Defronte ao mar A solidão do silêncio

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No voo TAAG, Lisboa Luanda - já dentro do avião, o meu amigo, sempre acompanhado da sua querida companheira, desabafou para os seus botões:

Uma das maiores recompensas da viagem é quando regressamos a casa, para a tranquilidade dos confortos caseiros e da nossa própria cama; vermos as plantas do nosso jardim transmitindo o calor verde dos seus afetos e no caso do meu querido amigo, que é um marujo militante e mora à beira-mar, a maresia e o azul verde da sua praia lhe apressavam sempre a saudade e o caos provocado pela desarrumação dos seus livros, nas suas estantes e os quadros cheios de vida e cor, pendurados nas paredes dos andares da sua enorme casa.

A varanda da sua suite, defronte ao mar, era o lugar que ele mais apreciava. Era o lugar predileto das suas elucubrações. O que o fazia elucubrar, naquele bendito e sagrado lugar da sua casa, era o feitiço que só aquele lugar tinha: as melodias proporcionadas pelo farfalhar dos ventos leste e do oeste contra as palmas dos coqueiros, que digladiavam na varandinha da sua suite, misturadas com as marulhadas das ondas, dependentemente dos dias e das horas.

A varandinha da sua suite, mais do que o seu estúdio/biblioteca apinhado de livros, quadros e outras quinquilharias, dava-lhe o prazer enorme de produzir viagens no mundo do sem fim e chegar sozinho na solidão das conclusões. Em suma, a sua varanda era o lugar dos matutanços diários. Ali, era o lugar ideal para intestinalizar a vida, para chegar sempre à condição solitária doutro planeta: a solidão do silêncio.

É raro ­ dizia o meu amigo: não é comum encontrar silêncio em qualquer parte de uma paisagem natural, porque há vento que sopra, há o sussurro das árvores e da erva, o zumbido dos insetos, o chilreio dos pássaros!... O verdadeiro silêncio, na verdade não existe. Mesmo no fundo do mar!...O seu chão é o seu caixão.

Continuou o meu amigo, com os seus botões, matutando: qualquer homem é antes de mais, estrume do seu chão, contemporâneo de si próprio e da sua geração, e é, também, contemporâneo do grupo espiritual a que pertence.

E muito mais ainda, no caso particular do amigo do meu amigo: ele é um artista no sentido lato da palavra. E ele, no dia a dia, se assumia como tal ­ e para ele, esses antepassados e esses amigos, são potencialmente uma presença inseparável, e não uma mera recordação. Para lá do tempo, para lá dos lugares e das coisas.

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