As vogais numa língua bantu

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Diagrama das vogais numa língua bantu
Que mostra a posição de cada uma delas e deonde se deduz o seu valor ou significado posicional

As vogais numa língua bantu
Aldeia do Kwanza Sul Fotografia: Zelia Ferrreira

Hoje falaremos das vogais. Os linguistas ocidentais, com base no estudo das suas línguas, chegaram à conclusão de que “a unidade mínima comsignificado, na língua, é a palavra”. Com base num estudo aprofundado, chegamos à conclusão de que numa língua bantu,a sílaba e, até, a vogal têm significado. Na verdade, numa línguaderivada, directa ou indirectamente, do Indo-europeu, como é o caso da língua portuguesa, na palavra”casa”, por exemplo, “ca” não é nada e “sa” (lido “za”) nada é. Somente a palavra “casa”, como unidade lexical, na sua totalidade fonética e morfológica, tem significado. Não é isso que se passa com as palavras das nossas línguas.

Vamos prestar um esclarecimento básico mínimopara os leitores que não estejam familiarizados com a gramática das línguas bantu.

Uma palavra numa línguabantu, e vamos falar mais especificamente do substantivo, tem duas partes distintas, a que se chama morfemas. Um morfema contém a gramática, propriamente dita, e a outra contém o significado, tal como em qualquer outra língua do mundo. Usemos, para exemplo, a palavra portuguesa “casamento” e a palavra bantu, oriunda do português, “ukaza”, que têm o mesmo significado. Em “casamento (casa-mento), “casa” é a parte da palavra onde está o significado e designa-se “morfema lexical” e “mento” é a parte que contém ainformação gramatical. É o “morfema gramatical”. A informação principal que este último morfema nos dá é que a palavra “casamento” é um substantivo e, por estar no fimda palavra, este morfema é um sufixo. Se em vez de mento, a palavra levasse o sufixo “ar”, a informação principal que esse sufixo nos daria é que a palavra em questão seria um verbo. A palavra poderia ser analisada de outra forma e encontraríamos nela três morfemas (cas-a-mento), onde, o morfema lexical seria, apenas, “cas”. A vogal “a” (cas-a) seria, também, um morfema gramatical e esse morfema indica-nos que a palavra é do género feminino. De resto esta é que é a análise correcta.

No bantu, o morfema gramatical aparece, como regra, antes do morfema lexical, como podemos ver em “ukaza” (u-caza). É o morfema “u” que nos diz que a palavra “ukaza” é um substantivo, tal como “kima”: coisa (ki-ma), “dyala”: homem (di-a-la), “muhatu”: mulher (mu-hatu), em que “ki, di, mu” são morfemas gramaticais. Esse tipo de morfemas, no bantu, porque introduzem um substantivo, designa-se “prefixo nominal”. Há uma classe de substantivos que não tem prefixo nominal. Todos os substantivos que começam em consoante pré-nasal (nd, mb, mp,mv, nv, mf, nf, etc.) pertencem a essa classe: Nzambi, nzo (inzo), mbwa (imbwa), “ngombe”, “mbudi” (carneiro), etc.Existem alguns que não iniciam ecom consoante pré-nasal e que pertencem também a essa classe: “hoji” (leão), “henda” (sentimento, piedade, saudade), etc. O plural dos substantivos desta classe é feito com o prefixo “ji”: “jinzambi”: deuses (ji-nzambi), “jinzo”:casas (ji-nzo), “jimbwa”: cães (ji-mbwa), etc. Portanto, o morfema gramatical “ji”que se converte em “prefixo nominal, fornece-nos a informação que aquela palavra está no número plural. As palavras gerais das lb não têm “masculino/feminino”. (Fim de esclarecimento).

