Desempenho docente

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Só a escola inscreve, no caminhar sempre diante da condição humana, o retorno, o regresso ao legado cultural do passado e, assim, dá continuidade ao elo da criação.
OLGA POMBO

Desempenho docente
Escola debaixo da pedra

1. Imaturidade universitária

A educação é um direito elementare uma condição fundamentalpara o progresso sustentado de qualquer nação. Com efeito, nenhum país sedesenvolve, económica e socialmente, sem um investimento sistémico na formação dos cidadãos, com o objectivo de transformá-los num capital humano de excelência.
Este processo envolve não só as orientações governamentais mas também os alunos, as Associações de Estudantes, os professores, os encarregados de educação e a sociedade.
Na verdade, muitos estudantes que frequentam o ensino superior mostram-se afáveis, com espírito de obediência, mas revelando, principalmente nos primeiros anos, uma manifesta insuficiência de conhecimentos académicos; uma ténue perspectiva de futuro; a ausência de hábito e método de estudo, aliados à preguiça mental, o que lhes coarcta a vontade para trabalhar de forma séria.
Ora, é sabido que o estudo metódico confere ao aluno maiores possibilidades de um óptimo desempenho académico, já que as excelentes classificações são a consequência do trabalho organizado e continuado.
Não obstante, alunos há que tardam em adquirir maturidade universitária, isto é, consciencializar-se de que, para se formarem superiormente, é fundamental que trabalhem de forma dedicada, continuada e responsável.
A sua postura amorfa traduz a ideia, por estes inculcada, de que, para garantirem a transição para o ano académico seguinte, bastou terem efectuado a matrícula, tornando-se evidente que esta forma de pensar contraria o que fora preconizado pelo sábio Albert Einstein: «O único lugar onde sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.»
Essa imaturidade é verificável, por exemplo, no esbanjamento de todas as possibilidades de êxito, que lhes são proporcionadas, ao longo do ano lectivo, por meio de provas e de trabalhos de avaliação de conhecimentos, acreditando no milagre da aprovação nas Provas de Recurso, numa atitude clara de quem chega habituado ao facilitismo nas aprovações!
Não é incomum os alunos, após verificarem que a prova “milagrosa” não lhes correu de feição, entregá-la, solicitando ao docente: «Corrija com carinho!», e, no final da época escolar, perseguirem os professores, implorando misericordiosamente a benesse da aprovação, sem terem feito por isso durante o ano lectivo!
Este tipo de procedimento têm-no, também, alguns alunos bolseiros que, perante a iminência da reprovação, abordam o docente, rogando a imperativa aprovação, alegando, em sua defesa, nada mais do que a ameaça da perda do benefício financeiro que usufruem; ao que o formador responde: «Se és bolseiro, tinhas o dever de ter trabalhado seriamente, para justificares a confiança que foi depositada em ti!»
Neste âmbito, além dos docentes e encarregados de educação, em particular, e da sociedade em geral, as Associações de Estudantes podem desempenhar uma acção relevante. Com efeito, sendo a função destas a prossecução das melhores condições para o estudo, esgrimindo para que a comunidade estudantil disponha decondições materiais e imateriais que a coadjuve no seu percurso académico, como infraestruturasadequadas e a organização de convívios, as agremiações estudantis devem debater a atitude letárgicada tamanha quantidade de alunos desinteressados.
Seria interessanteas Associações apresentarem em plenário, por exemplo, as reais e subjacentes causas para a inércia dos estudantes desmotivados:
- Por razões subjectivas, não se conseguindo inserir no ambiente da escola que escolheram?
- Sendo o curso superior, profissional, ou de outra índole, a antecâmara da profissão que irão exercer, será que o currículo académico que os alunos têm de perfazer não corresponde às suas expectativas iniciais?
- Por falta de acompanhamento familiar?
A fim de despistar eventuais inaptidões ou desmotivações,é fundamental que o jovem candidato ao ensino profissionalizante, escolha o estabelecimento de ensino e o curso, tendo auscultado, previamente, a sua vocação profissional, e não unicamente encantado pela futura fruição da condição financeira que o diploma lhe conferirá!

