As transparências de Ondjaki

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O escritor Ondjaki, (termo umbundu que significa literalmente «aquele que enfrenta desafios» ou «guerreiro», na acepção comum da palavra), acaba de me proporcionar, como leitora, um enorme e agradável desafio, ao qual me submeto livremente, não sem alguma expectante inquietação.

A expectativa é grande: o romance Os Transparentes foi-me recomendado insistentemente por amigos cuja opinião muito valorizo, o escritor acaba de ser agraciado com mais um importante galardão, o prémio Saramago, e, finalmente, face à heterogeneidade da literatura angolana, confesso que me move sempre uma enorme curiosidade por este jovem escritor, cidadão do mundo e profundamente angolano, que vive actualmente no Rio de Janeiro.

O cenário principal de Os Transparentes é um microcosmos: num prédio degradado da Luanda actual movem-se várias personagens, algo grotescas, comoventes, figuras por vezes fantasmáticas, de uma profunda densidade psicológica, que se relacionam entre si e com os demais por intermédio de regras claras e divertidos códigos de conduta.

A linguagem das personagens é puramente caluanda, as situações são características de um contexto específico, as emoções são, porém, universais e intemporais. A cidade é também uma personagem marcante e inesquecível, pelas desconcertantes expectativas que gera, desde a saída do aeroporto, pela cumplicidade dos seus habitantes e pelo seu sentido de humor peculiar em meio às tragédias do dia-a-dia, às promessas e aos sonhos que embala, com a coragem discreta que só as mães professam.

As páginas esvoaçam diante de mim e devoro os diálogos magnificamente estruturados neste linguajar que reconhecemos, usando-o ou não, os que vivemos em Luanda.

O jargão, os bordões, as exclamações, os bocejos, os gestos, as atitudes e até os silêncios são tecidos e entrelaçam-se como numa minuciosa coreografia. Ignoro qual o impacto que pode ter para um falante de português, não angolano, pérolas como: «bom dia, sim» ou «o camarada ainda desculpe de perguntar, mas o senhor é quem então?», como são sentidas essas palavras e expressões que aos leitores angolanos fazem gargalhar, esboçar um sorriso cúmplice ou soltar uma lagriminha distraída.

Apesar de o livro incluir um glossário, há sensações que não podem ser descritas para quem nunca as viveu, como a cor do fogo, cuja descrição é insistentemente pedida pelo Cego, uma das mais ternurentas e sábias figuras de Os Transparentes…

Talvez os leitores se deixem levar apenas pelo instinto e consigam adentrar naquele cenário, tornando-se parte do estranho edifício com a sua falta de água corrente, os seus misteriosos e labirínticos recantos e os seus insólitos inquilinos, donos da sua própria vida muito mais do que da sua própria casa.

Imagino também as dificuldades e o desafio a que se entregam os tradutores da obra e as operações (sobretudo de adaptação, mas também de equivalência ou amplificação) a que recorrem, para transpor todas essas vivências e conduzir esse minúsculo pedaço do universo aos muitos cantos do mundo.

As «transparências» de Ondjaki não se esgotam, no entanto, nas personagens deste romance: elas passeiam- se displicentemente pelo seu imaginário, como na sua mais recente obra, Uma Escuridão Bonita, cujo título é, só por si, uma história digna de ser revelada.

Nesta escuridão bonita - e verdadeira - onde a presença de luz seria quase uma agressão à quietude dos silêncios, há espaço e tempo para partilhar afectos, histórias antigas, para desvendar outras transparências também, para ver muito para além daquilo que está vedado ao olhar, para sonhar.

Tenho para mim que os bons livros, aqueles que perduram na memória, exalam cheiro, som, imagem, para além de nos oferecerem o prazer táctil de sentir a sua textura; podemos arrumá-los, conhecer-lhes o peso e a forma, fotografar com o olhar um parágrafo intrigante e convidá-lo para os nossos sonos.

Os Transparentes pertence com certeza a esse grupo restrito mas sempre aberto e em constante evolução.

As suas personagens têm cheiro, suam, algumas têm mãos cuidadas e gravatas de seda, perfumes densos, respiram ar condicionado e transpiram whiskies caros sem hora marcada, todos têm sede e fome, desejo, ternura, ambições, frustrações e tragédias.

São coerentes, ainda que imprevisíveis, sonham, fraquejam, e prosseguem. São anti-heróis de dimensão humana, frágeis e invencíveis na sua autenticidade.

A ganância patética e desmedida de uns é equilibrada pela persistência e hombridade de outros, cuja maior ambição, alimentada a cada instante, é sobreviver e trabalhar com alguma dignidade, vencendo obstáculos pueris, tropeçando no calor pegajoso, na burocracia teimosa e sufocante, nos potentes lobbies, nos buracos da cidade e nas armadilhas da vida, pedindo apenas um copo de água gelada para continuar a sorrir.

Estas são as personagens com quem vocês irão conviver também e às quais cada um dará a cor com que se pintam os sonhos. São seres invisíveis, verdadeiramente transparentes, inaudíveis, nos quais tropeçamos na rotina atribulada e caótica do stress urbano, aqui no contexto angolano.

Dizia Saint Exupéry que «O essencial é invisível aos olhos» (in O Principezinho); também neste invulgar cenário de Luanda estas personagens cristalinas serão porventura invisíveis para os olhos, e por isso mesmo devem ser lidas com o coração.

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