Asílaba e a vogal, nas línguas bantu, não têm, entretanto, um significado concebido em termos saussureanos. Para Saussure, o signo linguístico, termo com que eledesigna a palavra é “a união indissociável de um significante (nome) e um significado (ideia que se tem da coisa que o nome designa). A coisa que a palavra designa, ou seja, a coisa a que a palavra se referetoma o nome de referente. O referente da palavra cadeira é o objecto cadeira, ou seja, a cadeira “objecto”. Então, é na cadeira, objecto, que está localizado o significado da palavra cadeira. Olhamos para a cadeira, objecto, referente da palavra ou signo linguístico “cadeira” e entendemos intuitivamente que o significado da “palavra cadeira” é “objecto de uso doméstico, que serve para as pessoas se sentarem e que tem um encosto para apoiar as costas, conferindo maior comodidade a quem se senta”. Cada palavra tem, pois, um referente e é no referente, mas não só, que está localizado o significado da palavra. O significado da palavra está localizado, também, em parte, na maneira como a cultura do povo que fala a língua a que a palavra pertence “vê” o referente da palavra. Por exemplo, para o Bantu , o Sol é uma bola de fogo e é também considerado um deus. Então o nome ou palavra Sol, em muitas línguas bantu, é “Dikumbi”, em que a sílaba “ku” representa “fogo” e a sílaba “mbi” representa “espírito” e, nesse caso, “deus”. Isso mostra-nos que o significado da palavra, numa língua bantu, está sempre inscrito dentro da palavra, passe o pleonasmo. Por outro lado, mostra-nos também que o significado tem a ver não só com a sua realidade objectiva, mas tambémcom aspectos que estão fora da realidade objectiva - visual ou outra - do referente.
Quando não conhecemos o referente da palavra, vamos consultar o dicionário para conhecermos o seu significado. Acontecerá isso com a palavra “óvni” se eu não souber o que é um “óvni”. Irei consultar um dicionário para ver o significado da palavra “óvni”.
A sílaba e a vogalda palavra de uma lb, conquanto, para nós, tenham significado, não têm, porém, um referente determinado,onde esteja localizado o seu significado ou…têm muitos referentes. Na verdade,o significado da palavra cadeira está localizado no objecto cadeira. Porém, o significado da sílaba “lu”, como “alto”, da palavra “kyalu”, cadeira, não tem um referente único, individualizado, que permitaidentificá-lo.Mas está disperso em várias palavras, que subentendem outros tantos referentes, que permitem, de qualquer modo, a sua localização e identificação.A sílaba “lu” está presente nas palavras “bulu” (bu-lu), em cima, “dyulu” (di-u-lu), céu, “mulundu” (mu-lu-ndu), monte, “Ngulungu” (ngu-lu-ngu), Golungo Alto e em todas as outras palavras, da mesma língua, que inserem esta sílaba, com esse significado..
Veja-se, na palavra “dyulu” (di-u-lu), céu, a ocorrência, simultânea, de “u” e “lu”, a vogal e a sílaba que representam o conceito de “alto”. A sílaba “lu” só tem esse significado porque insere a vogal “u”, pois é esta que, em primeira instância, representa esse valor, uma vez que é o seu significado posicional. As duas unidades, de diferente nível fonético – fonema e sílaba - mas com o mesmo significado, ocorrem na mesma palavra para sinalizar que “dyulu” (di-u-lu), céu, é o lugar mais alto que existe.
A Toponímia, enquanto ciência ou disciplina que estuda a atribuição de nome aos lugares, é reveladora, com relação ao valor semântico das sílabas e das vogais e podemos vera relação existente entre a vogal “u” e a sílaba “lu” nessa disciplina, que lida com cerca de quarenta unidades (sílabas e vogais), para nós, à luz deste trabalho, fono-semânticas, numa lb. Os topónimos “ Uganda, Wambu, Wila, Kalulu, Ngulungu, Lubangu”, que inserem a vogal “u” ou a sílaba “lu”, citamos apenas estes para evitar a apresentação de uma lista exaustiva, servem bem para ajudar a proceder a um exercício de análise e reflexão sobre o valor semântico das sílabas e das vogais, com destaque, neste caso, para a vogal “u” e a sílaba “lu”, sabendo, como sabemos, do valor desses lugares do ponto de vista de altitude.
Como que para tornar estes factos linguísticos mais complexos e menos lineares, acontece que, tanto a sílaba como a vogal, nessas línguas, podem ser detentoras de dois, três, quatro ou mais significados. A sílaba pode ter um significado em palavras do ramo da economia e disciplinas afins, pode ter outro significado em palavras do ramo da psicologia e ramos afins e assim por diante. É o caso da sílaba “ngu”, que tem um significado em economia, onde representa “riqueza”: “Mbengu” (Bengo), “Lubangu” (Lubango), “Ngulungu” (Golungo), “Waku Kungu” (Wako Kungo), “mungwa” (mu-ngu-a) (sal), “kidingu” (mandioca), “nguba” (jinguba), “ndungu” (jindungo), etc., que são lugares de riqueza agrícola, pecuária ou agro-pecuária, uns, e produtos alimentares estratégicos, outros. Em filosofia, representa “ignorância, desconhecimento, aquilo que se desconhece: “mungu” (amanhâ) (ninguém conhece o amanhã), “nguma” (inimigo) (“ninguém conhece o coração do inimigo”, diz o Bantu) e representa anti-sociabilidade, em psicologia e sociologia: “kingulungumba” (anti-social, marginal), “ngulu” (porco) (o porco é um animal tremendamente “anti-social”, diríamos antes “antipático”). É evidente que na palavra “ngutu” (colher), a sílaba “ngu” não aparece com nenhum daqueles significados. Portanto, seria mais um significado a acrescentar à lista de significados da sílaba “ngu”, pois essa sílaba, com esse significado, não aparecerá somente em “ngutu”, mas em uma série de outras palavras.
