Bob Dylan, o nobel e nós

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O indício do prémio que hoje admiramos já vinha desde a atribuição do Pullitzer, em 2008.

Bob Dylan, o nobel e nós
Bob Dylan

Dentre as muitas razões, sejam elas políticas, culturais, financeiras ou raciais, que justifiquem que um artista ganhe um Nobel, poucas nos dariam a entender que um compositor, letrista, actor e intérprete americano se sobreporia àqueles que conhecemos bem e respeitamos pelo ofício
de escritor. Facto: Bob Dylan é o Prémio Nobel de Literatura 2016. Aceitemos. Para nós, africanos, devido aos vários problemas conjunturais que aqui vivenciamos, é nos fácil digerir, porque estamos habituados a ver no topo a excelência das artes americanas pelos pacotes televisivos que
pagamos para ver o que de bom e melhor a América e Europa produzem, da música pop lasciva, do rock electrizante ao folk mais contemplativo americano, ou da balada dançante latina às românticas casamenteiras. Neste capítulo, não nos sobram dúvidas de que o country, o folk e rock
americanos (Estados Unidos e Inglaterra), tiveram uma contribuição significativamente forte de Dylan para a modernização destes géneros, dando-lhes outras maneiras de os compor. E se era o que faltava à preponderante América, a existência de um artista único, tento conseguido. É o artista com o mais bem apetrechado currículo à face da terra. O indício do prémio que hoje admiramos já vinha desde a atribuição do Pullitzer, em 2008, justificado por possuir “composições líricas de força poética extraordinária”. O passado dia 13 deste Outubro, uma quinta-feira, fica marcado
como o dia em que se concretizam as possibilidades de um artista músico competir a máxima fatia de honra até então atribuída apenas a escritores. Bob Dylan é mais do que um artista de destino repleto de bonanças, é um poeta, porque é assim que vence o Nobel: como poeta, e não como
músico. Jamais como músico. Justifica a academia que ganha “por ter criado novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana”. Dylan teria antes ganho mais de uma dezena de Grammy, um Óscar e um Globo de Ouro. Soberbo.
Analisemos: teríamos antes visto Dylan apenas como grande poeta? Ou seja, Dylan, convenhamos, é um grande poeta? Quem o ouve apercebe-se de que é um grande músico, de dotes literários acima da média. Saíram da sua cabeça de génio musical letras de versos com profundos rasgos de
consistência poética. Isso é indiscutível. Mas transformar isso num trabalho de poeta merecedor do Nobel, é forçar-nos a deixar de imaginar o rigor e seriedade que esta academia até então ditava. Ou, a assentar na especulação por si formulada e oficializada: a academia fez de Dylan um
poeta completo. A ver, esta intenção faznos acreditar que, usando do seu poder e prémio, a academia sueca fez o seu poeta, e, dentre os músicos dotados de literariedade na escrita, Dylan foi o escolhido a encarnar tal personagem. Assim, reformulamos: será Dylan uma vítima da academia sueca? Porque, até onde sabemos, ninguém exige ser o justo merecedor de um Nobel, é a própria academia que anuncia como vencedor o fulano ou o sicrano. Espera-se ganhar, e pronto. E nessa lista, há anos que existem vários escritores de mão cheia à espera, tanto que a Língua Portuguesa até hoje só foi contemplada uma vez: José Saramago, pelo conjunto da sua obra.
A imprensa dividida e as notícias do sim e não a Dylan não param de preencher páginas e mais páginas de jornais. Mas o que disse Dylan? Pela ternura, posições política e sensatez espelhadas nas suas letras, decerto que, tarde ou cedo, tecerá alguma opinião a respeito de ser o Nobel. Mas faz mais ou menos uma semana e o silêncio de Dylan deixa o mundo a cogitar. A academia sueca já veio a público confirmar que Dylan não atende à comunicação que tentam estabelecer. Já fez um show neste intervalo de dias e nem uma só palavra de pronunciamento sobre a sua nova condição de Nobel. Está a habituar-se, a digerir aos bocadinhos a novidade, ou está impotente e chocado como meio mundo literário está? Talvez.
Diz certa imprensa estrangeira que esta atribuição carrega como um dos lados bons um olhar generalizado a todas as formas poéticas existentes, dando também valor à canção, que há muito é tida como um género inteiramente virado à música, relevando também a importância da tradição oral, de onde Bob Dylan bebe muito, enquanto cultivador do folk puro.
Tudo isso não deixa de ter a sua importância. Mas desassociar a música da poesia de Dylan, não é a mesma coisa. São letras, embora possuidoras de alto valor literário, escritas para serem cantadas. É uma obra conjunta e única. Dissociá-la é abrir a possibilidade de empobrecê-la e dividir um dos artistas mais homogéneos e universais da História da Arte. E o hibridismo despoletado nos leva a interrogar: veremos Dylan daqui para frente, desde 13 de Outubro de 2016, quando já conta com 75 anos de vida e toda uma brilhante carreira como músico, como melhor poeta que músico, a ser galardoado com o badalado e sonhado Nobel da Literatura? Certamente que Dylan não aceitaria tal embaraço.

