CHÓ DO GURI A FILHA DO ALEMÃO QUE FOI PRÉMIO MARQUÊS DE VALLE FLOR

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Chó do Guri conquista, em 2003, o prémio do Instituto Marquês de Valle Flor para a literatura africana pelo seu primeiro romance, "Chiquito de Camuxiba".
Chó do Guri (negação da criança) carrega no pseudónimo o peso de ter nascido lha de mãe negra e pai branco e, portanto, como diziam os padres católicos na altura, "lha do pecado”.
“Chó do Guri, um dos nomes mais importantes da literatura angolana, merece outro olhar por parte dos críticos literários por forma a colocar o seu nome no patamar que merece.

Maria Fernanda. Fotografia: Jornal Cultura

“- Número vinte e dois: Maria Fernanda.
- Sim, senhora professora.
As professoras faziam pausa quando chegassem ao número vinte e dois, para perguntar-lhe:
- Maria Fernanda e mais… Não tens sobrenome. Não tens pai?” (in “A Filha do Alemão”, Chó do Guri, 2006, pág. 201)
Em A Filha do Alemão, Chó do Guri ataca o problema do estigma colonial do “filho de pai incógnito”. Como disse um dia a autora, a obra é quase a sua biografia, pois ela era filha de mãe negra e pai alemão.
Chó do Guri conquista, em 2003, o prémio do Instituto Marquês de Valle Flor para a literatura africana pelo seu primeiro romance, "Chiquito de Camuxiba". O site da Agência LUSA, de 9 de Fevereiro de 2007, destaca que “Chó do Guri (negação da criança) carrega no seu pseudónimo literário o peso de uma história pessoal comum a muitas crianças africanas, o de ter nascido filha de mãe negra e pai branco e, portanto, como diziam os padres católicos na altura, "filha do pecado".
Livro íntimo que tardou quase duas décadas a ser escrito, "A Filha do Alemão" foi usado pela sua autora como mecanismo de auto- aceitação da sua biografia.
"Depois do parto desta obra, sinto-me aliviada. Tinha necessidade de me aceitar tal como sou", explicou a escritora, por ocasião do lançamento, em Luanda.”

VIVÊNCIAS
Toda a boa literatura, mesmo aquela que salta para o espaço quase surrealista da ficção científica (temos na mente as páginas de A Fundação, de Isaac Asimov), é a expressão das vivências do seu autor, é a ilustração material e espiritual da própria sociedade que o rodeia. Chó do Guri manteve a sua escrita presa às suas raízes socio-culturais. Vivências (poemas, 1996), Bairro Operário - A minha História (contos, 1998), Morfeu (poemas, 2000), Chiquito de Camuxiba (Romance, 2006), A filha do Alemão (romance, 2007), Songuito e Katite (conto infanto-juvenil, 2009) são todos reflexos da caminhada de uma Mulher de grande coragem, fé e persistência. Para o escritor Ricardo Manuel: “Chó do Guri nas suas vivências na vida não cala a mágoa de queixumes doloridos e, esbate em tons amargos as figuras empobrecidas dos meninos inquilinos da rua, das prostitutas (quantas vezes incompreendidas!), de almas que amam e são desamadas e dos homens desatentos aos conflitos que tanto apoquentam a humanidade”.
Em Portugal, ainda publicou o romance A Perversa, e em 2016, lança em Luanda uma obra ousada pelo seu título Pulas, Bumbas, Companhia Ilimitada e Muita Cuca, 2016.
A autora deixou subsídios sobre a sua experiência de vida, numa entrevista a Aguinaldo Cristóvão, publicada no site da UEA: “Nasci na Quibala, mas tenho poucas recordações dela, pois vim para Luanda com dois anos e fui parar ao Bairro Operário. Este bairro marcou-me muito. Naquela altura éramos como uma família. Tenho muito boas recordações do bairro e da gente que lá morava. Além do mais era um bairro muito carismático. E penso que o que fez a gente que lá morava afeiçoar-se ao bairro era a nossa maneira de viver. Éramos muitas vezes obrigados a defender o bairro para nos defendermos de certas conotações que gente de outros bairros fazia de nós.”

LITERATURA DE COMBATE
Chiquito da Camuxiba, que lhe valeria o prémio acima referido, era um menino que “trazia os olhos avermelhados, a carapinha encrespada e enrodilhada de muitos dias sem pentear.” (pág. 5). Esta obra é um filme sobre o drama vivido pelas crianças de e na rua, na cidade de Luanda, “uma chamada de atenção à sociedade no sentido de se ajudar as crianças de rua, para que possam sair da difícil situação em que se encontram.” É esta obra que mais reflecte o modelo de literatura de intervenção social eleito pela escritora.
Sobre a outorga do prémio Marquês de Valle Flor, em Portugal, disse, na altura Chó do Guri: “A obtenção deste prémio impulsiona-me a continuar a escrever, contribuindo, com a humildade que me caracteriza, para o progresso da cultura angolana, apresentando as minhas propostas literárias.”
O jornal Cultura concorda com o artigo da LUSA quando realça que “Chó do Guri, que nasceu em 1959 na Quibala, província do Cuanza-Sul, é já um dos nomes mais importantes da literatura angolana.” A merecer outro olhar por parte dos críticos literários por forma a colocar o seu nome no patamar que merece.

ISTO NÃO É POEMA
(de Chó do Guri)

Isto não é poema
É o meu grito de angústia
Na boca do povo em algazarra
É lamento na rua
“é lambula, lambula, lambulééé...”
como um cântico à desgarrada
Isto não é poema
É a dor do desconsolo
Ao aperto da miséria
“menos preço, menos preço, menos
preçoééé...”
como um cântico à desgarrada
Isto não é poema
É vida?
É morte?
Então o que é
Se o meu poema ainda dorme
Com a boca de fome
Como soneto da casa sem pão
Que faz do filho um ladrão
“agarra o ladrão, agarra o ladrão, agarro
ladrãoééé...”
como um cântico à desgarrada
Isto não é poema
É lamento
É o cântico sofrido de um discurso sem fim
“é lambula, é lambula, é lambulééé...!
menos preço, menos preço, menos preçoééé...!
agarra o ladrão, agarra o ladrão, agarra o
ladrãoééé...!”

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