A língua, no seu aspecto dinâmico, é o instrumento privilegiado de comunicação entre pessoas. Na base, a língua, um tipo de linguagem que se realiza pelo uso da palavra, sendo esta, a palavra, umaimbricação de estrutura morfológica e estrutura semântica ou significado, ela, a língua,é uma forma de representação do mundo físico e espiritual, por um lado, e da vida, por outro lado.Nesta fase ela é apenas a palavra criada, feita de estrutura morfológica associada a um significado e é este ser “híbrido” que dá nome às coisas. Antes de haver comunicação, e, para haver comunicação, temos que conhecer esta entidade, a palavra criada e, a este nível, conhecer a palavra significa conhecer o seu significado. A utilização desse ser, dessa entidade,a palavra criada, isto é, a sua realização fonológica consciente, a fala,a conversão da palavra criada em som com significado é que é a comunicação – é a palavra falada, porque quem fala, fala para alguém e diz algo. Comunica.E há comunicação porque o interlocutor conhece o significado do som ou “imagem acústica”, na terminologia de Saussure,das palavras que eu falo.
A fala transforma a unidade morfológica, na verdade, morfo-sintáctica, que é a palavra, a palavra criada, como lhe estamos chamando aqui, em comunicação. Mas a fala não transforma a palavra em comunicação por ser uma unidade morfológica,e sim, por ser uma unidade semântica (morfo-semântica), isto é, uma unidade portadora de significado. Porém, o entendimento claro e profundo da entidade semântica, que é a palavra, fica obliterado pelo facto de a palavra se apresentar como uma totalidade. Ainda que se já tenha entendido que numa palavra, principalmente nas palavras das lb, mas não só, existe uma parte gramatical, o morfema gramatical, e outra onde reside o significado, o chamado “lexema” ou morfema lexical, ainda há uma resistência em ver-se esse lexema como algodivisível semanticamente. Para nós, numa palavra bantu, e estamos convencidos que o mesmo ocorre em qualquer outra língua, a semântica não começa e acaba no lexema como totalidade indivisível. Acaba no lexema, mas não começa no lexema. A semântica, na palavra duma lb, começa, verdadeiramente, no princípio da palavra - no fonema – nos elementos constituintes da sílaba (consoante e vogal), sendo que a vogal tem um tipo de significado (aquilo que, verdadeiramente chamamos significado,ressalvado o já analisado problema do referente) e a consoante tem um significado de outro tipo, a que preferimos referir, apenas, como valor.
Quando Deus disse a Adão para dar nome às coisas, segundo a Bíblia, acho que Adão não agiu como um louco ou um mágico, desprovido de critérios e fechou os olhos e começou a dar nome às coisas. Como é que Adão terá dado nome à chuva, por exemplo, se, por acaso, já havia chuva, naquele tempo primordial? Ele não lhe terá chamado apenas águaou não terá chamado imediatamente “chuva”, sem qualquer exercício analítico prévio. Depois de alguma análise e reflexão, ter-lhe-á chamado “água do céu”, por exemplo. “Do céu”, para não haver confusão com as outras águas.É lógico pressupor que, antes de criar a palavra para “chuva,” já havia criado a palavra para “água”. A palavra água, já criada, não continha, por certo, um só sema, como “para beber” ou “bebida”. Era preciso desambiguá-la, porque haveria outros líquidos para se beber, tais como sumo de frutas ou leite de mamíferos. Cada um desses elementos de desambiguação seria representada por um elemento semântico na palavra, que se estava a criar. Esse elemento semântico, dentro de uma palavra, teria que ser uma sílaba. Ao criar a palavra chuva, Adão não utilizou, por cero, a totalidade da palavra água, mas, apenas a sílaba, dessa palavra, portadora do significado, que, para ele, era o mais representativa, para entrar na formação da palavra para designar o referente “chuva”. Era isso que eu faria se eu fosse Adão. Porém o Linguista bantu, que já andava num mundo cheio de conhecimento, diferentemente de Adão, encontrou uma outra metodologia de trabalho e criou uma palavra, para designar ou servir de nome à coisa etambém criou uma sílaba, para servir de código para cada classe de coisas e para certas coisas específicas, individualmente consideradas. É assim que para “fogo” criou a palavra “tubya”, mas criou, também, a sílaba “ku”, para servir como código para “fogo”. Assim, quando o Linguista bantu quis formar palavras conotadas com “fogo” não usoua palavra “tubya”, usou a sílaba ou código “ku”: Dikumbi (Sol), jiku (fogareiro), ku sekuka (ferver) ku kukuta (secar), etc.

