Compasso do ritmo na nona brisa

Envie este artigo por email

Em Angola, o período post-independência produziu importantes nomes que, com o andar do tempo, foram sendo classificados de diversas formas. Há quem os tenha chamado de geração de 80, geração post-independência porquanto o crítico literário Luís Kandjimbo os apelidou de geração das incertezas, e vários outros nomes.

Compasso do ritmo na nona brisa

É neste conjunto de talentosos trabalhadores da palavra poética que emergem nomes como o de Lopito Feijóo. De vocação experimental, paródica discursiva, hermetismo, humor a desconstrutividade ou ludismo dos signos, é muitas vezes referenciado como “rebelde” quiçá, dada a sua forma telúrica, irreverência e boémia.

Mas este simples homem, na nossa (i)modesta opinião gente de trato fácil, atento e de sensibilidade apurada para pormenores culturais, é um artista de grande alcance e significado, se buscado na sua exigência e rigor no âmbito do labor estético e poético.

O contacto direto com uma dada peça de artesanato, a tela e a banda desenhada, o instrumento musical, a fotografia e o som do vai-e-vem das ondas do mar fazem o seu quotidiano.

Se ontem via o mar pela varanda da “zona libertada” e à distância, hoje, sente a nona brisa a convidá-lo para a conversa comas calemas, como gesto singelo do pescador passante ou mesmo coma imersão do sol quando o dia já pede passagem à noite.

Vive praticamente com e no mar. Sente as ondas a tocar os alicerces do muro de vedação, ao ponto de dar-lhe a sensação de se deixar levar pela aderência do instante, efeito do “kalunga”.

Enquanto significado de transmissão coletiva, kalunga, é mar em muitas línguas nacionais do nosso país, embora a este se tem adicionado o de “deus da divindade da morte”. Mas aqui questionamos, a morte de quê ou de quem?
Lendo o livro “Véu do Vento”, de um poeta angolano editado pela União dos Escritores Angolanos em 2011, na página que dedica aos seus pais, o poeta diz:

“À memória de meus pais (...), porque a terra é apenas tapete por um lado e cobertor pelo outro, apenas uma fronteira estreita entre aqueles que a pisam e aqueles que são cobertos por ela, entre o exército do movimento e os do repouso, duas multidões unidas por um esquecimento mútuo”.

Remetendo-nos ao conceito de morte, para uma tentativa de análise perfunctória, diríamos que a natureza da objetividade com que se nos apresenta a morte, enquanto viventes, por vezes leva-nos à perceção de que os mortos não têm o direito de viver, porquanto este mito não passa de mera crença, considerada como um processo paralelo ao da passagem do sagrado para o profano.

Mas para os produtores de arte, Lopito Feijóo e Aminata Goubel, na casa que desde o primeiro ao terceiro andar, aliás ao terraço, é uma verdadeira transmissão de vida, viver a arte é uma perfeita combinação entre o imaginário concreto e a transferência da vida para uma dimensão além-morte e, em consequência, para eternidade enquanto concecionalidade do crer, ser, estar e ser, assim mesmo como dizia este poeta:

Ao Filimone Meigos, Luis Cezerilo e Eduardo Quive, poetas Moçambicanos… e a Aminata, Palú, Lina e Melita também poetas por transmitirem sensibilidades.

“O som do batuque da leba
Lembra o canto otyitalukilo

Todos cantam
Dançam daqui às ondas domar

Passa um recital de poesia
Passa outro
E todos amparam o rasgo do Índico
Temperam a afeição e canto do sul
E vem conferir a urgência do kimbundu
Na voz do poeta de africalema

Em transparência do ato
Perde-se a noção do adeus
Que o sol adensa
Sob olhar atento da nona brisa
Um ninge na tradição umbundu
Magno devastador
Aqui transformado em gesto
[estimulante
Medita a gravitação da entrega

Enquanto à dois passos do alicerce
As ondas estendem-se, batem
E vão
E em vão

Soberbas cobrem os corpos na água
Ao som do batuque na praia

As vezes uma (lo)pitadela no petisco
E se a golada do marufo
Aguarda a vendedora passante
A the famous grouse faz a vez”.

Na “nona brisa”, cada dia de domingo é dia de reflexão, tertúria, recital, debate, teatro e dança com “batuque na praia”, onde todos vibram e vivem, vão e com veemência regressam do mar e mergulham na dança, sentem o pulsar do canto e revestem-se do gesto e da forçada arte dos antepassados, já que absorvidos pela espiritualidade do som do batuque.

Estas pequenas manifestações, revestidas de grande essencialidade e significado estético e artístico, que se somam e revigoram sob a reinvenção do momento, não se rendem “à configuração simplicista fruto de uma intuição que vagueia”, mas pelo contrário, quando feitas com virtude e talento, precisão e concisão sob a orientação do querer e contribuir para o engrandecimento cultural, “realizam a solenidade” das artes e “os seus cultores se podem orgulhar de lhe terem rendido a excelência”.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos