As múltiplas dimensões humanas de Elias Dya Kimuezo

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Livro de Marta Santos “repõe a coroa” àquele que é considerado o Rei da Música Angolana

Sinto-me feliz e honrado por, a escritora Marta Santos, ter-me batido à porta, há já alguns meses, para que eu tecesse algum comentário sobre Elias Dya Kimuezo. Fi-lo de uma forma muito curta e não imaginava que isso terminaria num livro maravilhoso como este que temos, hoje, nas nossas mãos.

Convidado por um amigo, conheci o Elias, em 1967, a cantar em Kimbundu, aqui em Luanda, numa sala cheia de brancos e de todos nós, vestido de panos e de missangas, calçado de sandálias.

A canção soltava o lamento que perseguiu Elias por muito tempo, num tom que parecia clamar pelo socorro dos ancestrais. Era o lamento do nosso povo. Soltou a voz que ecoou na sala com a sua identidade assumida. Nunca mais o perdi.

Apertava-lhe a mão no fim de cada show. Acredito que o Elias não me conhece. Nunca estivemos juntos. Eu apenas sou um fã do Elias. A sua voz, o seu lamento, levava-me para longe, lembrando as canções dos meus pais bailundos, ensanduichados nos camiões para trabalharem bem longe da sua terra.

Encantava-me ouvi-lo naquela voz soltada para a Humanidade e recheada de esperança. Não era necessário saber o Kimbundu. Era, apenas, necessário sentir o sofrimento do nosso povo.

É esta canção do povo de Luanda que enfrentava o regime que o Elias espalhou por Angola inteira, que a escritora Marta Santos narra, na voz do próprio Elias. A autora leva-nos, com mestria, para aquela Luanda do trabalho árduo, das vendedeiras, das associações, mas também, Luanda dos bailes, carnaval e da afirmação das ideias de libertação, Luanda dos musseques onde reinava a solidariedade, a amizade, a fraternidade, onde todos nós, vindos de longe, aprendemos a viver, a sobreviver e a conviver.

Estrutura do livro

O livro coloca Elias a falar de si próprio, utilizando uma técnica peculiar, misturando a entrevista, com depoimentos de amigos, escritores, políticos, académicos, admiradores e a própria família, depoimentos que resultaram num trabalho interessante que mistura a sociologia com a história da própria sociedade contemporânea da cidade de Luanda.

Complementado com ilustrações da vida do Elias, enquanto cantor e compositor nos vários momentos em que foi premiado ou fotografado com amigos e ilustres políticos, cantores e com uma conversa a dois com a autora, esta obra irá, certamente, ser útil às escolas, para que as gerações vindouras venham a saber quanto custou a liberdade.

Dimensão social

Na voz do próprio Elias: "Deixem-me contar melhor esta história. Elias José Francisco é o meu nome. Dya Kimuezo foi o nome que Deus e a vida me destinaram". "O pai tinha um sonho, queria que eu conhecesse a sua querida terra, os Dembos".

"O pai acabou por morrer na sua querida terra, órfão outra vez, porque a mãe tinha falecido há pouco tempo". "Fui para o Sambizanga viver com a avó Domingas". "A minha avó era uma mulher batalhadora. Com ela, vendi muita farinha, sempre com muito respeito e dignidade".

"Tive bons momentos, até aqueles de ficar com a orelha em pé, espiando e a ouvir os velhos a conversar".
Na voz da ilha: " Dar voz a um povo, levar a sua dor, o seu viver para onde se vai, é obra" Na voz do ilho: "Gostaria de olhar para o meu pai agora e dizer-lhe tanta coisa, mas não sei se..." Na voz do Escritor Wanhenga Xitu: "Olha lá ó Elias, tu ainda estás com a ilha do meu amigo Cadete? Ele riu, e respondeu: "Claro, ela é minha esposa até hoje".Na voz da esposa: " Às vezes, eu dizia que já era tarde e ele com muito carinho dizendo: vá lá, só uma mordidinha".

Dimensão cultural

Na voz do próprio Elias "Tinha agora 15 anos, posso afirmar com toda a certeza, e foi lá que me apercebi que tinha um bichinho dentro de mim querendo sair.. era música e só música.

Lá na zona do Bungo, aqui em Luanda, ia para a Samba. Todas as sextas-feiras ao morrer do dia e ao sábado em frente às barrocas, os sulanos iam lá dançar o chinganje, dança originária do sul. Eu não perdia isso... Eu só queria cantar e cantar, simplesmente cantar".

"O Sambizanga foi sempre um bairro mítico. Aproveitava-se o Carnaval para exteriorizar os sentimentos: Eu tinha o bicho dentro de mim, trabalhava na Textang e fundei os Ndikindus no seio dos operários da Textang". "Atuávamos naquelas famosas farras no salão Malanjino. Cantávamos temas relacionados com atos que aconteciam no quotidiano. E juntei-me ao grupo Ginásio.

