Como Li " Nzaji, o último contratado" do escritor Domingos de Barros Neto

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O Barros Neto foi um artista que se expressou com palavras.

Como Li
Livro do escritor Barros Neto

Tive imensa pena de não assistir ao lançamento do livro do escritor Barros Neto, que ocorreu a 16 de Novembro de 2016, no Palácio de Ferro de Eiffel. Teria tido também a oportunidade de ver, pela primeira vez, como ficou a restauração de uma infraestrutura metálica que bem devia ser considerada uma das maravilhas arquitectónicas da cidade de Luanda.
Perdi essa oportunidade, mas, por nada deste mundo, me interessava perder a obra que a veia escritora de Barros Neto me podia proporcionar; pois, nem sempre se tem à mão um livro de quem sabe escrever, pelo menos para mim!
Li a obra como quem sorve gole a gole uma chavena de chá de caxinde, adocicado com mel do Bié. Fi-lo, durante o voo de Luanda/Joanesburgo. Estranharam-se as hospedeiras por não me verem comer nem beber coisa alguma, preso que estava a ler o pequeno livro do escritor Barros Neto.
O prefácio, redigido por um entendido em Língua Portuguesa, o Prof. Doutor António Fernandes da Costa, de quem eu muito admiro a humildade e a sabedoria, é já por si só um verdadeiro certificado de distinção para um trabalho de imensa qualidade literária.
Bem que eu podia ficar calado! Mas o que me leva a escrever também algumas linhas a esse respeito, é que o escritor – não apenas o autor – aborda uma temática de que sou profundamente aficcionado: a dignidade dos humildes. Nem podia ser de outra maneira, porque senão a mão condenatória dos antepassados me cairia sobre a cabeça por ingratidão!
De acordo com alguém, escrever livros não faz ninguém um escritor, mas simplesmente um autor. Um escritor é alguém que expressa algo de novo com palavras escritas. Barros Neto trouxe à ribalta um tópico interessante; um novo ponto de vista sobre a realidade dos “contratados” da época colonial, e fê-lo com mestria, equinanimidade e equilíbrio intelectual. Eu diria mesmo que ele se revelou como uma verdadeira emanação da filosofia de Francisco de Assis: “onde houver guerra que eu traga a paz”.
Na realidade é preciso ter-se uma sensibilidade enorme; é preciso ter-se vivido nessa época “escura”, para poder retratar com tanto pormenor a vida dos que se esforçavam para sobreviverem, longe dos familiares. E mesmo quando assentavam arraiais na “terra dos outros”, logo surgia a tortura da saudade bem como a incompreensão a dificultarem tudo, como aconteceu ao Nzaji. Que vida infeliz teve o Nzaji, que sofreu a exploração de todos os que se diziam protectores da sua vida e queriam ajudá-lo! Quanta traição! No entanto, como seria a vida se voltasse para a terra natal? Bem que se esforçou, o coitado, procurando aumentar o seu rendimento económico, mas a morte foi mais célere e nem mesmo o enfermeiro Casimiro pôde curá-lo como o fez na primeira vez que adoeceu quase mortalmente! Terá sido devido ao feitiço irremovível da senhora Branca Makinda, sua última patroa?
Pode dizer-se basicamente, usando expressão alheia, que Barros Neto foi um artista que se expressou com palavras. As cores da melhor pintura da realidade africana não teriam expressado melhor “este dar muito e receber pouquíssimo dos “mona a ngamba”.
Está de parabéns o escritor, porque o seu livro, embora pequeno, está repleto de extraordiária comunicabilidade, que me ajudou imenso; aprendi novas nuances da linguagem. Aprendi como ser conciso no pensamento e expressá-lo com as palavras certas; nem mais nem menos. Incrível!
O livro proveio, a meu ver, da lógica da alma rica, sensível e humilde de Barros Neto. Foi por isso que aceitei integrar a vida quotidiana difícil da “maternidade”; a vida peculiar dos que teceram as memórias do Dondo, de então. Tive a oportunidade de sofrer e chorar e também partilhar com eles os momentos da euforia dos pobres. Apreciei com eles os cantares e bebedeiras para lenitivo dos males do corpo e da alma.
Mas o que me impressionou profundamente – e me repugna ainda agora – foi a inveja acirrada dos correligionários. A dificuldade das pessoas só trabalharem se o chicote do colono estiver à vista para os acoçar; que não aceitam que indivíduos da mesma linhagem as dirijam. Com estes, fingem que fazem alguma coisa; com aqueles dão o couro e o cabelo.
De nada valeu ao Nzaji ter sido nomeado capataz adjunto, posto que lhe aumentou ainda mais o trabalho e a incompreesão dos demais. Infelizmente é essa a formatação psicológica de quinhentos anos de colonialismo, que nos continua a acorrentar, subjugar e subdesenvolver.
Nos nossos dias, ainda há resquícios dessa mentalidade degradante da pessoa humana. A ideia de que o trabalho dignifica o homem e a sociedade – apanágio das sociedades que evoluíram – ainda não ganhou raízes em muitas pessoas, que fazem qualquer coisa sem a merecida excelência. Quem dera que essa mentalidade pudesse ser remodelada na totalidade, não importa em quantas dezenas de anos!
A excelência, de facto, é sempre o reflexo de bases intelectual e moral sólidas; de muitos anos de trabalho e dedicação; de boa orientação e conscientização; de boa formatação mental; de boas práticas, enfim. O escritor Barros Neto tem todo esse substracto e mais algum. É o que se pode chamar uma pessoa culta e, mais do que isso, humilde e simples. É, em meu enteder, um exemplo a seguir, uma verdadeira referência.
O livro “Nzaji, O Último Contratado” do escritor Domingos Fernandes de Barros Neto tem, sem exagero algum, o selo da excelência, no verdadeiro sentido da palavra e brotou “ex abundantia cordis” e pode ser apontado como o exemplo da arte de “bem calvalgar toda a sela” em termos da escrita. Definitivamente não se escreve para ensaiar, mas para legar à sociedade um instrumento adequado de reflexão e desenvolvimento. Bem haja.

Pretória, aos 21 de Novembro de 2016.

PAULO CAMPOS

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