Discurso do presidente da Academia angolana de letras Boaventura Cardoso

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 “Do ambicioso Plano de Acção 2016-2020, da Academia, destacamos os seguintes projectos:
1) Estudos sobre a Variedade Angolana do Português;
2) História da Literatura Angolana;
3) Vocabulários Temáticos e Terminologia das Línguas Nacionais.

Discurso do presidente da Academia angolana de letras Boaventura Cardoso
O orador proferindo a seu discurso

Excelências,

Vimos hoje aqui testemunhar a proclamação da Academia Angolana de Letras. A escolha deste mês e deste emblemático monumento como local da fundação desta instituição não foi fruto do acaso. Foi, deliberadamente, uma clara intenção de lembrar e evocar Agostinho Neto, fundador da Nação Angolana, primeiro Presidente de Angola e insigne homem das letras angolanas.
Recordar NETO é, necessariamente, evocar parte significativa da história recente do povo angolano, pois a vida do poeta confunde-se com a do político e do estadista.
Evocar NETO é, implicitamente, falar da gesta que foi a luta de libertação nacional e de todos quantos com ele trilharam os sinuosos caminhos que nos conduziram à Independência Nacional.
Homenagear NETO é falar do universalismo do seu percurso como político e da sua obra como homem de cultura. No seu pensamento e obra facilmente apreendemos que ele foi um homem não só preocupado com o futuro do seu povo, como também com o mundo.
Deste modo, como homenagem à sua elevada distinção como escritor e homem de cultura, os Membros Fundadores da Academia Angolana de Letras decidiram plasmar no seu Estatuto que António Agostinho Neto é o seu Patrono, ao qual é atribuída a Cadeira Perpétua N. 1.

Excelências,
Ilustres Convidados,

A 10 de Dezembro de 1975, uma plêiade de escritores angolanos, liderados por Agostinho Neto, declarava constituída a primeira associação cultural após a proclamação da Independência Nacional - a União dos Escritores Angolanos. Decorridos quarenta anos, a Literatura Angolana é, hoje, uma referência incontornável do percurso glorioso da Nação Angolana.
Os escritores, como é consabido, narrativizam a Nação, dando sentido ao projecto da sua construção simbólica. Com as suas obras, os escritores concebem, reconfiguram e actualizam constantemente a ideia de pátria e de nação.
Ontem, foram os escritores os impulsionadores de uma certa consciência nacionalista, apesar do contexto colonial que predominava na antiga província ultramarina. Foram eles que, mesmo sabendo que a utopia era inalcançável, agiram como se tal fosse historicamente possível. Hoje, os escritores continuam a construir uma Nação literária, em demanda de uma Nação em processo de criação, mesmo que às vezes tal possa não parecer tão evidente e linear. É que a literatura nem sempre se conforma com a vida; às vezes, ou se atrasa ou se avança em relação à realidade social, política e histórica em que estamos ancorados; às vezes - diríamos mesmo muitas vezes – a realidade do escritor pode dissentir da realidade em que estamos inseridos.
De qualquer modo, nunca a literatura será cópia fiel da realidade, porque esse nunca foi, aliás, o seu propósito. Seja como for, os escritores angolanos reconhecem-se e identificam-se pela sua matriz cultural, numa palavra, pela sua angolanidade, relevando, é claro, que mesmo essa tem a sua dinâmica interna caracterizada pela diversidade cultural. Por outras palavras, a angolanidade literária não deve conflituar com os diversos modos de ser e de estar dos angolanos, enquanto filhos de uma mesma Pátria e Nação em construção.
Nos nossos dias, Angola é projectada a nível internacional não só pelas suas realizações nos campos político, económico e social, como também pelo alto nível estético e literário das obras dos seus escritores. São disso prova bastante o número de estudos sobre a Literatura Angolana, em teses de licenciatura, de pós-graduação, de mestrado e de doutoramento, em renomadas e prestigiadas universidades no mundo. Deixamos aqui, a esse propósito, o nosso preito e homenagem a alguns dos mais destacados pioneiros de estudos sobre a nossa escrita literária, nomeadamente, os angolanos Carlos Ervedosa e Mário António Fernandes de Oliveira; os portugueses Manuel Ferreira e Alfredo Margarido; a brasileira Maria Aparecida Santilli; os norte-americanos Gerald Moser e Russel Hamilton, e os franceses Jean - Michel Massa e Michel Laban.
Uma trajectória igualmente frutuosa, podemos assinalar no domínio das Ciências Sociais mercê ,não só da criação de várias faculdades especializadas nesse ramo, mas sobretudo pelo rigor metodológico de aturadas investigações realizadas por sociólogos, antropólogos, historiadores, filósofos, linguistas, sociolinguistas e outros no vastíssimo campo das Humanidades. Graças a esses estudiosos das Ciências Sociais e Humanas vamos conhecendo, compreendendo e interpretando cada vez melhor a nossa sociedade, em particular os processos e fenómenos que são reflexo de comportamentos e de atitudes dos membros das diversas comunidades sócio-históricas de Angola. Por isso, a Academia acolhe-os no seu seio como membros de pleno direito, homenageando, assim, por seu intermédio, todos os investigadores sociais angolanos.
A Academia Angolana de Letras pretende ser reconhecida como uma autoridade em matéria do estudo e da investigação da literatura angolana, da língua portuguesa, das línguas nacionais e das disciplinas correlatas, seja como parceira do Executivo ou de quaisquer instituições científicas sempre que for chamada a emitir a sua opinião, seja por iniciativa própria sobre matérias da sua competência.
Não queremos perder tempo com discursos cristalizadores e perlengas academicistas, mas antes promover debates, colóquios e conferências profícuos, de indiscutível rigor científico. Gostaríamos que a Academia Angolana de Letras, sem demagogia, se abrisse à sociedade. Nesse sentido, ela pode e deve, por exemplo, interagindo com as escolas do nível secundário e as universidades, induzir a que se passe do "grau zero da recepção" a uma cada vez mais elevada e melhorada estética da recepção do que há de excelente na literatura angolana e dos clássicos da literatura universal.
Do ambicioso Plano de Acção 2016-2020, da Academia, destacamos os seguintes projectos:
1) Estudos sobre a Variedade Angolana do Português;
2) História da Literatura Angolana;
3) Vocabulários Temáticos e Terminologia das Línguas Nacionais.

