Da crítica social ao paralelismo entre Kimbanda e fada madrinha

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Um levantamento em Balada dos Homens que Sonham

Balada dos Homens que Sonham, breve antologia do conto angolano

Abrindo cada vez mais possibilidades de diálogo com o leitor, o autor surge sorrateiro no campo do leitor ou estrondosamente mas sempre na posição de um voo oriundo de céus indefinidos e que, de repente, aterra interagindo com o campo imaginário deste, ou como invasor excêntrico que jamais abre mão do efeito surpresa causado pelo sabor da sua vinda repentina como acusam os contos de "Balada dos Homens que Sonham": «Por vezes, ao acordar, sinto que a minha alma não cabe no corpo» - Agualusa em 'O Corpo no cabide'.

Entretanto, o conto não deixa de seguir internamente a sua estrutura linear que o difere dos outros géneros da prosa.

O contista, sem sair totalmente da armação estrutural do conto e que regula como base ou fase primeira do mesmo, apura das profundezas da sua imaginação acrobáticos e rebuscados inícios e fins que oscilam entre o apelo à unidade de Vladmir Propp à denúncia da prisão da forma de Benedetto Croce, confirmando assim a riqueza do género e aumentando a problemática da sua sistematização.

Assim, o contista ultrapassou a forma, desceu substancialmente do cimo da sua alta montanha de idealização e, bebendo do trágico destino dos homens, aprendeu a fechá-lo com lágrimas, sangue, repulsa, surpresa, medo, loucura, morte e outras mais que findam no leitor, como vigora em alguns finais dos textos de "Balada dos Homens que Sonham": kota Mbaxi acaba na miséria em `A Nova sociedade' de Carmo Neto; o azar de uma mulher que é violada por dois homens em 'A Violação' de Albino Carlos; 'A Morte de Satito', com quem o sol também preferiu morrer, de Timóteo Ulika; a tetraplégica Marta Domingos (Maria da Graça) ou a louca de Caçule em 'A Última Ouvinte', de Gociante Patissa.

Em "Balada dos Homens que Sonham", a Literatura confirma mais uma vez a sua posição de lavra de preceitos edificadores, a sua eterna perseguição do idílico, a sua controversa utilidade (Arte pela arte/ utilidade da arte). A breve coletânea do conto angolano não foge à regra ao trazer no seu corpus textual um reparo crítico, uma alternativa de comportamento da sociedade angolana atual.

São textos imbuídos da alma da sua gente, trazidos ao leitor já condensados na moamba dos seus problemas como se verifica em contistas como Carmo Neto, Frederick Ningi e Roderick Nehome.

Carmo Neto leva a cabo em `A Nova Sociedade' e `Mana Carocha Malmequer' uma denúncia mordaz que emerge da plasticidade estética dos seus escritos às patologias do real de onde esta é oriunda.

Com um labor descritivo recheado de comparações que ensinam a olhar: «uma nova sociedade de homem aprumado que nem tropa em sentinela» ou
a «amenina Anita de lábios carnudos como a manga do Quéssua» a objetividade da escrita, umas das variantes de Poe para a construção do conto, não demarca no leitor o objetivo do autor que, em Anova Sociedade’, com tom vivaz e jocoso de linha a metamorfose do personagem Kota Mbaxi.

Não tão longe desta apologia, estão também Fredirico Ningi E Roderick Neohome. Este último, com Zezalí, protagonista de Catrapus, chama a atenção para a acentuada febre dos negócios e da dependência ao comodismo :«No princípio, andávamos só a pé».

Entretanto, a sátira de Carmo Neto continua em “Mana Carocha Malmequer’ num plano mais íntimo da sociedade angolana. Com Carochinha,  a protagonista, o contista angolano mostra-nos uma balança de peso entre cultura, amor e dinheiro coma estória de um amor por Joao Manuel, amado de Carochinha, contra a tradição (a voz do tio) e o dinheiro (general
de cinco estrelas).O amor

Para o contista, em “Balada dos Homens que Sonham”, a palavra, na temática do amor, provou ser uma bailarina Rina e hipnotizante, de um poder indefensável, e que, no uso desta, despe o leitor até ao coração. Eduardo Agualusa e E. Bonavena, ambos perspicazes e introspetivos, em movimentos sentimentais que abrigam e obrigam a ficar parado e absorto algures entre a distância do coração ao amor, através da subtileza da sua dialética e da imensidão sentimental dos seus personagens, proporcionam um verdadeiro encontro ao coração que vibra de carga existencial.

