“E assim vivi Benguela!” :Os desafios da escrita de uma " iniciante"

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Escrever sobre Benguela é sempre um desafio para qualquer autor

“E assim vivi Benguela!” :Os desafios da escrita de uma
Maria do Rosario Fotografia: Jornal Cultura

Escrever sobre Benguela é sempre um desafio para qualquer autor, em especial quem esteja a dar os seus primeiros passos na literatura, como Maria do Rosário Bragança. Depois de ler o seu livro de estreia, “E assim vivi Benguela! Fragmentos de uma Vida”, é preciso felicitar a autora pela envolvência das suas palavras, numa linguagem simples e directa.
Se como escreveu o filósofo e autor chinês Lao Tsé “a jornada de mil milhas começa com um passo”, então Maria do Rosário Bragança tem um longo caminho a percorrer, ao qual deu início de forma positiva, numa história bonita sobre o seu crescimento nas ruas de Ombaka e da Fronteira.
Com experiência e maturidade, adquiridas através da educação familiar e a escola, a autora propõe a cada um dos seus leitores uma viagem pelo descobrimento, num texto repleto de mensagens “nas entrelinhas” e criticas ao actual modernismo e comodismo dos jovens, mais apegos as novas tecnologias do que aos ensinamentos dos “cotas”.
O desafio da autora é que os leitores não vejam o livro, como apenas um relato sobre as “vidas de Benguela”, feitos na primeira pessoa, mas sim uma lição, construída por meio de uma história pessoal, para perpetuar testemunhos de uma época, que muito marcou toda uma geração. “São testemunhos da vida”, assim define Beatriz Teixeira no prefácio do livro.
Por isso e como disse uma vez o Nobel de Literatura de 1946, o escritor e pintor alemão Herman Hesse, “ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigo”. Este é o convite à amizade de Maria do Rosário Bragança.
A princípio acreditei que seria mais um livro sobre a história de Benguela, a “terra das acácias rubras”, tendo o bairro de Ombaka como partida. Mas depois temos a ideia de estarmos numa aventura pela infância e adolescência da autora, onde os ensinamentos, dados pelos pais, familiares, amigos e professores, ajudam a moldar o carácter.
“Hoje … percebemos que afinal não fora um massacre, mas sim … um legado, cujos frutos colhemos no nosso quotidiano”, escreveu. Os riscos da “modernice invasora” também são contestados pela autora, que mostra um pouco da realidade da Benguela dos anos 70.
Medos e alegrias, assim como a disposição de fazerem as coisas pessoalmente, com engenho e arte, são parte da sua aprendizagem, que constam do livro. As fantasias de Carnaval foram o exemplo apontado como parte deste seu património imaterial.
Captar o pulsar benguelense, num “livro que saísse directamente da ‘alma” foi o desafio proposto. O ponto de largada para a escrita do livro é que deixa algumas duvidas. Porém acredito que seja a “inesperada partida de mana Alice” a causa. “Cara Alice, daqui, desta tua partida, transportas-me para aquelas tardes de muitos domingos da minha meninice na praia Morena.”
Conhecer a “preciosa infância” da autora, da forma que é contada, em dez histórias, é um retracto de uma realidade aos poucos esquecidas pela nova geração, assim como da acentuada perda de valores.
Princípios como o amor ao próximo, aos professores, por serem os responsáveis pela educação de todos, a importância da família, na construção da personalidade, e o valor do emprego, no crescimento social de cada um, são valores patentes nas histórias.
Ao longo da narrativa a autora procura ainda explicar certos aspectos e deixar lições de altruísmo a juventude. A alegria de ter comprado uma bicicleta com o dinheiro do seu primeiro emprego, ou as “reguadas” entregues pelos próprios pais para os professores educarem os filhos caso se comportem mal, são pormenores “esquecidos” hoje, mas foram essenciais para toda uma geração.
“E assim vivi Benguela!” é também “uma lição para a geração mais nova”, porque a autora defende que “quando há empenho e profissionalismo se ultrapassam aqueles que estão mergulhados em excessos”.
Embora toda a história se centre em si é preciso realçar e como escreve a autora que “são mesmo as pessoas que contam, são elas que fazem a diferença, no ser, no estar, no agir, enfim, no modo de funcionar …”
“Quem somos, senão o resultado da memória?”. Esta é a pergunta, que no final o leitor tem de responder. Mas peço “a mil flores”, como a chamava o “adepto desconhecido”, que mostre “se não dá nada” ou “é a melhor” na arte da escrita.

A autora

Maria do Rosário Bragança é natural de Benguela, onde passou a sua meninice e fez os estudos primários. Licenciou-se em Medicina em Luanda, na Faculdade de medicina da Universidade Agostinho Neto, em 1983.
Concluiu a especialidade de Neurologia, em 1997, em Lisboa, bem como o doutoramento em Medicina, na especialidade de Genética, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Instituto Gulbenkian de Ciência, em 2010.
Docente universitária desde 1979, foi Decana, de 2011 a 2015, na Faculdade de Medicina da Universidade Katyavala Bwila, em Benguela. Em Julho de 2015 assumiu o cargo de Reitora da Universidade Agostinho Neto.
O seu trabalho “Susceptibilidade Genética à Malária Cerebral em Crianças Angolanas” ganhou dois prémios: o Pfizer 2010 em Investigação Clínica, atribuído pela Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, e o Prémio de Investigação Biomédica 2011, da Ordem dos Médicos de Angola. Em 2013 publicou, em co-autoria, o livro “Um Olhar sobre as Doenças Médicas na Gravidez - Casos Clínicos”.
Enquadrado na “Colecção Nzadi”, que traz textos de ficção narrativa e pertence da Mayamba editora, o livro foi apresentado pela primeira vez ao público, por Carlos Bragança e Albano Ferreira, na Administração Municipal de Benguela.

ADRIANO DE MELO

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