Contos angolanos na diáspora

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Com vista a uma “maior divulgação e internacionalização da literatura angolana”, a União dos Escritores Angolanos (UEA), em parceria com a LEYA-Texto Editores, fez o lançamento na livraria Buchoolz em Lisboa na sexta-feira, dia 7 de Novembro, de uma colectânea de 42 estórias, nas quais “sobrevivem analogias, relativismos e paradigmas da literatura angolana”, no dizer do secretário-geral da casa dos escritores angolanos, Carmo Neto.

Eternizada como Estórias Além do Tempo, a antologia inclui 17 escritores de diversas gerações literárias, a saber Arnaldo Santos, o próprio secretário-geral da UEA, Dario de Melo, Fragata de Morais, Henrique Abranches, Henrique Guerra, Isaquiel Cori, João Melo, João Tala, José Eduardo Agualusa, José Samuíla Kakweji, Luís Ferando, Marta Santos, Ondjaki, Pepetela; Roderick Nehone Sónia Gomes.
“Estaremos nós capacitados no melhor desempenho para a promoção e divulgação da literatura angolana no exterior?”, questionou-se Carmo Neto, secretário-geral da UEA, ladeado da representante da Texto Editores, Luísa Rodrigues e de António Quino, professor de Literatura no ISCED. “Claro que sim”, respondeu o próprio, tendo, de seguida, justificado que “há material literário de qualidade em Angola” e, portanto, “com tamanho parceiro, no caso, a LEYA, temos de olhar em frente, não podemos construir uma casa para o Verão passado, como já disseram já os mais velhos.” É dentro desse espírito que a UEA “desenvolve uma estratégia para a divulgação dos autores e da literatura angolana no exterior, de conformidade com o decreto presidencial nº 10/11, de 24 de Maio, sobre a “Política Nacional do livro e da Promoção da Literatura”.
Disse mais Carmo Neto, afirmando que “esta antologia é apenas um primeiro passo, que permitiu alargar a mostra de escritores angolanos à disposição dos leitores portugueses e acrescentar valores. Tal como o Marquês de Pombal para a Lisboa pós-terramoto, nós queremos reiniciar com a LEYA um processo de ajuntamento de traços identitários da literatura angolana, catalogando e publicando escritores, reafirmando temáticas, estéticas, estilos e géneros literários que o mercado implora. E, no exercício pontual do nossa parceria, nada mais sensato do que atribuir, doravante, ao grupo LEYA, a responsabilidade de editar as obras vencedoras do concurso “Quem Me Dera Ser Onda”, que vai já na sua quarta edição e prossegue o objectivo de estimular a juventude para o gosto pela leitura convencional e o lazer, bem como proporcionar o surgimento de novos talentos literários.”
O apresentador da antologia Estórias Além do Tempo, António Quino, destacou que “esse cardápio de escritores é uma amostra da rica diversidade de penas que abraçam a família artística angolana da contemporaneidade”, disse, tendo proposto aos presentes leituras em função de “alguns instrumentos que os estudos literários nos oferecem, nomeadamente a literatura comparada” que permitem “assumimos a promoção da incidência sobre os invariantes presentes nos textos, permitindo que se eleja uma visão voltada para o local, tendo em apreciação os ambientes socioculturais que cada um dos autores representa.”
Segundo Quino existem dois elementos que ajudam a instrumentalizar essa invariância nos 42 textos, nomeadamente as personagens e o espaço físico que corporizam as estórias. Começamos por notar a incursão na oralidade, nas lendas e a construção de mitos, com traços característicos que ajudam a viajar pelo espaço sociocultural angolano em períodos intermediados entre o antes e o depois da colonização portuguesa. Ou seja, há a presença constante e permanente de Portugal como referência à progressão social.
Na esteira dos escaldantes romances, nessa antologia há paixões, ciúmes, bandidos à moda antiga, desamores, luto, grinaldas, assassínios, suicídios, homossexualidades, desenganos. Enfim, há vidas num tempo separado pelo próprio tempo.
Nos contos que mais me atraíram, o manuseio do epílogo, do encantamento e do clímax são autênticas chaves da vida e de felicidade, ou infelicidade, a favor da moral e da sobrevivência humana. Há também a descrição dos espaços físicos, que nos transportam para a Angola além do tempo, cujos traços se aproximam do misticismo, ao feitiço que enfeitiça as sociedades. A presença da água é também um instrumento que corre livre pela antologia, num curso ilíquido regido pelas raízes do tempo.
Se o tradicional inunda parte considerável da antologia, algo sublimemente explorado pelo capista da Texto Editores, o título eleito também transporta uma essência presente no conto que mais apreciei.
No final, pela homogeneidade das estórias e pela ligação entre os invariantes locais que as caracteriza, poderão ver que esse conjunto de informação, permitiu transformar as 42 estórias numa suculenta narrativa que se inter-comunica entre si, e cujos traços personalizantes unem os 17 escritores num só.
E é esta estória unificante das 42, escrita pelos 17 autores unificados num só, que eu mais apreciei”, concluiu o apresentador.
Dois dos antologiados estiveram presentes a assinar autógrafos: Roderick Nehone e Luís Fernando e a representar a embaixada de Angola em Lisboa, que apoiou o acto, estavam o primeiro secretário, Abreu Breganha, o adido cultural, Luandino de Carvalho e o adido de imprensa, Estêvão Aberto.

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