AQUI ENTRE NÓS

O que dizermos do nosso queniano
Ngugi wa Thiong’o?
Se é ou não ultrajante para o nosso escritor queniano Ngugi wa Thiong’o , que viu o prémio indicado como potencial merecedor ir parar às mãos de um artista americano que ninguém contava como escritor com pujança para Nobel, é caso para imputarmos as possíveis responsabilidades morais à academia sueca. Mas a imprensa nada ou pouco fez a respeito, silenciando o escritor africano que há anos está à altura de ser um Nobel, também pela sua carreira literária afincada nos ideais independentistas e direitos humanos africanos. O queniano é uma figura presente na considerada rasa lista de autores africanos merecedores do Nobel, para não falar que seria mais uma voz e uma obra em defesa das particularidades da construção modelar do romance africano, ainda por se afirmar diante de tantas opções do protótipo romance europeu. Porque não restam dúvidas que é muito mais fácil os prémios recaírem sobre autores europeus e americanos, que têm maior circulação do livro e crítica literária instituída e menos problemas que nós, fora os prémios de maior relevo serem de organizações por eles dirigida, e assim decidirem a quem quiserem dar, ignorando que opinião adversa poderia surgir.
Um pouco mais para o nosso lado, recebemos esta notícia num momento em que a música angolana também deve ser objecto de reflexão, principalmente sobre a responsabilidade moral e estilística que os letristas devem garantir. A última edição do nosso Top dos Mais Queridos pode ser um exemplo para medirmos como estamos em termos de letras, e se há de facto qualidade suportável para garantir que possam também serem alvos de homenagens e de ovações grandíloquas. A mais querida desta última edição foi a Ary, com o sucesso “Papa Fugiu”, um tema inusitado trazido em tom satírico. Em segundo lugar ficou o grupo Elenco da Paz com a música “Arroz com Feijão”, que é um kuduro tão kuduro: de crueza rude e uma lógica indescritível, e Cef, com a música “Atrofia”, que é um R&B que segue as mesmices nos dizeres da letra e cuja recepção está inteiramente depende do resultado imagético do vídeo, que em muitos casos diz mais que a própria letra da música. Ficou em terceiro lugar. As três não fazem jus ao legado da nossa tradição oral. Desafiemo-nos a colocar qualquer das três músicas em papel e tentar compreender o seu sentido literário. Claro está que o resultado poderia ser bizarro.
A seguir o raciocínio da academia sueca, esperamos que na próxima edição do Prémio Nacional de Cultura e Artes, ou mesmo o Prémio Camões, o júri decida atribuir o prémio da categoria de literatura à dupla Mukenga e Zau, porque a reclamada força poética não lhes falta nas letras que escrevem.

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