"Contos maravilhosos do meu kimbu”: do escritor Paulo A. de Campos

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  Contos Maravilhosos do Meu Kimbu, do escritor Paulo Adão de Campos, é uma obra literária do género narrativo, estruturada em 11 contos - (con)vertidos em capítulos autonomizados - encabeçados por curtos trechos resgatados do cancioneiro popular, tudo isso talhado numa moldura que exibe um prefácio e um posfácio com dois subtemas, ou - para usar a expressão do autor - da «coroa» de uma idêntica moeda onde a outra face, a «cara», é constituída pelo corpus. É um livro escrito em «homenagem à Juventude Radiosa Angolana».

Paulo Campo à esquerda do apresentador, Barros Neto Fotografia: Jornal Cultura

Convidado a prefaciá-lo, anuí, ainda que, noutras ocasiões, tenha vindo a rejeitar, de modo reiterado, pedidos formulados nesse sentido por vários escritores «da nossa praça». Rejeitado porquê?! - talvez vos questioneis e eu respondo, de imediato: por motivos sobretudo de coerência, diria, talvez mais certeiramente, de consciência.
Prefaciar qualquer obra literária não é tarefa fácil; não só requer sagacidade intelectual e engenho como também muito tempo disponível e o tempo (bem o sabemos), para além de «dinheiro» é, igualmente, recurso não renovável.
Prefaciar pode, igualmente, induzir-nos em erro, ao pretender introduzir-se no âmago do autor para, debruçado sobre o DNA da obra, surpreender o gene catalisador da mesma. Explico-me: o ângulo de enfoque e visualização da mundividência, vista, vivida e até sonhada pelo autor, por regra, não se coaduna com a do prefaciador surgindo, desta feita, eventual antinomia, ou contraditoriedade, relativamente à cosmogonia originária. «Traduttore traditore!», dizem os italianos, com um acento de humor sardónico; mas - «mutatis mutandis» - acho que tal asserção pode mesmo ser aplicada a determinados prefaciadores.
Portanto: prefaciar é, para mim, caso de consciência, principalmente quando o autor se revela amigo de longa data, correndo-se, deste modo, o risco de, por empatia, o prefaciador virar encomiador, bajulador. Mas já que «palavra de rei não volta atrás!», aceitei, não obstante tudo, o desafio.

PEDAGOGIA DO CONTO
Não é primeira vez que Paulo Campos produz literatura. No seu palmarés, para além de trabalhos próprios do seu métier, registam-se outros, tipicamente literários: «Os Meus Outros Filhos», 2.000, «Um Kangundu Excepcional», 2005, e «E O Rio Kwanza Criou a Mulher…», 2009.
Ao contrário das demais obras, C.M.M.K. surge como um trabalho sui generis. Conforme ficou dito, ela encorpa-se em 11 contos, ou seja, 11 capítulos, todos eles conectados por um fio condutor em que tanto os elementos textuais como os paratextuais interagem, galvanizando, magneticamente, o macrotexto, com base numa plataforma de metafóricos signos polifónicos, estruturados de modo harmonioso e enredados estilisticamente numa simbiose morfo-sintáctico-semântica. Daqui o surgimento, natural, de uma estrutura típica do modo literário que se convencionou denominar «conto», isto é: obra em prosa, surgida de uma mundividência específica, tecida de estórias com pontual intervenção do maravilhoso, a coberto de aventuras polvilhadas de variegadas combinações etno-sociológicas.
Desde já, é de se sublinhar o efeito eminentemente pedagógico desses contos, apresentados pelo autor como pistas, para o reencontro com a nossa angolanidade. Com efeito, o que ali se vivencia não me parece ser tanto a «arte pela arte», abandonando o critério de apreciação estética ao gosto do leitor/contemplador. Ali, ao invés, o registo linguístico pauta-se não já por uma tónica discursiva, meramente enunciativa, quanto antes por um enunciado impositivo, de sinal categórico, ou seja: mirando uma função, precisamente, a função pedagógica que é, nesta senda, também didáctica.
Os contos, concebidos e gerados na esteira das tradições ancestrais, são cobertos com a roupagem estilística da modernidade, mantendo-se, contudo, a sua finalidade última: gravar, na mentalidade dos leitores, mais do que um mero apego, o firme acatamento aos valores mais altos, ínsitos em todo o ser humano. A tradicionalidade casa-se, desta forma, com a modernidade, surgindo, deste acto, um elo a ligar – numa escalada de sucessão descendente – as gerações do passado às do presente. É no museu da memória colectiva da cultura popular onde o autor consegue recuperar factos, factos esses que, a posteriori, são incorporados em macrotextos de estilo moderno, criando contos de raiz comum, imbuídos de um sopro vital que, qual «Sombra Transparente» (11), perpassa pelo país inteiro, insuflando-lhe um dinamismo endógeno em que os mesmos contos, transplantados do microcosmo rural e reimplantados no mais amplo espaço nacional, não sejam vistos como que parados no tempo.

