Breve apontamento sobre " Nelson Aragão" o novo romance de Hendrick Vaal Neto

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“Nelson Aragão-Baseado em factos reais” é o romance de Hendrick Vaal Neto lançado no dia 28 de Setembro, inserido no programa “Maka à quarta-feira” da União dos Escritores Angolanos.

Breve apontamento sobre
Livro

Tempo da narrativa e a sua evolução diacrónica. A estória em questão ocorre mais ou menos entre finais de 1950 até 1975, tendo como momento histórico privilegiado o decurso dos anos 60, onde se trava afincadamente a luta armada e o combate clandestino nas barbas das hordas colonialistas, ciosas de manter o último império branco que povoou em África, levando ao genocídio das populações laboriosas angolanas, senão pelo menos o esbulho das suas propriedades agrícolas, levando ao seu total depauperamento e desestruturação social, enquanto geradora da classe média local e da “lúmpen- aristocracia” africana da época”. O livro tem como protagonista Júlio de Sousa Aragão, um filho de marceneiro nativo, Nelson Aragão, que abandona a vila natal, Gabela, feito o curso de enfermagem buscando um emprego na cidade capital - um dos espaços físicos e sociais da narrativa, bem como a conclusão do curso de medicina em Portugal, não havendo estudos superiores na colónia, ou nem tanto, dada a impiedosa perseguição que lhe fora movida pela PIDE, depois de ter surrado um seu agente com um “enxerto de porrada” ou por ter andado com a amante de um seu oficial, em passeios e bailes nocturnas, mesmo sem possuí-la, apesar das más línguas que insinuam o contrário.
Neste momento da cena instala-se a dúvida. Deixando escapar rasgos extremamente dramáticos, tanto trágicos como cómicos, que fazem dessa peça literária nestes momentos relevantes e privilegiados da estória, subdividida em casos de amor e de política (“momentos felizes”, como diria o poeta brasileiro Lêdo Ivo) que se repetem vez por outra; conflito dividido, ironicamente, entre o riso e o choro, no fundo, uma verdadeira tragicomédia bem contada pelo narrador, na realidade o autor implícito, não fosse ele um protagonista de carne e osso da causa nacionalista, mesmo dissimulando na terceira pessoa do singular a sua apurada narrativa discursiva, um expediente técnico-literário conseguido com belo efeito, não fosse o diabo tecê-las confundindo-o com o “eu”, sujeito do enunciado, o próprio precursor da história, o próprio Nelson Aragão, orgulhoso da sua classe profissional de operário, na ocorrência assumido “marceneiro de Angola”.
Júlio acaba detido pela primeira vez na casa dos padrinhos por agentes à paisana, à boa moda pidesca. Julinho, conforme foi tratado pelos mais íntimos quando era mais novo, depois de levar uma carga de porrada, com torturas das mais abjectas à mistura, dose que lhe seria bisada mais tarde, para acalmá-lo como potencial subversivo independendista, paradoxalmente, passa a informador da tenebrosa polícia política do Estado Novo de Salazar e Caetano, sendo temido por colegas, subordinados e até superiores hierárquicos, alguns dos quais fazendo parte da pirâmede da estrutura social colonial, pois fora morar, inadvertidamente, na casa do antigo mandão da Pide na colónia, pai da sua noiva Mariazinha, que viria a ser mãe do seu segundo filho. Dado que o primeiro rebento ficara na sua terra de origem, ainda antes da sua primeira parceira, Anabela, ter dado à luz, o Avó xará do sr. Nelson Aragão Neto, sempre ufano do seu status social, ante gente indígena e analfabeta, que não queria ver entrar na sua família, nem como nora.
Salpicada de várias casos de amor, desamores e ciúmes, temores de estas e outras traições à mistura (com delatores em tudo quanto era canto) - qual deles o mais pronunciado! - o romance de H.V.N. tem como pano de fundo a emergência, a afirmação e consolidação da luta nacionalista, de que foi um dos mais conhecidos representantes no âmbito da empresa do mais vasto Movimento de Libertação Nacional, que como se sabe não se esgota numa coloração político-partidária ou ideológica, além de ser atravessada por várias cenas típicas de uma sociedade colonial, cuja dinâmica e evolução das estruturas estruturas sociais são racialmente estratificadas, com preconceitos à mistura, que os diálogos entre os distintos personagens deixam escapar, sinalizando conflitos não só sociais, económicos, culturais e até psicológicas, captados na linguagem coloquial e demais comportamentos dos actores sociais em presença, tanto de colonos como nativos, alguns destes ripostando a provocações daqueles. O desdém a que está sujeito o grosso da população africana, também é um facto a destacar, não só por banda dos colonos, como dos assimilados, em contraposição ao grupo maioritário considerado indígena à luz da ideologia colonial. Mas, desses quase que não reza a estória, diluindo no seu enredo, reportando-se mais às elites tanto coloniais, tanto “bezugos”, como assimilados, sem prejuízo dos marginais, onde se acham prostituas de luxo como Margarida, que trocou os passos ao jovem Julinho acabado de chegar a Luanda, como “a filha do soba que descobriu as luzes da cidade grande”- como diria o poeta num outro contexto.
Chegado a Luanda, o futuro médico vai desafiar a ordem colonial em plena Cidadela do império, confirmando-se as suspeitas dos progenitores. Cai nas malhas da perseguição política, frequentando em companhia da eventual concubina, a morena Margarida, lugares onde existia o selo do apartheid: “ proibido o acesso a gente de cor”( leia-se negros). Postado numa dessas discotecas, antes de espalhar galhardamente os seus dotes de dançarino, escapa a uma cena de pancadaria dos guardas fisicamente bem abandonados, que tinham como costume investir contra os nativos, pois foram comandos & ca., de triste memória nos matagais que circundavam os arredores da cidade e não só.