Quando falo com alguém, o meu interlocutor capta a minha mensagem porque cada palavra do meu enunciado tem um significadoque ele conhece e conhece-omediante a palavra total. É evidente que se eu falar por palavras incompletas, o meu interlocutor não capta aminha mensagem, porque cada parte da palavra contém, não só, uma parte da parte morfológica da palavra, mas também, uma parte do significado dela. Esta é a palavra falada. Na verdade, a palavra criada, que eu uso,conscientemente, transformando-a em palavra falada, não foi criada como totalidade.
A palavra falada só é passível de ser entendida como totalidade, mas a palavra criada não é criada, imediatamente, como totalidade. Na verdade a palavra,como unidade morfo-semântica ou, mesmo, somente, como unidade morfológica, tanto como, somente, como unidade semântica é sempre uma unidade em sua totalidade. Mas a totalidade é sempre uma soma de partes, tal como o complexo é sempre o resultado da organização de constituintes menos complexos.Daí, resulta que, a realidade semântica do lexema é uma construção semântica feita de partes semânticas menores e essas partes semânticas menores são as sílabas.A sílaba,por sua vez, é uma construção semântica(quer se queira, quer não) que tem, como elementos constituintes, os fonemas (vogal e consoante), os quais são também portadores de significado, nos termos que já referimos e são, também, esses mesmos elementos, os fonemas (vogal e consoante), que são os materiais de construção do morfema, tanto do gramatical como do lexical. A palavra de uma lb, mesmo apenas na sua parte lexical,aquela que tem o significado,a menos que a parte lexical da palavra tenha apenas uma sílaba, como a palavra “ngo” (só) não é umaentidade indivisível, mas uma construção semântica, ou seja, uma construção de partes semânticas independentes, que podem ser associadas de outra forma e formar outras palavras.Com as mesmas sílabas de “njila” (nji-la), palavra que não tem morfema gramatical, no singular,(é tudo morfema lexical), e que significa “ave, pássaro” forma-se, com outrosignificado de uma das sílabas, a sílaba “la”, que deixa de ter o seu significado de “adorno”, referido às asas, e passa a ter um seu outro significado, que é “lugar” e apalavra “njila” converte-se numa outra palavra a palavra epassa a significar “caminho”. A estrutura morfológica da palavra não se alterou. O que se alterou foi, apenas, a estrutura semântica da palavra, porquanto houve uma mudança no significado de uma das suas sílabas. Com a mesma palavra “njila” que significa “caminho”e com as mesmas sílabas com o mesmo significado que têm na palavra “njila”(caminho),juntando-se-lhe o prefixo “ma”, forma-se a palavra “Malanji”.Com excepção do acréscimo da sílaba “ma”, para formar “Malanji”, é tudo, somente, construções (e reconstruções) semânticas. A mudança de posição das sílabas não altera nada, porquanto cada sílaba, ao mudar de posição (njila/lanji) continua com o seu significado.
Sabendo que, numa palavra, todas as sílabas têm significado, as vogais, quando entram na palavra como sílaba (kyalu: ki-a-lu – cadeira; njimboa: nji-mbo-a; Wiji: u-i-ji), têm, também, significado.
Deixando de parte a consoante, de que falaremos um outro dia, as vogais - a, e, i, o, u–(todos esses sons) já representam algo, numa lb e, na verdade, cada um deles representa, já, mais que uma coisa, ou seja, cada um desses sons tem mais que um significado.
Assim, as vogais representam – servem para representar – tal como podemos ver no diagrama das vogais, acima apresentado, em primeiro lugar, posições:
a: base; e: para a frente; i: em baixo; o: para baixo; u: em cima
É importante verificar que, nesse diagrama, não há nenhuma vogal que represente a posição, ou movimento, “para cima”, posto que a vogal “u” apenas representa “em cima”. Também não há qualquer vogal para representar a posição, ou movimento, “para trás”. Seria uma boa simetria se a vogal“o” representasse “para trás”, em oposição a “e” que representa “para frente”. Mas assim não é.
A razão de ser dessas aparentes omissões, que, na verdade, não são omissões, é que esses sinais, as vogais, são uma representação do mundo, melhor, são elementos linguísticos, que ajudam a representar linguisticamente (ou seja, com elementos sonoros codificados que saem da boca do homem) o mundo, no aspecto de movimentos e forças cósmicas e da vida. Para o Bantu, nem o mundo nem a vida andam para trás. O fenómeno da gravidade, que ocorre no planeta por acção de uma força a que se dá o nome de força da gravidade, ocorre também na vida das pessoas. Quando em português, nos momentos em que a nossa vida está mal, usamos expressões como“andar para trás”, o Bantu usa expressões com emprego do verbo cair, “ir para baixo”e não “andar para trás” (“ngai ndingi boxi, kitadi kiyatundwe”: fui para baixo, outra vez, nem o dinheiro que investi apareceu – diz-se, em kimbundu). Em português, dir-se-ia, por exemplo, “dei um marcha atrás”. Por isso, não há vogal que represente esse movimento. Navida, o cair, ir “para baixo”,vale também para referir o “para trás”.
Acontece com o movimento “para cima” situação semelhante com o que ocorre com “para trás”. Não se sobe por inércia, a não ser no movimento aparente do Sol, por exemlo, que como sabemos é aparente, mas isso ficaria explicado com o facto de o Sol ser um deus. Assim, “nda”, que é a sílaba e código para “movimento”e origina os verbos de movimento “kwenda” (andar) e “ku tunda”(sair), para originar o verbo “subir”, movimento que requer força, exige o concurso da sílaba “ba”, que representa “força” e dz-se, em kimbundu, “ku banda”.