PRESENÇA FEMININA
Outra característica, perceptível na obra em análise, talvez influenciada pelo permanente contacto com o seu ambiente profissional, é a de que na maioria dos contos (para não dizer em todos), verifica-se,  como que num ritual mágico, a presença feminina (a procriadora, a consoladora, a conselheira, a salvadora, em suma, a mãe: as Mamãs Sara, Matilde, Rita, e outras). Esses contos, onde o antigo – não é demais repeti-lo – conjuga-se explicitamente com a modernidade ( 1.«A placenta prodigiosa», 3. «A menina Kituxi», 6. «Um menino desconhecido», 9. «A reposição da verdade ecológica»…) surgem revitalizados não só graças ao uso dos signos (literários/estilísticos), criteriosamente escolhidos, mas também pelo constante registo de nascimentos subsequentes, dramáticos uns, líricos outros, mas que, em todo o caso, simbolizam a necessidade do advento de novos rebentos, prenhes de energia vital, a evocar o despontar, no horizonte angolano, de uma nova juventude radiante.
É sabido que os artefactos técnicos, usualmente utilizados neste género, não estão isentos de uma certa complexidade, complexidade essa que, no entanto, o autor, mercê de uma idiossincrasia sentida, diria onticamente, e de uma metodologia inclusiva, soube contorná-la, ofertando - numa visão de conjunto, cujo baricentro assenta no «espírito do kimbu» -  um alto nível de reflexão sobre tudo quanto é vivente. Reivindica-se, pois, não só o respeito – diria, talvez com maior propriedade, o direito – pelos humanos, mas também pelos animais («irracionais»), pelas plantas, rios, em suma, pela Natureza: «… é desde miúdo que o tio Kassule lhe ensinou a dar atenção ao colóquio com a natureza», 9. «A reposição da verdade ecológica», «… os habitantes das cidades iluminadas vão perdendo aos poucos o contacto com as maravilhas do céu», 2. «A estrela que caiu do céu».

UM ATENTO «MULÁNDUKE»
Graças a uma permanente introspecção sobre os princípios essenciais que sustentam a estrutura típica do conto africano bantu, ele, o autor, consegue apropriar-se do núcleo, dando assim expressão a contos modernos onde a carga tradicionalista é confrontada, pari passu, com os usos e costumes tendenciosamente seguidos pela nossa juventude do século XXI.
Paulo Adão de Campos soube, motu proprio, criar personagens do nosso kimbu actual, crescidas não só sob o fragor das guerras fratricidas, mas também das escabrosas influências exógenas, susceptíveis de contagiarem toda uma sociedade, com consequências imprevisíveis, dada a tendência, aberta ou velada, com que se apresenta, no intuito de  subverter os valores positivos, transmitidos pelos nossos ancestrais, atiçando, de modo permanente, para que os angolanos se transformem em lobos, matando-se reciprocamente.  (8. O sorriso perdido).
Daqui o aflorar de um triplo alerta: a uma Disciplina a toda a prova, contrapõe-se, outrossim, uma grande chamada de atenção dirigida não só à nossa «gloriosa radiante juventude do séc. XXI», mas também a todos aqueles que se julgam Angolanos, face a reais ameaças, de onde, por exemplo, a ingerência das mais diversas «seitas», a inocularem usos e costumes no mínimo muito estranhos, ponta de um iceberg de marasmos mais profundos, vivenciados e suportados no presente mas com presumíveis consequências irreversíveis, cronometrados para médio ou longo prazos. Ao lado, pois, de uma Disciplina férrea, juntam-se um vivo «juculumesso» (terem-se os olhos bem abertos) e um atento «mulánduke» (não se distraiam), sintetizados numa expressão, de grande alcance: «Talamaná» ( a Verdadeira Paz, vinda do Céu).
Ao descodificar mensagens que reflectem a identidade sócio-cultural angolana, o autor consegue extrair, da temática abordada, a essência, proporcionando, deste modo, à juventude angolana ferramentas de pensamento sustentável, aptas a catapultá-la para realidades que a leve a gerir sonhos de elevado engajamento patriótico, contribuindo, assim, para o real desenvolvimento do país, sem regionalismos, revanchismos, racismos e tribalismos («4. Os namorados que se «roubaram»»).
Em meu entender, e já para concluir, CMMK é uma obra ad hoc, feita a medida, em consonância com as preocupações sentidas pela actual juventude, ansiosa em se atrelar à via «mágica» do progresso e do bem-estar. Em síntese, e independentemente do que mais se poderia acrescentar sobre o assunto, a verdade é que CMMK é, em meu entender, um livro que, pela forte carga pedagógica que carrega e pelas mensagens de elevado teor moral e ético que insinua, julgo poder ser enquadrado num grande painel, iluminado, para reflexão generalizada.


BARROS NETO

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