Discurso da Ministra da Cultura na cerimónia de proclamação da Academia angolana de letras

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A cerimónia de proclamação em (Luanda, 15 de Setembro de 2016)

Discurso da Ministra da Cultura na cerimónia de proclamação da Academia angolana de letras
Carolina Cerqueira discursando

Excelência, Sr. Presidente da Academia Angolana de Letras,
Dignos membros da Academia Angolana de Letras,
Ilustres Deputados,
Caros Membros do Executivo angolano,
Senhores Embaixadores,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

Foi com enorme prazer que aceitei o convite para proferir algumas palavras no acto de proclamação da Academia Angolana de Letras, que marca ao mesmo tempo a tomada de posse dos seus primeiros órgãos sociais.
O prazer e a honra são ainda maiores, porque se trata da primeira Academia Angolana, enquanto associação que reúne intelectuais de elevado gabarito – neste caso, representando as Letras angolanas.
Trata-se de um reduzido grupo de intelectuais (apenas 43), indigitados para aqui representarem a Literatura e os Estudos Sociais angolanos. São pessoas de reconhecido mérito, intelectuais de craveira, que para além de possuírem obra publicada, essa mesma obra é estudada em conceituadas universidades do nosso país e do estrangeiro.
E estão também incluídos em Antologias e outros trabalhos colectivos, que são estudados em várias partes do mundo.
Graças a vós, Angola passa a partir de hoje a ombrear com outros países, possuindo uma Academia de Letras que se vai ocupar da difusão das Letras Angolanas, dentro e fora de portas.
A recém-proclamada Academia Angolana de Letras surge na sequência da instituição, a 10 de Dezembro de 1975, da União dos Escritores Angolanos, e do crescimento dos Estudos Sociais Angolanos, graças ao impulso dado pelos sucessivos governos ao Ensino Superior e à Investigação Científica, após a proclamação da independência do nosso país.
Mas a novel Academia Angolana de Letras possui uma tradição académica, jornalística e literária antiga, cujas origens remontam a meados do século XIX. Como percursores e impulsionadores da Literatura Angolana e dos Estudos Sociais Angolanos, podemos mencionar os nomes de José de Fontes Pereira e Joaquim Dias Cordeiro da Matta, os de António de Assis Júnior, Arsénio do Carpo, Francisco das Necessidades Ribeiro Castelbranco, Manuel Alves de Castro Francina, Pedro da Paixão Franco e Pedro Félix Machado, bem como Agostinho Neto, António Jacinto, Mário António Fernandes de Oliveira, Mário Pinto de Andrade e Viriato da Cruz.
A resistência à colonização e a necessidade de retorno aos valores da Cultura Africana marcaram por mais de um século, quer a Literatura, quer os Estudos Sociais Angolanos. A preservação escrita das línguas nacionais ocorre desde longa data, assinalando-se a publicação dos “Elementos Gramaticais da Língua Mbundu” no ano de 1864, para além de uma série de textos em língua nacional, publicados em jornais.
A Literatura Angolana e os Estudos Sociais Angolanos marcaram também a sua presença indelével no período de luta armada de libertação nacional. Essa contribuição tem a ver não apenas com a libertação do jugo colonial, mas também com a união dos angolanos no quadro dessa mesma luta pela obtenção da auto-determinação e da independência política. A contribuição dessas áreas tem ainda maior valor, se considerarmos a importância destes dois vectores no quadro da materialização do ideal nacionalista de consolidação da Nação Angolana.

Caros Membros da Academia Angolana de Letras,
Distintos convidados,
A tradição das Academias de Letras remonta ao século XVII, com a criação da Académie Française, no ano de 1635. A mais antiga Academia de Letras do mundo possui 40 membros, conhecidos pelas designações “Os Quarenta” ou “Os Imortais”.
A Academia Angolana de Letras vai certamente recorrer à tradição das suas congéneres espalhadas pelo mundo, fazendo juz à importante presença deste nosso grupo restrito de intelectuais (o “Grupo dos 43”) na análise dos fenómenos sociais e das questões ligadas à Cultura, à Literatura, à Linguística e às Artes angolanas.

