Dois poemas da peregrinação do Sèkúlu

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Fiz um terço no cicio de vozes,
rezei a alma rolando, em cada conta,
um pecado marcado, cantado,
riscado de premonições nefastas
e diabinhos moleques hiperactivos,
malcriados, safados.

Namibiano Ferreira

Ximbiquei o dongo, subi o Kwanza
visitei a Santa, lamuriando ajudas
e auxílios: Mama Muxima, Mama Muximê
aiuê, aiuê, auiê... ituxi, ituxiuê!

E a Santa virou costas,
muxoxou, revirou os olhos
e, mudando de lugar,
pegou o Menino na cacunda
e foi subindo no Céu a sorrir,
só a cantar uma cantiga de ninar...

Pecador regressei, à toa,
desci o Kwanza e cego de pecados
viajo perdido, ainda,
nas águas amargas de Kalunga
fazendo terços, rezando a alma:
mil contas de pecados entre meus dedos
rolando em minúsculos pedaços..

* * *

Naquele ano não houve o verde
arrastando fartura pelo chão.
Em Março até o rio secou
e para sobrevivermos, Ukayi,
comemos os nossos próprios mortos.
No silêncio da loucura que herdámos
fomos, alienados, embrulhando as nossas almas
nas asas negras das andorinhas que, voando,
partiam para norte de onde haviam chegado
no tempo dos bagos gordos de massango.

A nossa casa, Ukayi, tresandava a morte,
a ventos chorados de inchadas barrigas
e nós, pássaros sem asas, já não sabiamos chorar
porque os nossos olhos haviam secado, também .

OLONGANDO

Delonga-se o tempo nas curvas espirais dos cornos do olongo.
Há pedras de vento na calçada mangonheira do tempo.
A minha mão, nua e fria, é o arado lavrando campos invisíveis
e de margens imprecisas. Vou nu por aí fora semeando palavras
sobre o papiro acetinado da aurora dos lírios ambarinos,
arrastando luz e fonemas, missangas, metáforas e poemas
que se hão-de verdadeiramente iluminar quando tu, leitor,
colheres lendo os frutos de minha lavra: pitangas rubras e poesia.

Namibiano Ferreira

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