Colheita de frutos Novembrinos

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Prémio Nacional de Cultura e Artes 2015.

Colheita de frutos Novembrinos
Prémio Nacional de Cultura Fotografia: João Gomes

Ao celebrar 40 anos de independência, as Artes e as Ciências Sociais angolanas foram contempladas, mais uma vez, com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, a 10 de Novembro do corrente mês, sob o olhar atento de figuras ilustres da arte e sociedade angolanas, como o Vice Presidente da República, Manuel Vicente, Cornélio Caley, secretário de Estado da Cultura, amigos e familiares dos laureados, que fizeram a sua colheita de frutos novembrinos naquela noite: José Luís Mendonça (Literatura), António Gonga (Artes Plásticas), Rui Mingas (Música), José Rodrigues e Nguxi dos Santos (Cinema e Audiovisuais), Ilídio do Amaral (Ciências e Investigação Humanas e Sociais), JULU (Teatro) e Novatos da Ilha (Dança). A gala foi albergada no Cine Tropical e seguiu um roteiro que a todos orgulhou, pela diversidade de gerações da classe artística presente, uns como convidados e outros como premiados, criando uma ponte que uniu na mesma esteira o canto prenhe de Gari Sinedima à quase secular vibração da passada segura da rebita dos Novatos da Ilha.

Gala

Mara Dalva e Amílcar Xavier, mestres de cerimónia, começaram a condução da noite propondo-nos, ainda, o dueto entre Gari Sinedima (voz) e Toty Samed (guitarra), duas estrelas em ascensão que têm interpretado com disciplina e ousadia clássicos da música angolana e sugerindo arranjos na estética do afro-house que a cena musical luandense não se fez surda. A dupla interpretou ´Adeus à Hora da Largada´, poema de Agostinho Neto, ´Vanda Kupalã´ e ´Minha Terra´, letra e música de Rui Mingas.
´Ilumba ni Mizangala´, a coreografia apresentada pelo grupo rebita Novatos da Ilha, foi com certeza uma lembrança que ficará na memória de muitos jovens que hoje não encontram espaço para ver e aprender a dançar a rebita. O galanteio, a disciplina, o companheirismo, a vestimenta respeitável, a dignidade no trato, a postura varonil, a obediência às damas: são alguns imediatos aprendizados que se pode colher ao assistir aquele número de dança apresentado por um grupo cujo marco inicial remonta para o início da década de 50, tendo na sua origem nomes como o de Mestre Geraldo ´da Rebita´. O Duo Canhoto, que frisou estar à procura de patrocínio para a gravação de mais um disco, deixando assim um repto para todos os empresários angolanos e amantes da boa música que nutrem alguma estima por este distinto da trova do canto angolano, veio impor a sua maturidade no canto. Mas este repto viu algumas luzes ainda quando estavam em palco, numa pronta intervenção de Amílcar Xavier, dizendo com alguma segurança que seria uma certeza a edição do novo disco para próximo ano, como se já nos bastidores tivesse recebido uma luz. Oxalá venha a ser verdade. Interpretou ´Partida para o Contrato´, ´Monangambé´ e ´Tchololo´. A arte cénica marcou presença com o grupo Protevida, que apresentou em teatro uma síntese dos principais acontecimentos e figuras nestes 40 anos de independência, deixando assim o fecho para Gabriel Tchiema, que brindou o público com os temas ´Tchilota´, ´Azwlula´ e ´Mbinda´.