O papel do significado da vogal no significado da sílaba

O significado da vogal pode impor-se e determinar o significado da sílabaou podeficarofuscado, no caso de a consoante com a qual a vogal vai formar sílaba ter grande valor “semântico”. O valor de uma consoante depende das suas características do ponto de vista de “modo de produção, ponto de articulação e sonoridade”. Uma consoante de características “fortes”, como “mb, b, m” impõe o seu valornas sílabas em que participa. A consoante “l”, por exemplo, é um fonema que, as sílabas em que participa, têm o significado da vogal. Deste modo,“la” significa “lugar”,porque o significado posicional de “a”é “base”. Asílaba “le” tem como um dos seus significados“para frente”,pois esse é um dos significados da vogal “e”. A sílaba “lo” significa “para baixo”, pois esse é um dos significados da vogal “o”. A sílaba “lu” significa “em cima” pois esse é um dos significados da vogal “u”. Como vemos, em todos esses casos, o significado da sílaba é, somente, o significado da vogal.Omitimos a sílaba “li” pois essa sílaba não existe na língua kimbundu – língua de base da nossa investigação.
A vogal “o” impõe ainda o seu significado, de “redondo, circular, esférico”, à consoante “k”, ao formar a sílaba “ko”, pois esta sílaba significa igualmente “redondo, circular, esférico”
A vogal “i”, no seu significado de “em baixo”, impõe-se àconsoante “x” ao formar com ela a sílaba “xi”, com esse mesmo significado. Vejamos alguns exemplos, para comprovação.

