoso face ao mundo e levou à solidariedade, quando da sua detenção em 1960, sendo eleito como o prisioneiro político do ano pela Amnistia Internacional.
Vale recordar que, a primeira antologia dos PALOP foi editada em Lisboa em 1953, com prefácio de Mário Pinto de andrade e intitulava-se sugestivamente “Caderno de poesia negra de expressão portuguesa”, dedicado ao poeta cubano Nicollás Guillén, considerado pelos organizadores como “o poeta da expressão da negritude hispano-americana”.
A este respeito recorda Mário Pinto de Andrade, em 1978, :“Os critérios das nossas antologias têm variado em função do objectivo que nos propusemos atingir, no momento da sua elaboração.
Data de 1953 o aparecimento, em Lisboa, do primeiro Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa”, testemunhando que “Nele figuravam seis poetas(...) Justamente aqueles que no contexto da época representavam a vanguarda literária desses (três) países, tanto pelo conteúdo dos seus poemas como pelo papel desempenhado nos movimentos culturais de carácter nacionalista.”
Este caderno não incluía poetas guineenses nem cabo-verdianos, o que se ocorreria alguns anos mais tarde, na antologia organizada por Mário Pinto de Andrade, em 1968, em Paris, que frisa no prefácio intitulado “cultura e assimilação, considerado um clássico no estudo da antropologia na África dominada por Portugal: “além dos poetas do Caderno, reúne autores de cabo Verde, da Guiné e também do Brasil”, argumentando que “Foi-nos dado justificar , nessa altura, a orientação dos poetas em reivindicar o orgulho escandaloso da qualidade de ser negro”, reforçando que “ a ultrapassagem da negritude é um facto evidente, entendida como simples afirmação do acto de existir no mundo, sobretudo com a poesia negra de expressão francesa que constituiu o seu principal veículo.
Mas o poeta negro em nada deve renunciar á sua qualidade ou às suas características; pelo contrário, o fundamento da sua universalidade reside na plena afirmação da sua particularidade que não é puramente étnica, mas tanto histórica como social e cultura, numa palavra, humana.”
Na mesma senda destaca Agostinho Neto, um dos poetas antologiados, num colóquio em Lisboa, em finais deste mesmo ano, designado “Colóquio sobre a poesia angolana”, por sinal por si animado em Lisboa, em Novembro 1958, (e que contou com uma brilhante intervenção de improviso de Amílcar Cabral, no período de debate):
“Em 1953, publicamos em Lisboa um “Caderno Poesia Negra de Expressão Portuguesa – a sua designação era elucidativa – sob o signo da negritude.
Numa atitude de adesão ao homem negro, a sua condição, e tendo por base os traços comuns das culturas africanas, construiu-se um mundo.” Neto reconhece que “ entre nós (intelectuais africanos evoluindo na diáspora em Portugal) combateu-se e defendeu-se este conceito (negritude)”, avançando que “ esta é a poesia do desenraizamento. Os seus mais altos representantes são os poetas negros que se exprimem em francês. Esta poesia não chegava aos povos africanos que são o repositório das nossas culturas. Poesia pensada nos gabinetes de estudo, apenas tinha longínquas ligações com os verdadeiros problemas da realidade social.”
A par das antologias de MPA, a primeira das quais organizada em parceria com Francisco José Tenreiro, a CEI também publicou antologias dos cinco países africanos de língua portuguesa, nomeadamente Moçambique, Angola e S. Tomé e Príncipe.
No que se refere à primeira antologia, três poetas angolanos foram seleccionados (Agostinho Neto Viriato da Cruz e António Jacinto), dois santomenses (Francisco J. Tenreiro e Alda do Espírito Santo), e uma moçambicana (a poetisa Noémia de Sousa). A colaboração da poeta José Craveirinha chegou atrasada e não foi incluída no caderno de 1953.
Depois seguir-se-iam outras em Paris ou Argel, organizadas pelos mesmo antologiador, considerado pelo falecido prof. Manuel Ferreira como “o mais lúcido divulgador das literaturas africanas de língua portuguesa”.
A par das antologias de MPA no exílio, outras surgiram em Lisboa nos anos 50 e princípios de 60, como as antologias de contistas angolanos, de poesia angolana e santomense , e moçambicana, estas duas últimas com prefácio de Alfredo Margarido, as três publicadas pela CEI.
