Cartas de Maria Eugénia a Agostinho Neto

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Uma janela aberta para o mundo

Cartas de Maria Eugénia a Agostinho Neto
Maria Eugénia Fotografia: Arquivo

Passados tantos anos, ao publicar um livro com as cartas da sua juventude endereçadas a Agostinho Neto, que emoções é que sente? Foi esta a pergunta que colocámos à autora de “Cartas de Maria Eugénia a Agostinho Neto”, na sua casa temporária, ali no Miramar junto ao largo de Ambuíla, por mau sinal dos tempos abandonado à sua sorte, cheio de capim e de lixo, e onde um grupo de meninos e maninas brincava, mesmo assim.
“Ao reler estas cartas fico francamente emocionada e acho que, se fosse hoje, não teria a coragem que tive naquela altura. Porque foram muitos acontecimentos, muita coisa se passou e eu acho que, naquela altura, o meu coração estava muito puro, tinha uma grande religiosidade, tinha de ajudar os outros. Agora estou na posição de leitora das minhas cartas e vejo-me noutra personagem”, disse-nos Maria Eugénia, sentada à secretária do seu gabinete de escritora, no anexo repleto de livros e papelada diversa.
Fernando Pessoa escreveu um poema em que explica que “todas as cartas de amor são ridículas”. Mas, nestas epístolas, diz-nos Maria Eugénia que “nem tanto, porque estas minhas cartas são umas cartas que mais parecem de amigo, do que propriamente de namorados, quer dizer, não há ali juras de amor. Estas cartas iam parar às mãos da polícia, antes de chegarem à mão do meu marido”, explica. Foram escritas quando ele esteve preso dois anos e tal no Porto com mais cinquenta e tal jovens do MUD Juvenil. A. Neto representava as colónias portuguesas no MUD Juvenil.”
O amor entre os jovens daquela época – meados do século XX – era diferente do de hoje?, quisemos saber. Maria Eugénia é peremptória:
“O Mundo mudou. Naquelas altura, o amor era mais platónico. Hoje, o amor é mais sexo. E, então, às vezes dá, outras vezes não dá. Acho que o amor platónico é muito bonito, tem muito de idealismo, enfim, era mais bonito do que hoje, embora também haverá, agora, pessoas com certos princípios e se comportem como algumas pessoas do antigamente. E também, naquela altura, não quer dizer que fomos todos santos… mas havia outro comportamento mais generalizado no sentido da honestidade…”

JANELA PARA O MUNDO
O livro, lançado no passado dia 9 de Junho, no Memorial Agostinho Neto, foi apresentado por Alexandra de Victória Pereira Simeão que começaria por dizer que as cartas representam “uma mais valia para todos os estudiosos que pretendam perceber os bastidores da política colonial dos anos 50 e 60 do século XX, constituindo-se numa fonte preciosa, por se tratar de um relato na primeira pessoa. Este é um aspecto fundamental para a compreensão de quem somos e de onde vimos, pois sem fontes genuínas a história dos povos e dos países acaba por ser desvirtuada e acomodada de acordo com os mais perversos interesses, desrespeitando, desde logo, o rigor exigido pela verdade histórica.”
Alexandra Simeão acrescentou que “estas cartas foram escritas num tempo de adiamento de todos os sonhos de justiça, de inclusão e de igualdade. Tempo em que pensar de forma diferente era sinónimo de todo o tipo de atrocidade, da perda do chão pátrio, dos laços familiares e de amizade pelas prisões constantes e deportações sem dó. (…)
Devo reconhecer que sem esta janela para o mundo, os dias do jovem Agostinho Neto, nas cadeias por onde passou, teriam sido muito mais ásperos. O amor dá asas e na troca das palavras quem está longe sente-se presente em todos os sentidos. E acredito que esta foi uma das mais importantes âncoras, capaz de reconhecer que só o tempo e o conforto oferecido com estima, de forma maternal e sem qualquer tipo de juízo próprio de quem enfrenta, pelos outros, todas as adversidades com coragem como o fez Maria Eugénia. (…)

“TUA PARA SEMPRE”
A presença de Maria Eugénia foi crucial na formação de Agostinho Neto, na sua estabilidade emocional, na gestão da insuficiência e na manutenção da relação.(…) Na solitária a maior parte do tempo, os livros conquistam todo o espaço. Em resposta a uma carta de Maria Eugénia, enviada a 12 de Junho de 1957 em que lhe falava da impossibilidade de ter conseguido enviar alguns livros pedidos, Neto responde: “como não tenho com quem conversar, preciso imenso de leitura que não seja a de livros de estudo”. (…) Depois de um ano e meio sem julgamento que fez nascer a “certeza na justeza dos seus actos” como ele próprio escreveu, as cartas trocadas eram o único escape que permitia que os dias se arrastassem mais depressa na esperança do dia da entrega da próxima carta. Daí a importância das mesmas. (…)
Foi sem dúvida um tempo de amparo, um tempo em que todas as inquietações se colocavam e todas as respostas tardavam. Os diferentes cenários do destino das missivas, Caxias, Porto, Cabo-Verde, entre contactos com Advogado e com o Ministério do Ultramar tentando demonstrar a urgência de salvar uma vida, o cuidado constante para não se perderem privilégios na certeza da bravura canina da PIDE e da desproporcionalidade da defesa em todos os sentidos, sem nunca perder o sentido de humor, Maria Eugénia consegue criar alguma sensação de normalidade... (…)
Nas cartas que hoje são aqui apresentadas somos testemunhas do impulso, a antecâmara de decisões que embora cientes de todas as consequências não se tornaram estéreis. (…)
O papel de Maria Eugénia será sempre exaltado quando se olhar para este tempo e para qualquer biografia que seja feita ao Dr. António Agostinho Neto. E o facto de estarmos aqui hoje reunidos a olhar para estas cartas que revelam um íntimo devassado pela censura, que não permitia ir mais longe na entrega e na partilha são prova de que a promessa reiterada ao seu noivo e depois ao seu esposo, repetida na maioria das despedidas ... “Tua para Sempre” ... foi definitivamente cumprida por Maria Eugénia Neto.”

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