Dia Mundial da Poesia reúne poetas e leitores

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Instituído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1999, o Dia Mundial da Poesia é um tributo à palavra poética, género literário que se apresenta como a manifestação da beleza ou a estética por meio da palavra. A data é geralmente assinalada por todo o país com leituras, conferências, concertos e exposições.

Instituído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1999, o Dia Mundial da Poesia é um tributo à palavra poética, género literário que se apresenta como a manifestação da beleza ou a estética por meio da palavra. A data é geralmente assinalada por todo o país com leituras, conferências, concertos e exposições.
A ocasião foi aproveitada pelo Memorial Dr. António Agostinho Neto (MAAN) para lançar a primeira edição da Feira da Poesia Angolana, que decorreu de 21 a 25 de Março, um certame que se pretende anual. O evento teve como lema "Criar, Criar Amor com os olhos secos....", um poema de António Agostinho Neto, do livro Sagrada Esperança. E coube exactamente a poetisa e viúva do primeiro Presidente de Angola, Maria Eugénia Neto, declamar o poema que dá mote à feira da poesia nacional.
Exposição de livros, concertos, debates, recitais e trova foram os atractivos da primeira edição do certame que procurou congregar alguns nomes consagrados da poesia nacional, com destaque para João Tala, João Maimona e Amélia da Lomba, esta última que apresentou recentemente "Antologia", e que teve um "stand" reservado à sua produção poética.
De acordo com o Presidente do Conselho de Administração do MAAN, Jomo Fortunato, o objectivo da feira é a promoção do gosto pelo texto poético, sobretudo na juventude, que é afinal o público-alvo do evento que se pretende anual. "O foco é o texto poético, mas queremos uma feira generalista, porque ficava redutor dedicar só o evento exclusivamente ao livro poético", diz o responsável.
Jomo Fortunato explica que se promove no certame poesia produzida do mais antigo ao mais novo, reforçando assim uma ponte entre os autores consagrados e os mais recentes, numa interacção que se julga necessária e fundamental. "Incentivámos as editoras a trazerem, por exemplo, livros dos nossos poetas modernistas, que inauguram o próprio fenómeno literário como Maia Ferreira até, por exemplo, Lopito Feijó e Amélia da Lomba", refere.
A inauguração da feira reservou uma visita guiada aos stands dos expositores, seguida de um concerto com o cantor e compositor Romeu Miranda, que recentemente procedeu o lançamento do primeiro CD, “Histórias de amor”, no MAAN. No domínio da música, a Feira da Poesia Angolana reservou espaços a artistas que trabalham com o texto poético, como são os casos de Romeu Miranda, Pascoal Mussungo, Costa Maweze, NZambi Paulo, Jesse Fernandes, que durante os dias do certame subiram ao palco para musicar poemas de autores nacionais.
Entretanto, a coordenadora do evento, Alice Beirão, agradeceu à presença de todos, em especial às livrarias e às editoras por acederem ao convite, tendo referido que o certame é, no fundo, um projecto literário que visa promover a poesia e os poeta angolanos, complementando o ciclo de promoção e aumento dos hábitos de leitura, no domínio da poesia e, consequentemente, o debate literário à volta das questões criativas. "É uma oportunidade impar de convívio e de intercâmbio cultural entre poetas de todas as gerações, abrindo inúmeras oportunidades entre os editores, produtores e livreiros", diz a responsável, para quem a feira serve ainda para facilitar o acesso a títulos bibliográficos da poesia nacional e debater a história e a teorização do fenómeno poético.
Ao poeta Bendinho Freitas coube proferir uma palestra sob o tema "Dimensão intemporal da poesia de Agostinho Neto" e mostrou-se, antes, feliz pela iniciativa que espera que tenha a devida regularidade. "É uma iniciativa de louvar. É ainda um grande impulso no incentivo à leitura, sobretudo da parte dos mais jovens", afirma, avançando mesmo que o evento dinamiza a alma cultural da cidade e do homem angolano. "Ajuda no diálogo com os leitores de modo a identificar a visão dos escritores dentro do universo cultural", diz o autor de “A pitoresca etnia das palavras” (poesia, UEA, 2016).
Já sobre o tema que abordou, o poeta defende que "a arte quando é pura e sublime acaba por ser intemporal e a poesia de Agostinho Neto não foge desses elementos". Ao identificar os elementos que permitem definir a intemporalidade da poesia de Agostinho Neto, Bendinho Freitas aproveita para aprofundar as correntes em quem se insere a sua perspectiva estética. "A poesia de Agostinho acaba por impor-se em relação à poesia da sua geração", explica o escritor, que abriu, no início do mês, o programa “Textualidades” no MAAN. No âmbito da programação cultural do primeiro semestre de 2018, o projecto “Textualidades" prevê conversa com leitores, espaço de tertúlia entre autores e leitores, em que já estão agendados os poetas João Tala, dia 30 de Março, Lopito Feijó, 27 de Abril, João Maimona, 25 de Maio, e Amélia Dalomba, a 29 de Junho.
O poeta João Tala congratulou-se igualmente com a realização da feira, sobretudo por marcar exactamente a sua estreia no Dia Mundial da Poesia. "Estes eventos contribuem muito para a educação da nossa população, sobretudo os mais jovens, que precisam de conhecer mais sobre os fenómenos literários do país", refere o autor de "A forma dos desejos" (1997), prémio "Primeiro Livro" da União dos Escritores Angolanos.
Médico de profissão, João Tala explica que a poesia faz parte das emoções das pessoas, pelo que encara a criação poética como um contributo para o engrandecimento da alma angolana. "Com a poesia se chega muito longe e o mundo é cada vez melhor quando temos uma alma que compreende a beleza das coisas".
Sobre os espaços reservados à música, à trova e aos recitais, João Tala elogia essa diversidade de se exprimir os textos poéticos, mas lamenta a pouca aderência, sobretudo dos estudantes. "Nas próximas edições será indispensável o convite às escolas na base de acordos", diz, deixando a ressalva de que esse tipo de convite implica a disponibilização de transporte.
João Tala, que revela manter uma contínua produção literária, sobretudo nas redes sociais onde vai disponibilizando alguns poemas, lamenta igualmente a dificuldade para se publicar uma obra. "Está muito difícil publicar. Só por isso que não tenho lançado livros".

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