A propósito destas antologias publicadas na capital do império, escrevem os editores, dois anos depois daquele colóquio, em 1960: “A Secção Cultura da CEI no cumprimento da sua missão de divulgação dos valores culturais ultramarinos, lança a presente Colectânea de Contistas Angolanos”, acrescentando que “no primeiro grupo apresentado, encontramos os contos tradicionais transmitidos oralmente de pais a filhos durante gerações na sua pureza original e característicos dos meios onde a influência europeia pouco se fez sentir”, enfatizando que "muito difícil se tornou a selecção neste sector por ser quase impossível encontrar hoje os contos na sua forma primitiva, livres de elementos culturais estranhos”. Os editores observam ainda que “deve acentuar-se que a recolha e traduções desses contos tem sido, até aqui praticamente nula e, por último, nem sempre os indivíduos que se têm dado a esse trabalho possuem a devida preparação – foi frequente encontrar na maioria dos contos flagrantes indícios de deturpação”.
Já linguista Irene Guerra Marques, ressalva num texto inserido numa edição mais recente que :”Sem negar mérito àqueles investigadores que neste domínio desenvolveram trabalhos no período anterior à independência do país, de um modo geral determinados pela necessidade da acção missionária, por um lado e por interesses de natureza administrativa, por outro lado”, avançando que na recolha publicação mais recente: “optou-se por organizar esta obra com base em trabalhos publicados por instituições e pessoas cuja acção foi claramente anti-colonial e pelo resgate dos valores essenciais da cultura angolana na sua diversidade”, no fundo o espírito contestatário que presidia as actividades culturais e editoriais no quadro da CEI, ainda que numa perspectiva dissimulada no resgate do cancioneiro popular e da tradição oral popular.
Nesta vereda, os jovens amantes das letras têm todo um património imaterial a explorar, quer seja bebendo da tradição oral, coo da literatura escrita. Ainda assim, nos princípios dos anos 70, o Centro Cultural Augusto Ngangula publicou uma antologia do fabulário africano, cuja selecção e organização estiveram a cargo do escritor Fernando Costa Andrade , cuja introdução é da sua autoria e contida na sua obra "Opiniões"..
A propósito destas duas publicações vale referir que encerram um valioso valor estético, ético e também documental, que não pode ser desprezado por quem quer que seja, muito menos para quem se abalança agora na escrita criativa, como aprendizes de poe, prosador ou ensaísta.
Nestes termos quanto mais rigorosa for a selecção do organizador, melhor é a qualidade final e o benefício para os neófitos da nossa praça literária, que têm que ler cada vez mais os autores das gerações precedentes anónimos e conhecidos. Infelizmente, salvo um ou outra honrosa excepção, nos têm sido dadas a ler antologias de novos autores sem qualquer qualidade literária, justamente porque não são ponderados os factores formais e conteudísticos, sendo que nos vendem gato por lebre. Os novos autores que se habilitam em publicar antologias colectivas, mesmo individuais, têm que atribuir primazia ao necessário equilíbrio entre a forma e o conteúdo, sob pena de se enganarem, a si mesmo, e não trazerem nada de novo para a literatura angolana, senão envaidecerem á toa com o selo do pedantismo e da mediocridade, pois também não se aconselham ou pelo menos não atentam a rica tradição literária angolana, reproduzida , salvo uma ou outra discordância expendida por nós publicamente, já manifestada, em termos gerais respondem aos seus propósitos, dar um maior conhecimento da literatura angolana. Refiro-me às recolhas recentes encetadas pela linguista Guerra Marques, os escritores António Fonseca e Carlos Ferreira.
Em suma, há que efectivamente curar da qualidade disponível, (re)lendo-as. Os jovens escritores não podem publicar só por publicar por da cá aquela palha e quer aparecer por aparecer, descontados talentosos que sobreviveram e sobreviverão ao teste do tempo, desde que se empenhem cada vez mais dando largas ao seu talento, como burilando a todo a pedra bruta da palavra dita. Afora os cogumelos que surgem em abundância no tempo da chuva, mais que dizer em poesia, há que sugerir, propondo vários sentidos sinéstesicos dos diferentes cheiros e odores da rua da amargura e provar os frutos diferentes sabores amargos, mas suculentos, da vida (poética). Temos dito.

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