Autodidactismo
Os alunos desencantados pela exigência do ensino profissionalizante devem pôr em prática as seguintes duas medidas, perfeitamente ao seu alcance: assiduidade às aulas e autodidactismo, isto é, aprender pelo simples prazer de saber mais.Se esta segunda medida pedagógica deve ser interiorizada por todos os formandos, independentemente da idade e do contexto escolar em que estiverem inseridos, impõe-se como de extrema importância para os estudantes com dificuldades de aprendizagem!
Neste capítulo, apresenta-se como de iminente importância a realização, pelos meios académicos, de Feiras de Profissões. Com efeito, esses certames, através de expositores e funcionários qualificados, cativam os discentes, sendo-lhes explicadas as saídas profissionais que osaguardam, sensibilizando-os para a imprescindibilidade de umaconduta académica esclarecida e responsável!
Por outro lado, para que uma comunidade educativa funcione em pleno, é imprescindível a cultura de um sublime relacionamento entre os docentes e discentes, pois, além do mais, estes passam a maior parte do seu tempo intramuros escolares.  
Efectivamente, os professores e os alunos não permanecem juntos apenas em situação de aula; pelo contrário, encontram-se sobejas vezes nos espaços comuns da escola. Sendo esta uma realidade socializante na qual ambas as partes estão inseridas, afigura-se imperiosa uma relação profícua, que possa deixar impressões positivas quer nuns quer noutros!
Neste contexto, quandoum professor pauta a sua carreira académica por uma relação de cordialidade e companheirismo para com os alunos, permanece na mente dos mesmos, tempos depois de terem concluído os seus estudos.É esta particular natureza da educação quefaz do formador um ser imortal!
Competência pedagógica
Mas, para se chegar a este estado “olímpico”, há, como em tudo na vida, um investimento a concretizar. No caso dos docentes, o investimento é a prossecução de competência pedagógica!
É de salientar que há professores que, leccionando conteúdos programáticos condizentes com o seu pelouro técnico-profissional, revelam um perfeito domínio da matéria a ministrar. Todavia, descuidam o cultivo de um relacionamento recomendavelmente humano com os formandos.
Uma das razões conjecturáveis para este tipo de procedimento é a de o professor encarar o aluno unicamente como potencial técnico, descuidando, deste modo, a componente globalizante da educação que é a de elevar o aluno da sua consciência individual para a colectiva e desta para a consciencialização do cosmos. E isto só se torna possível pela promoção de uma comunicação fluída entre ensinante e aprendente.
Neste âmbito, a acção dialogante do formador injecta no discente um espírito crítico, facilitador da assimilação dos conhecimentos ministrados, que lhe permitirá movimentar-se, com êxito, neste mundo em permanebte mutação!
Doutra forma, a conduta meramente técnica do formador redunda em dois tipos de comportamentos opositores ao sistema de ensino-aprendizagem: por um lado, muitos estudantes tendem e considerar o docente “chato” e as suas aulas “uma seca!”; por outro, o próprio professor, não experienciando o calor humano nas suas sessões, propende a atrasar-se para as mesmas ou, pior, faltar amiudadamente.
Consequentemente, os períodos de ausência do mestre da sala de aulas, por sucessivos atrasos ou abstenções, conduzem-no a debitar os conteúdos programáticos de forma apressada, perante o compromisso de os administrar na totalidade.
A propósito, recordamo-nos de uma conversa entre dois estudantes, na Livraria Lello, na Baixa da cidade:
- Ainda bem que aqui existe o livro que aprofpediu! – Avança o rapaz alto, emagrecido, mirando a obra no expositor.
- Eh pá! Esse book é bem grosso! – Exclama o companheiro, de “orelhas de abano” e igualmente alto.
- Mas não vamos dar todo!– Tranquiliza o primeiro, folheando o solicitado livro.
- Não tou a perceber. Se não é praler todo, pra quê que ela exigiu para vocês comprar? – Insiste o amigo, percorrendo, com o olhar, o resto da loja.
- Ela escreveu no quadro os capítulos que vão sair na prova. – Esclarece o comprador, enquanto confirma, no índice, as matérias solicitadas pela docente.
- E vais ter que levar o livro na próxima aula, certo? – Volta à carga o segundo aluno, consultando as horas pelo telemóvel,guardado num dos bolsos de trás da calça de ganga.
Enquanto os jovens conversam, efectuámos o pagamento da obra seleccionada.
- Achas? Na aula não vamos ler nada deste livro! – Responde o magricela, encaminhando-se para o balcão.
- Cumo assim?
- Oh pá! A profdisse-nos que o programa é grande e que não há tempo para ler livros na aula, mas avisou que no teste vão sair perguntas destes capítulos!
O segundo elemento, sacudindo a mochila para a ajeitar às costas, não se conteve:
- E se tu, na hora de leres o livro, tiveres dúvidas?
- Vira essa boca pralá, se não tou paiado! Os meus kotas num tão nem aípra me esclarecerem.