Caros Membros da Academia Angolana de Letras,
Tenho plena consciência dos enormes desafios que tendes pela frente, enquanto intelectuais ligados às Letras Angolanas. Apesar disso, pretendo apresentar-vos algumas sugestões que nos inquietam, enquanto Estado e enquanto Sociedade angolanos.
O factor cultural é fundamental, quando nos referimos à Angolanidade. Por isso, o primeiro desafio que aqui vos deixo tem a ver exactamente com a identificação (para posterior preservação) daquelas características que fazem de nós seres humanos, mas que nos colocam em África e, mais ainda, que fazem de nós Angolanos. Será determinante a vossa contribuição para definição dos contornos da Angolanidade e para encontrarmos todos em conjunto os passos que conduzirão à real consolidação da Nação Angolana.
Em segundo lugar, gostaria de deixar convosco o importante desafio da contribuição para salvaguarda dos valores morais, num momento em que registamos a sua quebra acentuada e precisamos por isso de reflectir acerca do rumo a tomar no processo educativo e no processo de socialização que as famílias devem continuar a liderar.
Um terceiro desafio tem a ver com a introdução das Línguas Nacionais no sistema de educação e ensino, que o Executivo angolano começou já a implementar e os intelectuais são chamados a contribuir nessa direcção. Como se sabe, os resultados são mais animadores quando as crianças têm acesso à educação na sua língua materna.
Não posso deixar de mencionar um quarto importante desafio, na sequência da tradição da Académie Française.
Refiro-me à necessidade que temos de elaborar o Padrão Angolano da Língua Portuguesa , pelo que a Academia Angolana de Letras pode contribuir activamente para a definição da gramática e do léxico do Padrão Angolano da Língua Portuguesa.
São quatro importantes desafios, que podeis certamente agendar no vosso programa de trabalhos.

Caros Membros da Academia Angolana de Letras,
Gostaria de sublinhar aqui o facto de a proclamação da Academia Angolana de Letras ocorrer exactamente no Dia Internacional da Democracia, que este ano se celebra segundo o lema “Fortalecer a Democracia é condição essencial para alcançar o desenvolvimento sustentável até 2030”.
É indiscutível o papel das Letras Angolanas na promoção e preservação das conquistas democráticas. Os membros desta Academia podem contribuir para o processo de democratização em curso no nosso país, fazendo ouvir a sua voz em prol das políticas públicas de inclusão social e na mobilização dos cidadãos para a acção cívica.
Enquanto parceira do Executivo angolano, a Academia deverá ser mais um local de debate acerca da participação dos cidadãos na concepção e execução de políticas públicas, bem como da sua contribuição para a melhoria das condições de vida e de trabalho dos angolanos.

Caros Membros da Academia Angolana de Letras,
Distintos convidados,
Foi com incontida emoção que tomámos conhecimento da indigitação do Dr. António Agostinho Neto como Patrono da Academia Angolana de Letras. Para além de ter sido quem proclamou a independência do nosso país, enquanto Primeiro Presidente de Angola, trata-se realmente de uma figura ímpar nas Letras Angolanas, que deixou obra literária e amplas reflexões acerca da Sociedade e da Cultura angolanas.
Estou convencida que o “Grupo dos 43” saberá honrar a memória dos percursores e impulsionadores da Literatura Angolana e dos Estudos Literários Angolanos, bem como a memória do Patrono da Academia.
Da parte que nos toca, posso garantir o apoio institucional que o Ministério da Cultura prestará à Academia Angolana de Letras.
Hoje, 15 de Setembro dia Internacional gostaríamos de ressaltar que aos intelectuais que se reúnem nesta Academia cabe igualmente o dever de fazer ouvir as suas vozes para mobilizar os cidadãos para o reforço da democracia e garantir o progresso de me sociedade inclusiva prospera e socialmente justa.

Caros Membros da Academia,
O Executivo angolano lidera por Sua Excelência José Eduardo dos Santos, Presidente da República de Angola congratula-se com a proclamação da Academia Angolana de Letras e augura os maiores sucessos a esta associação, que reúne alguns dos nomes mais sonantes da intelectualidade angolana contemporânea.
Bem haja a Academia Angolana de Letras.
Muito obrigada.

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