Do poemário "Doutrina" aos "Desejos da Aminata" Breve perfil sócio-literário de Lopito Feijóo

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A análise do percurso do poeta da “Nona brisa”, que tem o imaginário plantado no “Imbondeiro do Cazenga” e cercanias, exige o rigor metodológico da sociologia e da teoria da literatura.

Do poemário
O poeta em referência é membro da União dos Escritores Angolanos Fotografia: Paulino Damião

João André da Silva Feijó, mais conhecido por Lopito Feijóo, nasceu a 29 de Setembro de 1963, no Lombe, em Malange, onde o seu progenitor exercia enfermagem. É filho de André da Silva Feijó, enfermeiro (microscopista) e Lucrécia Francisco Simão Feijó, doméstica.
Do pai traça-lhe o quadro onírico, no poema “Sonho de pescador”: “Meu pai?”- interroga-se, para depois responder: “Meu pai é pescador/pesca sonhos no fundo do mar/passa noites e noites ao luar/assobiando cantos de condor//É feliz porque a pesca resulta/na esperança de eu um dia me formar/e um estetoscópio feito de conchinhas usar/para lhe fazer uma carinhosa consulta!, invoca.
Da mãe dedica os seguintes versos: “É sem fronteiras a Pátria do poeta/ minha Pátria é a nossa casa./- É a minha campa (é dizer) mbila iami( minha campa) // Chamar-se-ia Lucrécia, Mundo/ ou Poesia, não fosse eu um apátrida!.”
De si próprio, o nosso protagonista traça um ousado perfil, no seu poema sugestivamente intitulado “Ousada autobiografia”, num manifesto rasgo crítico, pronunciado tom satírico e até com humor cortante, deixando escapar um memorialístico pendor interventivo, imaginando-se na pela do seu jeito do enunciado ora engraxador: “Em tempos engraxei sapatos botas e sandálias”, denunciando a miséria franciscana que o rodeia: “alimentei-me de restos ratos arrotos e katatus/ andei andrajoso roto e descalço”. A nudez, humana e social, é um facto e motivo poético”, ora intelectual:
Fiz recensões escrevi versos contos e crónicas//Proferi palestras profícua e prelecções/tornei-me Mestre querido contestado detestado”- insiste no pleonasmo, fazendo apelo ao contraste bíblico: “estudei direito por linhas tortas” e homenageia um outro poeta/intelectual: “escrevi teses em minha defesa e de outros clientes.”
O poeta em questão evoca Pound e outros autores que lhe são caros e o inflenciam na sua praxis criativa: “espalhando “Os cantos de E. Pound/ girei-me por becos e ruelas/nos meandros da Quitanda das Letras.”
A veia literária herdou do avó que fora peticionário, uma forma de estar na luta nativista realizada nos marcos reformistas do sistema colonial, travada por via dos requerimentos contendo reivindicações de direitos de cidadania, nomeadamente económicos, sociais e culturais e ,quiçá cívicos; domínio do conhecimento histórico e sociológico por se estudar no âmbito da emergência, afirmação e consolidação do nacionalismo angolano desde as suas origens remotas nos finais do século XIX, rasgando todo século XX até, pelo menos, ao despoletar da luta armada, no âmbito do comportamento cívico das elites africanas, que guarda similitudes com artigos contestatários na imprensa da época. Ele invoca: “Requerimentista nunca fui em razão da cal & grafia”( mais uma vez o recurso visual/experimentalista)/ fiz-me representativo aqui com pinta tipo-/gráfica no papel/ porque acima de tudo: A POESIA”- enfatiza no último verso da sua atrevida e teimosa (auto)biografia.
Lopito Feijó assume-se sobretudo como um poeta, dizendo em recente entrevista que “A arte(poética) circula nas minhas veias sanguíneas”, enfatizando que para si “ a poesia (é) vírus do universo nas entranhas do espírito.”
E isto mesmo que revela a sua poética, marcado por uma profunda espiritualidade mesmo religiosidade africana”, como se pode captar as virtualidades temáticas, formais e estéticas no poema “Otyivaluko”: “(...)/ Kalunga Nomge ó divindade da morte”, a exaltação do antepassado que marca o animismo africana contrasta com a evocação cristã: “(rogai por nós ó pecadores)/deixando escapar um certo sincretismo religioso, vigente não só em Angola, como em toda África, em virtude da agressão antropofágica colonial, evocando a esperança redentora: “Mande chuva torrencial que alcance intimamente ( nossos corações)/ nossos corpos trémulos e não só/ transforme-nos tão logo em FLORES alguns/GADO outros em sabor do saber ESTRELAS em/SAUDADES// Transforme-a (depois) NUMA GOTA DE/ORVALHO”. A expressão poética formalista que lhe vem dum Lautréaumont ou Apolinaire é notória pelo seu simbolismo, bem a devida carga experimentalista, de um Humberto Eco, leituras que marcaram no seu processo de crescimento literário, entrando em ruptura com a habitual cantalutismo, ou seja, com o panfleto poético, mais preocupado com o conteúdo do que a forma, ao invés de assegurar o equilíbrio dinâmico entre ambas categorias filosóficas (e literárias) que viabilizam o texto conseguido.