A vogal “o”, na sílaba “lo”,
como significado de “para baixo”

“Ngoloxi” (ngo-lo-xii) (tarde) é o período do dia em que o Sol desce (lo) do zénite até a linha do horizonte. Nesta palavra, o Sol é representado pela sílaba “ngo” que significa “felino (leopardo, tigre) (ngo/ingo)”, pois é isso que o Sol é no princípio da tarde (implacável) e a linha do horizonteé representado pela sílaba “xi”, que representa “terra”.
Encontramos, ainda, “lo” no verbo “ku loa”, enfeitiçar, pois, “ku loa” (enfeitiçar) é fazer baixar o mais possível o nível de vida da pessoa visada, em termos de saúde, finançase em todos osoutros aspectos e, se necessário e possível, causar-lhe a morte, que é o nível mais baixo possível.

O significado posicional da vogal “o”

O significado posicional da vogal “o” é “para baixo”

A vogal “o” como significado
de círculo, na sílaba “ko”

Encontramo-la, entre outras, na palavra “kikonda” (ki-ko-nda), cerco, em que “ko” representa“círculo e “nda” movimento.

A vogal”o”, na sílaba “ko”,
como esférico

A palavra emblemática, para exemplificar este facto é “dikoko” (di-ko-ko), coco, em que um “ko” representa a esfera de dentro, aquela que se come e o outro “ko” representa a parte dura, que protege a que se come.

A vogal “o”, com o significado
de “para baixo, na sílaba “no”

“Ku sonona” (so-no-na), desprender-se e “ku sonoka” (so-no-ka), cair, dispensam comentário.

A vogal “a”

Colocada no centro posicional das vogais, a vogal “a” tem como significado “base” ou “lugar” e ela assume esse significado, particularmente com a consoante “l”, formando a sílaba “la” que, também, significa “lugar”. Esta sílaba é bastante utilizada em Toponímia, uma vez que esta é a ciência do nome dos lugares: sanzala, (m)bwala, (N)duala (Douala, Camarões), Nampula (Moçambique),, Kampala (Uganda), Ndola (Zâmbia),(M)bulawayo (Zimbabwe), Mbangela (Benguela), Malanje, Kibala, Ndala Tandu, Kalandula, etc. ou seja, topónimos e palavras que ddesignam categorias administrativas como sanzala, mbwala e “-mbala”, base nominal da qual deriva o topónimo Kibala.
A queda do som nasal (m, n), antes de consoante oral, desfazendo a pré-nasalação (mb, nd, mp, mf, nf, etc) deve-se a dois factores. Um é na passagem do da palavra bantu á indo-europeia, em que esse som cai, porque o indo-europeu não tem consoantes pré-nasais. Acontece na passagem de “Ngulungu” para “Golungo” e, eventualmente “Nduala/Douala” (lido “duala”) e “Mbulawwaiu/Bulawaio”. Outro é um fenómeno estético (Estilística) dentro da própria lb. Um tratamento estilístico de natureza fonológica dado a uma palavra para evitar o excesso de nasalação dentro dela.
Além desse significado, a vogal “a” tem outros significados que derivam da sua posição, no centro das posições das vogais (diagrama das vogais, do que derivam, até, valores matemáticos. Ela está situada na intercessão do eixo horizontal com o eixo vertical.

u (+)

o (-) (+) a (-) e (+)

i (-)
Em que:
“u” é mais (+) no eixo vertical
“e” é mais (+) no eixo horizontal
“i” é menos (-) no eixo vertical
“o” é menos (-) no eixo horizontal
“a” é (+-) no eixo vertical e (-+) no eixo horizontal