Espaço da narrativa

Em termos de espaço a narrativa ocorre em Angola, nomeadamente na Gabela, Luanda, na América, designadamente nos Estados Unidos, bem como em na Europa, mais precisamente em Portugal (Lisboa e Oeiras), Espanha e Suécia.
O tema do exílio forçado dos jovens angolanos, na flor da idade, que aderem à luta nacionalista também não deixa de ser um dos núcleos temáticos privilegiados a ter em atenção no desenrolar da trama; na interpelação do texto do nosso autor, cuja linguagem literária surpreendeu-nos pela positiva e ultrapassou mesmo a nossa expectativa, não ficando a dever nada a autores mais conhecidos cá do nosso burgo literário. Tanto é que personagens como Anabela e seu marido, pelo sofrimento que lhes são infligidos pelo colonos e seus colaboracionistas mais discretos, cipaios e bufos pestilentos, dialogam em termos de intertextualidade com a perseguição movida contra Maria Candimba do romance de Domingos de Barros Neto, que morre no rio depois de sobrevivida a várias peripécias urdidas pela aviltante máquina repressiva colonial. Intertextualidade ficcional no passado e no presente. “Mutatis mutandis”, como seja a luta pela libertação do marido detido, que acaba morto pelos sanguinários colonialistas na cadeia, com a cumplicidade de nativos vendidos, como os informadores e toda sorte de bufos de baixo coturno do romance de H.V.N, que temos entre mãos, sem esquecer protagonistas como Venâncio d as “Estórias dos musseques”, de Jofre Rocha, e “Domingos Xavier de Luandino Viera, igualmente imolados pela vetusta máquina repressiva colonial.
Entretanto, um senão se nos coloca: enquanto os dois livros destes livros destes autores poderão ser lidos no contexto em que os factos ocorrem e foram escritos, antes da independência, o romance “Nelson Aragão”, de HVN, bem como as sombras do passado de DBN, poderão inseridos no contexto do romance histórico, pois tratam de resgatar ou ficcionar factos reais ou históricos já vividos há muito mais de 40 anos, a menos que fossem escritos antes da independência, o que não parece ser o caso deste novo livro de HVN.
Quanto ao romance de DBN foi dado por concluído em Outubro de 1977, um período de bastante efervescência da história política de Angola recente e que ainda compagina o imaginário nacional, sendo susceptível de inspirar novos romances políticos e-ou históricos, como o que temos em presença e serve de base a este breve discorrer. Voltaremos a esta nova proposta romanesca de HVN, uma referência de peso do fragmentado movimento nacionalista angolano, circunstância que terá pesado no trágico desenlace da guerra civil angolana, sem prejuízo da influência manifesta e decisiva da Guerra Fria entre os então dois blocos.

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