- Inda se tivesses apontamentos das aulas! –Adianta o ouvinte, dando uma palmada num dos ombros do preocupado camarada.
Entretanto, guardámos o livro comprado na pasta e caminhámos para a porta de saída.
- Memo que tivesse os apontamentos,num iam dar pra positiva porque a prof. disse que a maior parte das perguntas iam sair deste livro! – Afirma, com cara de apreensão, entregando os kwanzas ao livreiro.
- Mas podem te ajudar a entenderes o book! Pede emprestado o caderno na Josefina!
Lá fora, o docente dialoga com um grupo de jovens que dele se acercam, perguntando-lhe: «Pai grande, livros escolá?» - «Ando à procura de um dicionário Kimbundo-Português; vocês têm?» - «Não, kota; esse aí que falaste numtemos.» - «Já agora, digam-me uma coisa: qual a vantagem de as pessoas comprarem os livros a vocês e não lá dentro?» - «É que nós vendemo os livro mais baratoporque a livraria paga os imposto!» - Responde prontamente o que enverga uma t-shirt preta. - «Hum! Estou a perceber!» - Verbaliza o docente. - «Tem outra coisa, pai: às vez, a gente arranja os livro que a loja já num tem!» - Finaliza um dos três vendedores, ajeitando o livro cimeiro da pilha de obras que agarra com um dos braços.
Entrementes, os dois estudantes passam, mantendo a entusiástica conversa:
- Sabias que tenho um prof.que os testes dele são escritos com a mão? – Interpela o aluno que nada comprara.
- A sério?
- Tou ta falar! Mas tamém já é kota! – Esclarece o das orelhas salientes, enquanto contornam o edifício em direcção à marginal.
Na realidade, alguns professores, por método ou atraso na explanação da matéria, não analisam, ainda que superficialmente, as partes da obra solicitada aos alunos, recomendando-lhes, simplesmente: «Estudem da página x a y!» ou «Leiam os capítulos x, y e z, porque vão sair na prova!», infligindo aos alunos uma sensação de orfandade, perante o “nó górdio”que vão ter de desatar sem a informação contextualizada do mestre.
No circuito universitário, este procedimento é aceitável não só pela extensão do programa a ministrar, mas, sobretudo, porque se espera que o estudante do ensino superior seja o maior investidor na procura do saber, desempenhando o catedrático a função de fornecedor das bases, do conhecimento a adquirir pelo discente, de orientador e, principalmente, de motivador dessa pesquisa.
Ainda assim, afigura-se contraproducente apresentar aos alunos uma prova em que a maioria das questões contempla a informação livresca recomendada aos mesmos, sem ter sidofeita, superfluamente, qualquer abordagem a essa matéria, no espaço de aula.
A quem aproveita este tipo de constrangimento?
O que é que se pretende avaliar com esse modus operandi: o que os alunos efectivamente sabem, porque tiraram apontamentos nas aulas, ou o que, supostamente, não sabem, pois não existe alguma garantia de que a leitura recomendada seja cumprida?
Ainda que o professor, no decurso das aulas vá auscultando sinais de que a tarefa da leitura está a ser acatada, como incluí-la, na totalidade, na prova, sabendo o docente que não dispensara, aos formandos, qualquer minuto para o esclarecimento das dúvidas suscitadas pelo cumprimento da leitura por si recomendada?
Daqui resultam duas ilações que devem merecer a atenção do docente: a primeira é a de que a imposição de leitura de livros escritos por teorizadores deve ser antecedida de uma, ainda que breve, contextualização com a qual o mestre estabelece a “ponte” entre o aprendizado no espaço de aula e a informação veiculada pelos autores. Agindo desta maneira, confirmará à turma o seu vasto conhecimento, alicerçado em leituras complementares, e conseguirá com que os formandos, confortados pela contextualização prévia do professor, se sintam motivados para alicerçar os conhecimentos recebidos, afeiçoando-se, então, pela pesquisa bibliográfica.
Outra realidade é a do aconselhamento de consulta de obras complementares de referência, como dicionários, enciclopédias, livros técnicos, etc., que não carecem deanálise na aula, cuja consulta cativará o interesse dos melhores alunos, além de ir constituindo o útil acervo livresco que o estudante universitário deve ir reunindo.
A segunda conclusão a ser tirada é a da inconveniência de o professor fazer do livro recomendado a base da avaliação escrita dos discentes, partindo do pressuposto: «Nas aulas fui recomendando a leitura dos capítulos indicados, e os alunos têm que os ler! Por isso, estou à-vontade para incluir no teste a totalidade da informação aconselhada!»
Esta atitude levanta questões deste tipo:
- Terão, todos os alunos, disponibilidade financeira para adquirir todos as obras solicitadas pelos diversos docentes?
- Onde está a atenção - que não se deve descurar - para com a pluralidade de formandos que, por motivos profissionais ou da vida privada,vão frequentando as aulas, aos soluços, não se dando conta de que o docente x recomendou o livro y?