Aqui alinhei-me ao JEDS, alcunha do nosso Presidente da República, José Eduardo dos Santos". Na voz do Santocas (cantor)
 "O meu começo, o meu antes, tem tudo a ver com Elias". Na voz do Bonga ( cantor ) "Para melhor nos relacionarmos com este grande expoente sociocultural musical de Angola, é fundamental não dar dicas, aprende-se com ele e tem-se nele a fidelidade à terra de origem".

Na voz do Professor Rui Mingas "Elias ao longo da sua vida tem sido uma pessoa com grande sensibilidade à música da nossa terra".

Na voz de José Carrasquinha (cantor) "Ele sozinho já construiu a sua áurea, cheia de dignidade e de valores". Na voz de Mamucueno (cantor ) "Ele é um homem, mas não diria um homem qualquer, porque para mim, o Elias tem um significado especial".
 Dimensão política

Na voz do próprio Elias "Yá kala Yá (um hino à liberdade). Apesar de não conseguir fazer parte das trincheiras, não abandonei os meus ideais nacionalistas, continuei a lutar o melhor que sabia fazer. Ei-lo através da minha música, utilizei a minha arma predileta, o nosso Kimbundu".

"Aproveitava-se o Carnaval para exteriorizar os sentimentos patrióticos. Fui preso juntamente com outros elementos, inclusive o meu irmão mais novo, o Chico Suíça. Fomos para a Casa de Reclusão e depois enviados para o campo de S. Nicolau".

Na voz da Sra Engenheira Albina Assis "O Elias e o seu Grupo formaram umas brigadas para responder a tudo isso. Nessa confusão, o Elias foi preso. Isso foi o cúmulo, por isso, a música" Góloia cua S. Nicolau".

De regresso de S. Nicolau, Elias afirma: "pisar a terra que nos viu nascer é doce e suave" "O respeito e a gratidão que sinto pelos homens que nos deram isso tudo hoje. Desde Zedú, o arquiteto da paz que nos resgatou, até essa juventude de hoje que pode cantar kuduro e gritar `Eu sou Muangolê'".

Na voz do Dr. Henrique Júnior (Governador da Província do Kuanza Norte)
"De regresso do S. Nicolau Elias lança "Yngulumba ya mindele", que mobiliza o povo e acaba com a aventura dos comerciantes nos bairros".

Dimensão espiritual e humanística.  Na voz do Elias "Na verdade é que eu nasci na Missão, conhecia todas essas pessoas que foram distribuídas para difundir a palavra de Deus pelas províncias".

Na voz de Pepetela (escritor) "Normalmente, as grandes pessoas não precisam de andar por aí a passear a sua grandeza e muito menos a propagandeá-la. Elias Dya Kimuezo é um poeta que canta como poucos... Ele canta e encanta-nos".

Na voz de Luis Rosa Lopes (escritor) " A honra e admiração que senti ao conhecê-lo, há quase quarenta anos, ainda hoje a sinto quando nos encontramos". Na voz do Dr. Henrique Júnior (Governador do Kwanza Norte) "Elias interpreta e retrata factos do quotidiano, a vida dos bairros de Luanda, a mensagem do conforto do ilho para a mãe angustiada, o grito lancinante do ilho que perde a mãe, a perda de um amigo".

Nota conclusiva

Para terminar, pensamos que um homem vale pela variedade de dimensões humanas que demonstra e realiza no meio social que o envolve. Elias soube interpretar e realizar, através da canção, as ansiedades do povo angolano, sobretudo, dos mais desfavorecidos.

Poderíamos descobrir outras dimensões de realização na obra de Elias na sociedade angolana.

Porém, dada a complexidade da natureza humana, as dimensões sociais, que acima citámos, são suficientes, para o Elias merecer o título de Rei da Canção Angolana que lhe foi dado no dia 11 de Novembro de 1995 pela UNAC.

Penso que isto é tudo quanto um Homem precisa. O resto, é como uma neblina que desaparece no horizonte.
Para a escritora Marta Santos, a minha palavra vai no sentido de lhe dar os mais calorosos parabéns porque, finalmente, repôs a coroa ao nosso Rei, para a eternidade.

Pois, esta memória vai longe, Tio Elias, muito longe mesmo, até onde, não sei.
As realizações humanas, enquanto humanas, são eternas e não precisam de palavras para serem reconhecidas.

Texto de apresentação do livro de Marta Santos, "Elias Dya Kimuezo: A Voz e o Percurso de um Povo", lançado no dia 29/06/2012 na sede da União dos Escritores Angolanos, em Luanda.

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