Desejos de aminata quando o erotismo é pura arte poértica*

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“Se no gesto de ultrapassar a aparência do primeiro olhar ele se sente transgressor, é porque há um segredo a descobrir, um sistema desencadeador desconhecido, um aquém do texto escondido pela escrita que cobre um tesouro”
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Desejos de aminata quando o erotismo é pura arte poértica*
Lopito Feijóo com o poeta José Carlos Vasconcelos Fotografia: Paulino Damião

I. – ENTRE O CANTO AO AMOR E A POESIA: BREVE INTRÓITO ÀS COISAS DA ALMA

“ NUDEZ
É demais, teu sorriso marfim / Esses lábios carmim, essa tua voz de gueixa / Já tentei afastar-me de ti / Mas o amor vive em mim, minha alma não deixa // Por causa desse olhar sedutor / Não controlo e vou indo nesta insensatez / É ardente, é voraz, tentador / Meu desejo por tua nudez // Hoje, enfim, resolvi sem pudor / Confessar meu amor e expor-me ao perigo / É paixão de tão alto teor / Já não posso supor ver-te mais como amiga // Sei que em teu coração há alguém / E tu sabes também que o meu é o teu cais / Mas o fogo do amor vai além / Onde a luz da razão é incapaz // Ontem à noite senti-me o teu invasor / E o teu corpo na cama eu profanei / E fizemos um amor voraz, tão fora da lei / Vivi meu sonhar logo que acordei // Este amor fez de mim transgressor / Ao dormir no calor de um amor proibido / Reparei teu olhar delator / Que me mostra que sim, que o amor é contigo // Absurdo pensar em razão / Quando o amor convida à embriaguez / O melhor é deixar a paixão / Levar-nos à loucura de uma vez.”