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

*Docente universitário.


Mário Araújo | *


 
In Maria do Carmo Vieira, O Ensino do Português. Lisboa: Relógio D`Agua Editores, Colecção Fundação Francisco Manuel dos  Santos,  2010,  p. 9.    Consideramos existir uma analogia entre o tipo de relação conjugal e a vigente na dupla docente / discente. Efectivamente, conforme o homem “faz” a mulher e esta o marido, também o discente tem o que aprender com o docente e este com o discípulo, concretamente no que concerne à metodologia. Nessa medida, cultivamos o hábito de, no final de cada ano lectivo, solicitar aos discentes um texto avaliativo da forma como decorreu o ano lectivo. Desse hábito, temos recolhido informação que nos tem permitido melhorar a nossa competência docente:

“Luanda, 6 de Novembro de 2014
Caro professor,

O ano lectivo corrente foi bastante positivo para mim, pois pude apreender conhecimentos amplos sobre várias matérias que nos foram transmitidas.
O professor implementou um programa de aulas diferente daquilo a que estávamos acostumados a receber; sem disprimor aos outros docentes que contribuíram e muito bem por cada “degrau” concernente a nossa formação, digo que inovou a forma de ensinar Língua Portuguesa; outrora estávamos acostumados independentemente do grau académico a receber praticamente a repetição daquilo que já havíamos apreendido em anos anteriores. Não que as matérias não tivessem relevância, atendendo ao facto de que usamo-las a todo momento nas relações entre as pessoas por meio da comunicação, é deveras positivo que nos fossem passados estes conhecimentos, porém o professor Mário foi para além daquilo que já estávamos acostumados a ver; aprendemos coisas que ampliaram bastante o nosso conhecimento.
Hoje em dia já podemos fazer um requerimento, uma carta “reclamação”, um contrato de arrendamento ou de promessa-compra e venda etc. com o minino de perfeição, pois o professor preparou-nos para tal; fostes sempre dedicado e incansável, em toda a minha vida de estudante não conheci muitos professores que abdicaram em passar parte do dia com a família para dar aulas de apoio aos alunos, aulas com dedicação, amor e todo um ambiente saudável criado para que nós como estudantes, deixássemos de descansar um pouquinho mais ao sábado para dela participar ainda que esta não exigisse a condição de obrigatoriedade.
Fizestes muito por nós e assim sendo, pode estar certo de que sempre lhe vamos lembrar com muito amor e gratidão; gratidão, pois fizeste-nos descobrir qualidades que desconhecíamos; com a defesa das notícias, sobre casos de justiça, pudemos afirmar-nos e pensar que se algum dia tivemos dúvida relativamente se o curso de Direito era ou não a nossa vocação, foi de facto inutil alimentar esta incerteza, pois estamos no caminho certo! Despertastes o melhor que havia em nós, superamos a timidez, a insegurança e todos os sentimentos que nos faziam sentir inferiores, bloqueando as nossas qualidades e assumimos o desafio demonstrando uns aos outros que sim! Nós podemos.
Quando o ano lectivo começou eu estava completamente fragilizada, um pouco “perdida” sem saber qual rumo tomar, por um facto que abalou-me bastante, abalou-me de tal forma que até pensei na possibilidade de anular o ano lectivo.
Motivada por pessoas que sabiam o que se estava a passar comigo decidi dar a conhecer aos professores de modo a justificar a minha ausência e fazê-los entender que eu não era mais “uma turista”, que realmente tinha problemas daí a minha falta de assiduidade, queria apoio, precisava de ajuda, de um “ombro”.
Dirigi-me a um professor e surpriendi-me, pois não era somente um professor, era também um PAI que recebeu-me de braços abertos, recebeu-me como filha, aconselhou-me a seguir em frente e ser forte, deu-me a oportunidade de integrar-me na sala de aulas, um pai que notava quando eu não me fazia presente e motivava-me de modo a que eu não desistisse até que finalmente consegui superar as ausências e pude firmar-me ao mesmo ritmo que os meus colegas.
Palavras jamais serão suficientes para agradecer o quão bondoso e paciente foi comigo; o professor não limitou-se a aconselhar-me mas caminhou comigo até ao fim. Jamais hei-de esquecer-me deste gesto, no momento em que mais precisei a ajuda veio de onde menos esperava um suporte que fez a diferença.

Com amizade,
Mirella Chimupi»




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