O jogo das palavras é saliente na sua poesia, não fora esta a arte da palavra por excelência – tal como ensinava um mestre alemão, na sua introdução doutrinária, um lexema a que Lopito faz constante apelo no percurso de demiurgo da cultura, é dizer da poesia, conforme atesta a sua bibliografia.
Os recursos linguísticos e estilísticos são múltiplos na sua poética. A este propósito diz-nos O professor e crítico literário Pires Laranjeira: “...deitando mão a diversíssimas fórmulas arquitextuais (soneto, ode, haiku, dístico, epígrama, prosopoema), usando o parêntese ou o ‘enjambement’, com o recurso a referências e alusões tão multímodas (...), subvertendo-as, Lopito Feijóo traz á cena do discurso um descomplexado ensejo de confrontar códigos e linguagens, por um processo requintado de (re)construção significante que é herdeiro directo e dilecto não só do modernismo e tradição vanguardista, mas (...) do romantismo rebelde, apaixonado, revolucionário.”
Iniciado nas lides literárias com o despontar da revolução, foi o seu professor de língua portuguesa do liceu que frequentava entre 1978/79 que o interessou-o ainda mais pela literatura. Ele, prof. Baltazar, por razões óbvias, cultor confesso do português vernáculo, que, paradoxalmente, introduzia os alunos num conhecimento maior da literatura angolana, com linguagem coloquial das ocorrências da variante angolana da língua portuguesa, à mistura com a linguagem coloquial dos musseques e os empréstimos do kimbundu à mistura, patentes nos textos poéticos e textos narrativos, como o estudo, interpretação e exploração crítica do “Meu toque” de Boaventura Cardoso, só para citar um trecho de "Meu toque", conto de "Dizanga dya Muenhu", livro de estreia de B. Cardoso: “Kaprikitu mãe dele lhe munhungaram no Marçal. Pula que queria se alimentar de prazer, se deu encontro com ela no beco”(cite-se de memória).
Membro fundador da Brigada Jovem de Literatura, foi aí que começou a escrever com conhecimento de causa literária, ainda no PUNIV, o professor de português, o antigo seminarista e hoje médico Chicola, foi outro acicate às portas da faculdade de direito do nosso protagonista.
A respeito desta sua fase de alcance da maturidade psíquica e literária, fala—nos o historiador e crítico espanhol, Xosé Lois Garcia, referindo-se ao movimento das brigadas jovens de literatura:
“A geração dos novíssimos, ou dos anos 80, coincide com um período pós-independência onde as novas realidades sociais, políticas, económicas e culturais reflectem uma etapa de comportamentos actualizados(...)esta etapa geracional, em nosso critério, começa a partir de 1985 com aparição... de livros surpreendentes”.
Referindo-se ao livro de estreia de Lopito Feijó, que contrariamente ao que se diz, não é “Entre o écran e o esperma”, mas sim “Doutrina, Lois Garcia obtempera que este título pioneiro do poeta ohandanjiano “é um tipo de manifesto estético e doutrinário, fruto de uma preocupação que o autor tem pelos temas mítico-religiosos. Poesia de extrema utilidade crítica. Subsiste, interiormente, um interesse de tipo social e sociável sobre este hermetismo religioso.” Ele sublinha que LP “está filiado, com a sua poética, na velha tradição oral que encerra, em si mesmo, uma série de perguntas e incógnitas de tipo filosófico”, concluindo que “Sem dúvida nos encontramos ante uma conduta expressivamente nova ao utilizar uma estrutura do poema, bastante atípica, ao fracassar sílabas ou unindo-as para criar dimensões e significados diferentes dos normais. Há um jogo metafórico, uma mensagem camuflada que tem uma disponibilidade ‘en los lagatos’ (legados) de interpretar, criticamente, a realidade.”
No fundo, no fundo, muito mais poderia ser dito, ma fica principalmente a sugestão dos poemas, com múltiplas leituras possíveis e imaginárias. O percurso literário de Lopito Feijó exige uma denodada pesquisa quer sócio-histórica, quer estética, no plano da formação da sua personalidade, com o rigor metodológico que a sociologia e a teoria da literatura impõem, que como hão-de convir não se esgota hoje, aqui e agora, numa singela, mas significativa, cerimónia de apresentação do seu novo livro de poemas, “Desejos de Aminata”, de cuja interpelação interpretativa, incluindo diálogo inter-textual, em termos comparativos com outros autores da sua geração literária ou não, nos ocuparemos noutra ocasião.

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