David Capelenguela rumo à consagração

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Residente no quase além fronteiras do Sul de Angola, David Capelenguela é um poeta feito mas pouco conhecido e muito pouco lido nas grandes urbes do país em razão das malhas que o sistema tece.

Herdeiro da melhor poética brigadista de há trinta anos o David, sem cantalutar fez-se tarimbeiro das brigadas do Sul de Angola, nomeadamente: do Namibe, Huíla e Cunene. Chegou por empenho, desempenho e mérito próprio ao cargo de secretário geral da Brigada Jovem de Literatura da região sul Angola.

Assim sendo, independentemente de sério cultor da palavra poética, é também um responsável da própria vida literária de modo geral e sabe que estando no mundo artístico-literário, apesar daquele familiarismo agridoce a que nos referimos, está-se sempre irremediavelmente só. Mesmo quando o artífice passa publicamente a usufruir o estatuto social de Homem plural.

Tal como aprendi com o Mestre de quem o autor também é homónimo: poesia é poesia, rabisco é rabisco, conversa é conversa mas damos sempre um jeitinho para pôr conversa com poesia. E como tal, passemos para os títulos:

1-Gravuras Doutro Sentido, com prefácio da jornalista Cremilda de Assunção Pires é onde a poesia tende já a conquistar tonalidades diferentes ao cabo de 3 distintas gravitações nomeadamente: Ritmos de (sub)versão, desencanto livre e Apocalipse, mais a arte poética de Ruyi Duarte de Carvalho em jeito pós-facio.

No livro, se pode « depreender a essência de uma linha sequencial de elaboração poética compacta e fiel ao traço característico da geração que o fez poeta desta dimensão e do nosso tempo».

2-Tipo-Grafia Lavrada, com prefacio doutro jornalista que atende pelo nome de Hortênsio Kellus. Há a desnecessária justificação poética do autor através de Leituras E Colocações Plurais Da Memória, porque geograficamente É Sul Mas Aqui Ao Lado.

Na verdade, um livro de maior complexidade estética e como tal mais complexo de esmiuçar estruturalmente. Um livro onde, «a sua poesia decantada, e fluida de hinos e de dizeres de origem da sua própria existência, constrói-se tendo como ponto de partida a luz tecida do sol dos suis, a perceção movediça compacta e densa da seara oral que lhe confere o poder meta físico do tato incisivo interpondo-lhe na acutilante derivação do espaço ­ tempo ­ ser, os sonhos soberanos da memória, exílios e viagens na oralidade poética». E não podia ser doutra maneira, mesmo em razão da própria poesia.

São mesmo, sem medo de errar, dois títulos que indubitavelmente implicam um acréscimo à mais densa poética da modernidade angolana, onde um espesso enraizamento cultural, na senda da proposta Ohandanjiana, é ingrediente festivo.

Entretanto, aos menos atentos informo que precedem estes títulos dois poemários da editorial Nzila: Vozes Ambíguas, de 2004 e Acorda *nua de 2010, onde se lê no prefácio que: «Capeleguela exuma, experimenta, partilha e dá-nos a ver o seu edifício poético, no qual a ordem discursiva pende na fusão das poéticas, personagens temas e espaços ...»

Na sequência, acresce o prefaciador que: «O artista, nesta sua ousada proposta poética, explora uma linha de um texto artístico que pode ser consolidado nas fronteiras dos textos culturais aproximados à volta do tema central, o amor, que se dissemina, por um lado, no círculo de Vénus, para olharmos o texto da antiguidade grega ou ainda medieval e, por outro lado, no curandeiro (que) solta o chifre do boi sagrado para olharmos o texto tradicional oral, colocando no mesmo lugar a relação do poeta com o tempo e a memória, com a chuva e com a seca».

Convêm também referir que o nosso autor havia já sido antologiado em O Sabor Pegadiço das Impressões Labiais, da BJLA da Huíla, em 2003, e Dunas de Kalari, BJLA do Namibe, mais recentemente, em 2009.

Ao terminar, permitir-nos-ão a concisão e a clareza, pois recusamo-nos a enveredar pelas vias e vielas das «formo-morfologias e das morfo-formologias» do atual discurso (supostamente) crítico que ousa entre nós e tende a imperar por aqui. Pensamos que no momento do aval criterioso, para satisfação e governo dos nossos leitores, em cima de tudo (como diária um conhecidíssimo futebolista internacional angolano...) em cima de tudo...a concisão, a clareza e a correção são motivos indispensáveis e fundamentais.

O senhor David tem todos e mais alguns atributos para ser um vate a todo o terreno, querendo assim dizer um vate a toda a página.
Telurismo, um enraizamento cultural espesso, domínio da palavra poética, visível equilíbrio entre os motivos de ordem ética e os de natureza estética, refinado conseguimento metafórico e toda uma série de invisíveis matreirices poéticas são atributos que dele farão autor consolidado e de estilo próprio pelo que: testemunhamos aqui e agora, David Capenlenguela, rumo à consagração!


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