Em ‘A Derrota’ repetida em ‘Ombandja’, de E. Bonavena, o amor é a amada e a amada é tudo: «ela estava inscrita em todas as coisas». Já em ‘O Corpo no Cabide’, de Agualusa: «A fêmea do louva-a-deus assassina o macho por luxúria».

A linguagem como pedaço de nós

A linguagem aparece em “Balada dos Homens que Sonham” como objeto de identificação e diferenciação  do angolano perante os outros do mesmo idioma. A busca da angolanidade projeta-se através da fidelidade do discurso à maneira do angolano. Esta reluz mais ainda devido a elevação da obra ser de cariz internacional e apresentando um contraste por esta seguir o novo acordo ortográfico.

Assim, na breve coletânea do conto angolano, a nitidez do angolano aparece funcionalmente em terminologias como: «Fiticeiros, drumir» em ‘Casa-de-Orates’, de José Luís Mendonça, ou «ovisti,  aiué, mas nué, medequé, natras», em“Sadumingu- o nome de um miúdo” de Frederico Ningi, que atuam na obra como veículo de angolanidade.

A fórmula do final trágico

Como a vida é sinónimo da sua presença, a morte não foi deixada departe. Colocada na posição de objeto para a cessação e/ou satisfação de sentimentos negros, A mesma aparece estendida em toda coletânea.

Embebidos da veemente fórmula já apreciada por Byrone Poe, o Final trágico. É prato escolhido de alguns contistas de “Balada dos Homens que Sonham”. Apesar da sua alusão em Caim e Abel, o trágico é tido como uma herança das febres do Romantismo, movimento pelo qual atingiu valor estético, que vigora até em escritores da contemporaneidade.
Na breve coletânea do conto angolano, o final trágico é tecido como chave de ouro em ‘Ua Sasuama’, de João Tala, ‘A morte de Satito’, de Timóteo Ulika, ‘Aúltima Ouvinte’, de Gociante Patissa e ‘Samira Rosa e crítica Física’, de Zetho Cunha Gonçalves.

Uma imersível homenagem ao pai

Já desde a flagrante tentativa no título em homenagear a figura paternal, “Balada dos Homens que Sonham” é, em parte, na sua leitura temática, uma singela e imersível homenagem ao pai. Além do livro trazer no seu teor uma mão cheia de reflexos que denunciam a referida homenagem, outra particularidade é a de na seleção de Quino não constarem no nomes femininos.

A figura paternal aparece invocada como elemento insubstituível em ‘O Caminho do meu Pai’, de Timoteo Ulika, a Figura dinâmica que o tempo abate em‘ Balada ao Pai’, de Eduardo B. Pinto. Entretanto, esta figura aparece também na correnteza dos contos na lamúria das mulheres abandonadas, na sua defesa por  Kanga-massa em ‘Histórias e Memórias Desancoradas’ como no tio de Carochinha em ‘Mana Carocha Malmequer’.

O paralelismo entre kimbanda e fada madrinha

A presença do kimbanda, hoje pejorativo por via da educação positivista, já foi realidade recorrente em tempos passados .O ancião, o mais velho do bairro, o kimbanda era a “chave-mestra” na resolução dos problemas mais bicudos da aldeia.

Em “Baladados Homens que Sonham”, esta figura aparece, do ponto de vista funcional, na aplicabilidade das 7 esferas de Acão de Vladmir Propp, situada na segunda posição e identificada como a fada, ser de origem pagã, cuja função é auxiliar com poderes sobrenaturais o herói.

Nesta coletânea do conto angolano, o quimbanda aparece, funcionalmente, na posição paralela da fada, em “Sadumingu – o Nome de um Miúdo’, de Frederico Ningi, onde o protagonista para conservar o cargo e a fortuna recorre à proteção do kimbanda: «ele é um chefe que amarra pano na m´bunda.

Vai tomar banho nos quimbadas». em ‘Ua Sasuama’ de João Tala, é a protagonista, já de idade avança, que é acusada de conseguir um jovem marido coma ajuda do kimbanda visto ser uma missão difícil por não
possuir atributos naturais para tal proeza: «Na inveja dos outros lhe acusam de kimbandarias comuns taiskimbandas».

Entretanto, sem as limitações da fada madrinha, o kimbada recorre ao feitiço tanto para o mal como para o bem: «Oque os homens temem das mulheres é que se lhes enfie cornos ou se lhes prejudique com feitiços, e mais coisa nenhuma», João Tala em ‘Ua Sasuama’.

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