Novembrinos
Se em José Luís Mendonça, que venceu pelo conjunto da sua obra poética, o Novembro aparece em ´Chuva Novembrina´, que marca o início de uma das produções poéticas mais sólidas e profícuas, em António Gonga este novembro é tecido em cores com ´Frutos Novembrinos´, uma das três obras que lhe fizeram merecer o prémio.
O pintor disse-nos durante a gala deste prémio que considera “arauto das grandes figuras que contribuem para actividade cultural”, que ´Frutos Novembrinos´ é uma peça onde ilustra três figuras numa luta quotidiana, a desenrascarem a vida. “As personagens são três zungueiras, que transportam consigo o fundamental para a construção da dignidade humana”, detalha. Posicionou que a obra tem uma tendência expressionista, voltada ao naïve, caminho estético que muitos artistas africanos preferem trilhar e que faz parte da sua própria estética. Com este prémio pode agora já estar imbuído de maior motivação, tendo em conta que as obras foram criadas numa dimensão estética que vem produzindo nos últimos tempos, onde estratos da cultura local africana são muito evidentes e quer acreditar que, ao ser reconhecido, marca uma etapa de relevância e motivos para socializar o que vem produzindo. “Sente-se essa necessidade da arte ser divulgada em todos os campos do país e fazer parte da vida das pessoas em geral”, projecta.

JULU vai ter sede
A forte intenção do JULU, conforme adiantou Lourenço Mateus, director artístico, é usar o dinheiro do prémio para realizar um velho sonho do grupo: ter a sua própria sede.
“Realmente. Somos um gigante com pés de barro. Nos não temos, por exemplo, uma sede social. Então, a prioridade vai ser construir uma sede onde fazer os nosso ensaios e receber grupos nacionais e estrangeiros. Essa é a nossa prioridade. Nesse momento temos um espaço que nos foi cedido em viana por um amigo e fã do grupo, onde ensaiamos. Pensamos que a zona sul de Luanda seja a indicação geográfica que nos interessa”.
Este prémio, conta o actor, tem sabor a satisfação e sentido de dever cumprido, uma vez que já estão há mais de duas décadas a fazerem teatro de qualidade e foi através do teatro que ajudaram a erguer este país, citando desta feita a frase de Agostinho Neto para melhor se explicar: “As nossas mãos ajudaram a colocar pedras no alicerce do mundo e merecemos o nosso pedaço de pão”.
Sobre os grandes momentos, que certamente pesaram na decisão do Júri, não hesitou em responder que não restam dúvidas que foi a intenção e período de criação, em 1992, quando o país estava a viver as primeiras eleições e o povo não sabia onde votar e como votar, e o JULU mostrou que através do teatro era possível ajudar nas linhas alternativas de comunicação, informação e educação para melhor orientar. Foram duas vezes prémio de teatro Cidade de Luanda e já efectuaram várias deslocações para fora do país para mostrar a cultura de Angola e manter intercâmbio com outros grupos do estrangeiro.

´Langidila´ com pernas para andar pelo mundo
José Rodrigues e Nguxi dos Santos foram sagazes e o resultado feliz de ´Langidila – Diário de Um Exílio Sem Regresso´ deu frutos, mas, adverte José Rodrigues, não no sentido de pensar no prémio: “Quisemos preferencialmente prestar à juventude uma informação. Foi um trabalho de pesquisa, e penso que terá resultado por ajudar a compreender melhor algumas figuras da luta de libertação”. Como encontrá-lo por aí nas casas de venda, o cineasta esclareceu que o produto foi dado a uma produtora, a Orion, que está a promovê-lo, já tendo corrido as 18 províncias do país. E, sendo obra de arte, assegura que tem pernas para andar pelo mundo, entre festivais e vendas comerciais.

Rui Mingas satisfeito
“Esta é uma edição especial para todos os angolanos, particularmente pelo momento da sua história”, nos disse em breves palavras Rui Mingas, aquele que nessa época de Novembro estava inteiramente dedicado a dar corpo ao Hino Nacional. Mas viu a sua alegria a ganhar outros contornos quando a dupla de jovens Gari e Toty interpretou o seu sucesso pátrio ´Minha Terra´, opinando a respeito que ´Isto quer dizer que a nova geração gosta de coisas que eu cantei há trinta anos, quando muitos deles ainda não tinham nascido. É sinal que a juventude deste país é nobre. Ouvi um bocado emocionado ser cantado de forma tão bonita. Estou satisfeito”.