Em teoria, todas essas posições e pressuposições são traduzidas ou representadas em significados correspondentes. No caso da vogal “a”, temos, para ela, dois significados, de certa forma, opostos. No caso em que ela representa +- ela é positiva e significa “não só, mas também” e, no caso em que é -+ ela é negativa e significa “não tanto”. Vejamos:
Nduala (capital dos Camarões), Luanda, kyalu (cadeira), lukwa ku (mão)
Em “Nduala”, “ndu”é o código para um lugar que pode ter a extensão de uma região, mas, tratando-se de um município, esse lugar não é tão grande assim e não é, propriamente, um “ndu”. Então, para diminuir a extensão desse código (ndu), antepõe-se-lhe ou pospõe-se-lhe a vogal “a” com o significado de “não tanto”.
Em Luanda, “lu” significa “alto” e representa “monte”, mas oque há em Luanda não são montes, são morros, apenas. Entãopospõe-se-lhe a vogal “a”, com o significado de “não tanto” e o novo código “lua” (lwa), já não representa “monte”, mas “morro, colina”
Em “kyalu” (cadeira), o código “lu” indica que “kyalu” é um assento “alto”, mas a vogal “a”, antepõe-se à sílaba “lu” para indicar que “kyalu”,cadeira, só é um assento alto com relação aos outros assentos (alto, mas não tanto): ngandu (luando), dixisa (esteira)e “kibaka” (kibhaka)(banco).
Em “lukwaku”(-ku-a-ku)(mão) existem três sílabas lexicais. A primeira sílaba, “lu”, é o morfema gramatical. Existem duas sílabas “ku”, com significado diferente, cada uma. A primeira tem a ver com segurar (do verbo “ku kwata” (ku-a-ta). A segunda representa “órgão ou parte do corpo”, como em “dikunda” (costas) e “ditaku” (nádega) A vogal “a”, nesta palavra, tem a ver com a primeira sílaba “ku” e ela está lá para indicar que esse órgão ou parte do corpo não tem como única função “segurar”. Tem como função “não só” segurar, “mas também” outras – “não só, mas também”.
A vogal “a” joga um grande papel na formação das palavras numa lb. Uma palavra apresenta sempre alguns traços do seu referente. Ela não pode apresentá-los todos. Então, apresenta apenas aquele ou aqueles poucos que sob determinado ponto de vista são os mais representativos, sob pena de a palavra ter uma extensão exagerada. Uma das funções da vogal “a”, enquanto código, é representar todos os outros dados do referente que não estão representados na palavra, com o significado de “não só” (os dados do referente são estes que estão representados na palavra, mas “não só” estes.. Ela tem pois, uma função de economia na genética das palavras que integra.

A vogal “i”
A vogal “i”, com o seu significado posicional de “em baixo”

A vogal “i” impõe o seu significado posicional, à consoante “x” formando com ela a sílaba “xi”, com o mesmo significado, como podemos ver na palavra “boxi” (bu-o-xi) que significa, também, apenas, “em baixo” em oposição e à semelhança da vogal “u”, com a consoante “l” na sílaba “lu”, ao integrar a sílaba “lu” e formar a palavra “bulu”, com o significado de “em cima” que é o significado posicional da vogal “u” e um dos significados da sílaba “lu”, em oposição a “xi” e “boxi”.

Outros significados da vogal “i”

Outro significado mais visível e por nós conhecido da vogal “i”, posto que a nossa investigação continua, é “som”. . Vejamos algumas palavras que inserem “i” como sílaba e conotadas com o conceito de som:
“Dizwi” (di-zu-i),” voz,, pequeno barulho ou ruído, som” em que “zu” representa “onda” e “i” representa “som”, o que nos explica que “voz” ou “som” são ondas. No caso de “voz”, trata-se de ondas de som..

“Ditui” (di-tu-i) ouvido (e, também, orelha)
“Ku ivwa” (i-vu-a), ouvir
“Ku ixana” (i-xa-na), chamar
“Ku ibula” (i-bu-la): perguntar
“Ku tambwijila” (ta-mbu-i-ji-la)

Em todos os verbos desta lista, a realização da acção é materializada mediante som e em todos os substantivos, o som está, igualmente, implicado. O chamar e o responder podem ser feitos por gestos, anulando, assim, a necessidade do som. Talvez seja por isso que existem duas versões para esses dois verbos. Uma com inclusão da vogal “i” – “ku ixana” (i-xa-na) – para quando se chama usando som. Outra para quando se chama por gesto – “ku xana” (xa-na). O mesmo acontece com o verbo responder, em kimbundu: “ku tambwijila”, com “i”, e “ku tambujila, sem “i”.

