Da crítica social ao paralelismo entre Kimbanda e fada madrinha

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Um levantamento em Balada dos Homens que Sonham

Balada dos Homens que Sonham, breve antologia do conto angolano
O amor

Para o contista, em “Balada dos Homens que Sonham”, a palavra, na temática do amor, provou ser uma bailarina Rina e hipnotizante, de um poder indefensável, e que, no uso desta, despe o leitor até ao coração. Eduardo Agualusa e E. Bonavena, ambos perspicazes e introspetivos, em movimentos sentimentais que abrigam e obrigam a ficar parado e absorto algures entre a distância do coração ao amor, através da subtileza da sua dialética e da imensidão sentimental dos seus personagens, proporcionam um verdadeiro encontro ao coração que vibra de carga existencial.

Em ‘A Derrota’ repetida em ‘Ombandja’, de E. Bonavena, o amor é a amada e a amada é tudo: «ela estava inscrita em todas as coisas». Já em ‘O Corpo no Cabide’, de Agualusa: «A fêmea do louva-a-deus assassina o macho por luxúria».

A linguagem como pedaço de nós

A linguagem aparece em “Balada dos Homens que Sonham” como objeto de identificação e diferenciação  do angolano perante os outros do mesmo idioma. A busca da angolanidade projeta-se através da fidelidade do discurso à maneira do angolano. Esta reluz mais ainda devido a elevação da obra ser de cariz internacional e apresentando um contraste por esta seguir o novo acordo ortográfico.

Assim, na breve coletânea do conto angolano, a nitidez do angolano aparece funcionalmente em terminologias como: «Fiticeiros, drumir» em ‘Casa-de-Orates’, de José Luís Mendonça, ou «ovisti,  aiué, mas nué, medequé, natras», em“Sadumingu- o nome de um miúdo” de Frederico Ningi, que atuam na obra como veículo de angolanidade.

A fórmula do final trágico

Como a vida é sinónimo da sua presença, a morte não foi deixada departe. Colocada na posição de objeto para a cessação e/ou satisfação de sentimentos negros, A mesma aparece estendida em toda coletânea.

Embebidos da veemente fórmula já apreciada por Byrone Poe, o Final trágico. É prato escolhido de alguns contistas de “Balada dos Homens que Sonham”. Apesar da sua alusão em Caim e Abel, o trágico é tido como uma herança das febres do Romantismo, movimento pelo qual atingiu valor estético, que vigora até em escritores da contemporaneidade.
Na breve coletânea do conto angolano, o final trágico é tecido como chave de ouro em ‘Ua Sasuama’, de João Tala, ‘A morte de Satito’, de Timóteo Ulika, ‘Aúltima Ouvinte’, de Gociante Patissa e ‘Samira Rosa e crítica Física’, de Zetho Cunha Gonçalves.

Uma imersível homenagem ao pai

Já desde a flagrante tentativa no título em homenagear a figura paternal, “Balada dos Homens que Sonham” é, em parte, na sua leitura temática, uma singela e imersível homenagem ao pai. Além do livro trazer no seu teor uma mão cheia de reflexos que denunciam a referida homenagem, outra particularidade é a de na seleção de Quino não constarem no nomes femininos.

A figura paternal aparece invocada como elemento insubstituível em ‘O Caminho do meu Pai’, de Timoteo Ulika, a Figura dinâmica que o tempo abate em‘ Balada ao Pai’, de Eduardo B. Pinto. Entretanto, esta figura aparece também na correnteza dos contos na lamúria das mulheres abandonadas, na sua defesa por  Kanga-massa em ‘Histórias e Memórias Desancoradas’ como no tio de Carochinha em ‘Mana Carocha Malmequer’.

O paralelismo entre kimbanda e fada madrinha

A presença do kimbanda, hoje pejorativo por via da educação positivista, já foi realidade recorrente em tempos passados .O ancião, o mais velho do bairro, o kimbanda era a “chave-mestra” na resolução dos problemas mais bicudos da aldeia.

Em “Baladados Homens que Sonham”, esta figura aparece, do ponto de vista funcional, na aplicabilidade das 7 esferas de Acão de Vladmir Propp, situada na segunda posição e identificada como a fada, ser de origem pagã, cuja função é auxiliar com poderes sobrenaturais o herói.

Nesta coletânea do conto angolano, o quimbanda aparece, funcionalmente, na posição paralela da fada, em “Sadumingu – o Nome de um Miúdo’, de Frederico Ningi, onde o protagonista para conservar o cargo e a fortuna recorre à proteção do kimbanda: «ele é um chefe que amarra pano na m´bunda.

Vai tomar banho nos quimbadas». em ‘Ua Sasuama’ de João Tala, é a protagonista, já de idade avança, que é acusada de conseguir um jovem marido coma ajuda do kimbanda visto ser uma missão difícil por não
possuir atributos naturais para tal proeza: «Na inveja dos outros lhe acusam de kimbandarias comuns taiskimbandas».

Entretanto, sem as limitações da fada madrinha, o kimbada recorre ao feitiço tanto para o mal como para o bem: «Oque os homens temem das mulheres é que se lhes enfie cornos ou se lhes prejudique com feitiços, e mais coisa nenhuma», João Tala em ‘Ua Sasuama’.

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