Acta do Júri
Faz mais ou menos um mês que já é de domínio público os nomes dos laureados desta edição 2015, como é praxe da organização fazer sair um comunicado público, numa conferência de imprensa, semanas antes da gala oficial, momento em que os indicados recebem da mão de Manuel Vicente, em representação do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, a estatueta e o diploma de mérito.
Encabeçado por António Fonseca, o Júri deliberou que José Luís Mendonça, pelo conjunto da sua obra poética, é distinguido “pela singularidade do estilo e pelo valor cultural das temáticas tratadas, tendo o amor instituído como guia da sua produção literária, em torno do qual percorrem diversos temas, entre os quais os seguintes: as relações entre o povo e o poder político, a política e a ideologia, as interrogações que a história recente de Angola levanta, a preservação do ambiente”.
António Gonga viu-se distinguido também pelo conjunto da sua obra, embora o destaque recai para três: ´Jacaré´, ´Frutos Novembrinos´ e ´Instante de Mulher´, tendo o Júri advogado sobre a obra do artista que está ´”Enraizada nas origens da mítica e imagética angolana, acrescida dos ventos da contemporaneidade, vem apresentando um conjunto de obras de cariz conceptual, retratando estórias, contos, parábolas e vivências, particularmente das últimas quatro décadas, onde se verificou o êxodo de populações a que ele titulou de “Transumâncias” como substância da sua veia criadora e, dizíamos, através de personagens onde a figura da pessoa humana e mítica estão intimamente interligadas”, acrescentado também que “Explora muitas vezes linhas meio geometrizadas e estilizadas das formas das figuras das suas obras, como que dando continuidade ousada aos cânones das escolas da escultura africana, com expressões corporais com as nuances que entende”.
O grupo JULU, conclui o Júri, foi a importância da sua obra ´A Filha do Bruxo´, em que se retrata “O percurso histórico desde o século XIX, ressaltando a personalidade dos nacionais que, apesar de fragilizados por conflitos entre si, conseguem manter viva a chama da identidade cultural confrontada com o período da inquisição e o poder colonial”.
O grupo de rebita Novatos da Ilha, que subiu ao pódio pelo conjunto da sua obra, o Júri destaca-o pelo “Trabalho de grande relevância que vem fazendo, já que ao longo do seu percurso tem conseguido não só preservar como também introduzir inovações nas suas coreografias, mantendo no entanto a estrutura base do género”. Acrescenta ainda que “ A qualidade das suas apresentações é de padrão elevado porquanto há todo o cuidado a nível do colectivo de se apresentarem dentro do enquadramento cénico, criando sempre o envolvimento e interacção entre os bailarinos e o comandante que é a figura de relevo. Não obstante o grupo ser integrado por uma geração nova, mantém a sua identidade, originalidade, ao mesmo tempo que conserva no activo alguns elementos fundadores do mesmo, numa garantia de continuidade”.
De Rui Mingas, diz o Júri, “A veia poética e musical que encerra a sua obra permite distinguir modelos e giros melódicos com uma gama de esteticidade cujos desenlaces contribuem para um processo de maturação musical substantiva”, sendo também “detentor de uma musicalidade ímpar e expressa na sua música a angolanidade incontornável de educação estética e cultural”.
José Rodrigues e Nguxi dos Santos, mereceram pelo documentário ´Langidila´, que o Júri define sendo “uma obra dinâmica, que num crescente estado de emoção culmina com uma sensação de que algo mudou em nós: um misto de orgulho pátrio com uma mais sentida identidade nacional”, tratando-se de uma “Simbiose entre as imagens de arquivo (fotos) e os depoimentos das testemunhas, o que confere dinâmica ao documentário, acabando por ser uma lição de técnica cinematográfica a reter”.
De Ilídio do Amaral, distinguido pela obra ´Luanda, Estudo de Geografia Urbana´, avalia o Júri que “Esta obra constitui a primeira monografia, de caracter científico, da cidade de Luanda e o resultado do seu estudo. Mais do que a apresentação de uma forma simplesmente descritiva, a obra faz uma análise e uma interpretação geográficas do processo dinâmico da evolução urbana de Luanda”. E acrescenta noutro ponto que a mesma figura “Dentro de um plano clássico, porque outro não conviria para uma primeira apresentação da geografia urbana de Luanda, o trabalho foi elaborado segundo um esquema funcional”.

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