A Academia propõe-se ainda desenvolver as seguintes actividades culturais no quadriénio:
1) Palestras e conferências em colaboração com escolas do ensino secundário e universidades;
2) Um Colóquio Internacional sobre o Ensino da Literatura Angolana e a Formação do Cânone Literário em Angola.
No plano de Publicações e Comunicação vai instituir prémios e concursos para a divulgação da Literatura Angolana, das Línguas Nacionais e Estudos Sociais angolanos.
No capítulo das Relações Internacionais a Academia pretende desenvolver acções de cooperação com Academias de Letras de outros países e diligenciar filiar-se na União Académica Internacional.
Agradecemos a todos quantos votaram a favor da lista única levada a escrutínio no passado dia 3 de Setembro, e aqui afirmamos a nossa inteira disponibilidade em agir em prol do prestígio a nível nacional e internacional da Academia Angolana de Letras.
O simples surgimento da ideia da criação de uma academia suscitou alguns rumores no seio da nossa comunidade de escritores. Queremos aqui assegurar que a Academia não foi criada para neutralizar o espaço de quem quer que seja, muito em particular o da nossa Casa-Mãe – a União dos Escritores Angolanos. A Academia tem como Membros Fundadores quase todos os membros que fundaram a União, para além de integrar também alguns membros da sua actual Direcção. Do nosso conhecimento, nenhum dos escritores membros da Academia renunciou ao seu estatuto de membro da União.
A União dos Escritores Angolanos e a Academia Angolana de Letras podem, pois, coexistir em estreita cooperação. A grande diferença entre as duas associações, é que a Academia é um órgão vocacionado para a investigação, para além de ser muito selectivo.
A Academia Angolana de Letras, seguindo a tradição de outras academias do mundo, tem um numerus clausus: é constituída por apenas 43 membros, dos quais 42 são efectivos e um é o seu Patrono. Podem, pois, imaginar a dificuldade que a Comissão Instaladora da Academia teve para decidir quem deveria ocupar aquelas limitadas vagas. De qualquer modo, na melhor oportunidade e de acordo com o seu Estatuto, a Academia criará uma Comissão Ad-Hoc para analisar as eventuais candidaturas a Membros Efectivos, visando preencher as poucas vagas ainda disponíveis, para o que dará a devida publicidade.
Como acontece ainda hoje nas academias centenárias, há-de se questionar sempre sobre que critérios foram observados para admitir este e não aquele como membro da Academia. Entretanto, temos a plena consciência de que ficaram de fora da Academia muitos escritores com créditos firmados e cientistas sociais com obra de alto nível científico. Fica, pelo menos, a perspectiva de que alguns desses intelectuais possam vir a ser chamados a colaborar com a Academia em projectos específicos. A Academia será sempre um espaço de diálogo e de partilha.
Nesta ocasião solene a Academia Angolana de Letras presta tributo aos precursores da Literatura Angolana e dos Estudos Sociais Angolanos e aos membros fundadores da União dos Escritores Angolanos que partiram para uma outra dimensão da vida.
Agradecemos a todos quantos contribuíram para que esta cerimónia pudesse ser realizada como previsto, nomeadamente ao MAAN, à UEA, ao artista plástico Horácio da Mesquita por, com toda a sua mestria, ter concebido o emblema, a sigla, o brasão e a bandeira da Academia; e ao jurista Aguinaldo Cristóvão por laboriosamente ter dispensado muitas horas na redacção do Estatuto desta instituição.
Finalmente, deixamos aqui o nosso apreço à Orquestra Kaposoka e aos seus virtuosos integrantes, que aqui estiveram a deleitar-nos com as suas excelentes interpretações, e a recordar-nos que a excelência nas artes – e não o puro divertimento – só se alcança com muito trabalho e dedicação.
Bem haja a Academia Angolana de Letras.

Luanda, 15 de Setembro de 2016

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