II. – O QUE DIZEM OS DESEJOS DE AMINATA?

Consideramo-nos leitores impenitentes de poesia no geral e, em particular, da poesia de Lopito Feijóo. Por esta razão corremos e assumimos dois riscos: 1. – aceitar o convite que nos foi formulado pelo autor para apresentarmos o seu mais recente livro de poesia; 2. – decorrente do primeiro risco, ler (não apenas uma leitura lúdica, mas sobretudo uma leitura subterrânea) em poucos dias 40 poemas, sendo cada um deles um hino ao amor que o autor nutre à sua musa, sua amada, sua esposa: Aminata.
E é neste papel de leitores impenitentes, teimosos e amantes da análise do texto literário, que vamos tentar, no dizer de Bachelard, “violar o segredo das forças ocultas, olhando pela fenda dos textos” que conformam os Desejos de Aminata.
Faremos tal “violação”, socorrendo-nos das ferramentas da estética da recepção, ou seja, com base na teoria do texto. Isso permitir-nos-á detectar a tensão existente na poesia de Desejos de Aminata, pois, como diría Allen Tate, “muitos poemas que geralmente temos em conta de boa poesia – e alguns, ademais, que negligenciamos – têm certos aspectos em comum que nos permitirão inventar, para uma percepção mais aguda deles, o nome de uma qualidade singular. A esta chamarei de tensão.”
Ora, desde logo importa referir que o livro que temos em mãos é uma proposta ousada de poesia lírica, com profundos rasgos de erotismo muito bem construídos, que cria rupturas nos cânones da poesia lírica angolana , e estabelecendo pontes, que são sempre muito ténues e naturalmente instáveis, entre o amor carnal e o platónico.
Contrariamente ao que acontece nos textos em prosa, na poesia e mais ainda na poesia lírica não são tão usados “os mecanismos que garantem a coesão sequencial por progressão através de encadeamentos (sobretudo por conexão)” ; em boa verdade, são mais usados os chamados “mecanismos por progressão através de manutenção temática e os de sequenciação por recorrência, alguns dos quais têm alta frequência, como a recorrência de termos, estruturas e recursos fonológicos…”
Nesse sentido, os Desejos de Aminata são verdadeiras construções poéticas, erupções vulcânicas que rompem as silenciosas cortinas do mero intimismo e assomam à superfície desnuda, crua e inquieta dos grandes amores; os Desejos de Aminata são autênticos despejos ou descargas de avassaladora paixão, erigidos magistralmente, numa linguagem poética escorreita, esteticamente bem conseguida, aliás, algo a que Lopito Feijóo, enquanto cultor da palavra, nos foi habituando ao longo dos anos de árduo laboral oficinal.
Como escreveu Umberto Eco , em o Tratado Geral da Semiótica, o uso estético da linguagem merece atenção por várias razões: manipulação da expressão, reajustamento do conteúdo, função sígnica altamente idiossincrátrica e original, que provoca mutação de código, nova visão do mundo, e representa um retículo de atos locutivos ou comunicativos.
Efectivamente, os poemas constantes do livro, enquanto textos estéticos, são inquestionáveis exemplos de invenção ou reinvenção da linguagem. Bons e inusitados casos de tal (re)invenção da linguagem povoam o livro: “fonemisa-se o por / vir”; “Eis-te pornofónica…”; “este anjo de asas esferovíticas”; “Na senda do dilúvio pornofálico”; etc.
Por esse mesmo motivo, o uso estético da linguagem por parte de Lopito Feijóo neste seu livro, levou-nos a dirigir um olhar bastante atento à forma como manipula a expressão, reajustando os conteúdos dos seus poemas, dando-lhes a originalidade e a idiossincrasia necessárias, oferecendo novas leituras, novas visões do mundo.
Passemos à apresentação analítica de alguns dos poemas paradigmáticos do discurso poético construído por Lopito Feijóo neste seu livro, como forma de ilustrar o que vimos afirmando até agora.
A páginas 11 pode ler-se Onda Fálica, que, como sugere o título, remete-nos para o texto de conteúdo erótico, porém formalmente bem construído, deixando clara uma grande preocupação estética.
Neste poema, tal como no processo de criação divina do mundo, tudo começa pelo verbo, “digitando versos / entre as coxas” e “debitando rimas / escorreitas /…”. E isso é feito de tal sorte que comove “..a agilidade / do tacto / voluptuoso”, uma vez que “de pilares fálicos / fonemisa-se o por / vir”. E termina essa onda fálica “na circunscrita extensão / dos secretos territórios!”.
O final do poema não podia ser melhor ou mais feliz.
Na sequência, o poema da página 13 é outro hino ao amor; aqui o poeta constrói em 13 versos o seu arquétipo de mulher, que designa de onda bronzeada, assim descrita: “Negra quase encaracolada / semblante misterioso /…” e conclui dizendo: “eis a mulher da minha vida”.
Outro texto que ilustra de modo inequívoco o que vimos referindo, é o poema Diariamente, a páginas 24.
Sugerimos que nos detenhamos agora um pouco na análise dos poemas das páginas 30, 32, 33, 34, 35, 37, 45, 50, 51e 52.
Posto isto, dirigimo-nos então inexoravelmente para o fim da nossa fala sobre a fala de Lopito Feijóo em Desejos de Aminata.
E essa fala, a nossa e a do Lopito, sendo esta última por sinal a principal, a mais importante, conforma o quadrilátero da linguagem, aqui entendida na sua dimensão de proposição, de articulação, de designação e de derivação, como muito bem explicita Foucault.
Dito de outra maneira: nos poemas de Desejos de Aminata a articulação dá conteúdo à forma verbal da proposição; a designação serve de ponto de ligação de todas as formas nominais que a articulação separa ou recorta; a derivação mostra o movimento contínuo das palavras a partir da sua origem; finalmente, a derivação retorna à proposição, completando-se o ciclo da linguagem poética ou, mais bem dito, da fala poética do autor.
E em se tratando de fala, não queríamos terminar sem assegurar-vos que Barthes tinha bastante razão, quando advogava no seu Rumor da Língua, que “a fala é irreversível, é essa a sua fatalidade. O que foi dito não se pode emendar, salvo se for aumentado: corrigir é, aqui, estranhamente, acrescentar.” «A esta singular anulação por acrescentamento chamarei “engasgamento”» .
Por isso é que “imagino-me hoje um pouco à maneira do antigo Grego, tal como o descreve Hegel: ele interrogava, com paixão, sem descanso, o rumor da folhagem, das nascentes, dos ventos, em suma o frémito da Natureza, para nela perceber o desenho de uma inteligência. E eu, é o frémito do sentido que interrogo, ao escutar o rumor da linguagem – desta linguagem que, homem moderno que sou, é a minha Natureza.”
Agora que nos prestamos a terminar estas palavras de apresentação do presente livro é que nos damos conta que todo este exercício não valia a pena ser feito, pois a melhor apresentação de Desejos de Aminata seria ou é a leitura atenta de cada um dos seus poemas.
Passemos então à fruição estética de tão belos textos poéticos, sempre na certeza de que “O homem não pode falar o seu pensamento sem pensar a sua fala”, na esteira de Bonald, citado por Roland Barthes, em o Rumor da Língua . E é o que acabo de fazer: pensei a minha fala e falei o meu pensamento.

Luanda, 18 de Fevereiro de 2015.

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