A vogal “e”, com o significado de “para frente”

Encontramos a vogal “e” comeste significado na palavra “dyeji”, lua, referindo-se ao movimento que este astro tem, em oposição ao movimento aparente do Sol, que é “para cima”, do nascer do Sol até ao meio dia, em que se situa no zénite e “para baixo” (lo), do meio dia ao pôr-do-sol, fazendo que “tarde” (período da tarde) se diga, em kimbundu “ngoloxi” (ngo-lo-xi).

A vogal”e” na sílaba “le”

Encontramos esta situação, também, no verbo “kwenda” (-e-nda). Quem anda, anda para frente. A sílaba “nda” representa “movimento”. “kwenda”, andar, é, pois, um movimento que se faz “para frente”.

A vogal “e” como “mais valia”

A vogal “e” significa, ainda, “mais valia “. Podemos ver este significado no verbo “ku zwela” (falar). “zu”, como já vimos em “dizwi”,(voz,barulho, ruído, som) representa “onda”. “Zu”, seguido de “e” em “ku zwela”, significa que é no falar que as ondas, ondas sonoras, têm o mais alto significado. O Bantu admite a existência de ondas de som, de cheiro, de calor, etc. Então, as ondas - de som - implicadas na fala são as mais valiosas das ondas.

A vogal “ e ”, como progresso

A vogal “e” representa, também, progresso. Podemos encontrar “e” com este significado no topónimo “Zimbabwe” (zi-mba-(m)bu-e), em que “mbu” (escondido, oculto)representa a forma como cada povo se esconde, se protege, dos seus inimigos ou predadores – outros povos ou animais - (mumbundu, umbundu, ndembu, kimbu, Kalumbu, Zimba(mbu)e, etc”. A forma de protecção do lugar a que foi dado o nome de “Zimbabwe”, com muralhas, foi considerado como progresso ou, mesmo, como mais valia.

Outros significados da vogal “e”

Todos os significados da vogal “e”, que conhecemos, com consoantes, se inscrevem na sílaba “le”, isto é, com a consoante “l” . É claro que a vogal”e” ocorre e faz sílaba com outras consoantes, porém, com essas, ela não impõe o seu significado. Quanto aos outros significados da vogal “e”, um deles é “o passar, aquilo que passa”. Encontramos esse significado em “mulenge” (mu-le-nge) ventoe em “ku lenga” (correr, fugir) e até em “mulele” (pano), referido-se ao esvoaçar do pano, à medida que o vento (mulenge) passa por ele.

A vogal”e” como “passado, aquilo que passou”

A sílaba “le” significa, ainda, “o passado, aqilo que passou”. Como “passado”, encontramos “le” no pretérito mais-que perfeito dos verbos, em kimbundu: “kwenda”:” ngendele” (eu tinha ido), “ku zwela”: “ngazwelele” (eu tinha falado, “ku banga”: “ngabangele (eu tinha feito), etc.
Encontramos “le”, ainda com o significado de “aquilo que passou” em “mbalale” (mba-la-le)(cemitério), em que “mba” representa “reino animal: pessoas e animais”, “la” representa “lugar” e “le” representa “que passaram, ou seja, “mbalale”, cemitério, é o lugar das pessoas que já passaram, isto é, que já faleceram.

A vogal “u”, seu significado posicional

O significado posicional da vogal “u” é “alto, no alto, em cima”. Tal como acontece com as demais vogais, “u” impõe o seu significado posicional à consoante “l” na sílaba “lu” que conformam, a qual sílaba significa, assim, também, “alto, no alto, em cima”, como vemos nas palavras “ bulu (em cima), dyulu (céu), mulundu (monte), etc.” e nos topónimos já referenciados (Uganda, Uambu, Uila), entre outras palavras.

A sílaba “lu”, com o significado de “mau, mal, o mal”.

A sílaba “lu” tem, ainda, um outro significado que é “mau, o mal”, que não sabemos ainda se esse valor se deve à vogal “u” ou à consoante “l”.Podemos ver esse significado da sílaba na palavra “lumbi/lwimbi” (lu-i-mbi), inveja : “mbi” (sentimento), “i” (baixo) e “lu” (mau), “ku lumata” (morder), “mukalu” (repreensão), etc. Nesta última palavra, ao “mukalu”, repreensão, não é ,em si, o mal. Omal (lu) é aquilo que o “mukalu” considera negativo (ka) e visa corrigir.

(ndambi.sanza@gmal.com)


  ADÉRITO MIRANDA


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