É obrigatório reler Alda Lara

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Em boa hora, com o seu interessante artigo na CULTURA de Janeiro/Fevereiro, Textos Dispersos de Alda Lara, Ana Paula Bernardo despertou-nos a obrigação de reler a obra completa, já publicada em livro, da grande Poeta benguelense, em que se revela não só a faceta poética que a distinguiu em vida, mas também, após a sua morte, em 30 de Janeiro de 1962, já mãe de quatro filhos, a surpreendente faceta de contista, manifestada nos dois últimos anos que viveu em Cambambe, onde exerceu a profissão de médica, até que "a morte a surpreendeu", no dizer do seu marido, colega da profissão no mesmo local e também escritor, Orlando de Albuquerque.

Não teve ela a alegria de ver a sua obra, durante alguns anos dispersa por jornais e revistas conceituadas como Mensagem e Cultura, incluída e eventualmente recensionada em antologias de significativo impacto literário, como foi, na época, a organizada, em 1962, pela Casa dos Estudantes do Império, Poetas Angolanos; depois, já distantes, em 1972, Itinerário da Literatura Angolana, de Carlos Ervedosa; e em 1976, de Manuel Ferreira, No Reino de Caliban, esta já corporizando o início do estudo das literaturas africanas de língua oficial portuguesa nas Universidades.

Pela coincidência das datas da publicação da antologia da CEI com a sua estada em Cambambe, não é suposto que ela tivesse conhecimento do substancioso estudo que Alfredo Margarido, então activo no Departamento Cultural da CEI (depois da sua saída de Luanda, forçada por imposição do Governo de Angola) produziu, como prefácio da antologia, no qual coloca reservas político-ideológicas à poesia da Poeta, fixando o poema Regresso, "em que nos fala das louçanias de que a terra natal se há-de revestir quando regressar,embora no seu saudosismo, haja a deliberada tentativa de recuperar um universo infantil perdido onde a cidade ­ Benguela ­ e os seus grupos sociais tivessem permanecido numa petrificação edulcorosa; neste caso a recusa dos objectos do exílio, a voluntária inflação dos valores da terra natal é uma manifestação que pretende ignorar o movimento dialéctico das sociedades africanas (...)"

Margarido não teve a complacência de levar em conta que este poema foi escrito em 1948,- tendo a autora, menina burguesa de 18 anos, ex-aluna do secundário no colégio das Doroteias de Sá da Bandeira, portanto antes da"deflagração" do movimento dialéctico que Viriato da Cruz desencadearia em 1956 -, tempo em que proclamar o amor à mátria já era, todavia, a manifestação de um sentido de pertença com que ela se impôs, quando estudante universitária em Coimbra e Lisboa, em declamações e conferências promovidas, sob a égide da CEI, para "divulgar a poesia dos autores ultramarinos e a poesia negra", no dizer do seu colega Orlando de Albuquerque.

Mas contemporânea de jovens colegas militantes da luta pela independência das colónias, como Agostinho Neto, Lúcio Lara, Amilcar Cabral ou Mário Pinto de Andade, já era, sem dúvida, uma "escolha" temática e estética que lhe orientava a vocação literária, sendo ponderosa, antes de tudo, a escolha da actividade profissional, como se compreende desta sua declaração, segundo Orlando: "Uma só vontade me animava, um desejo único ­ fazer um curso que me pudesse tornar útil em Angola (...) Desejava apenas realizar uma vasta acção social em Angola, queria organizar postos de assistência gratuitos, cursos de puericultura e informação sanitária para as mulheres indígenas e quantas coisas mais. Tinha um ideal, é verdade.E era um ideal puro, sem ´ismos´ nem condições externas. Era um ideal de amor por Angola. Nada mais do que isso (...) "

Alfredo Margarido reincide na análise que faz, em 1980, nos seus Estudos sobre Literaturas das Nações de Língua Portuguesa, em "Esboço de Interpretação da Poesia de Alda Lara". Ainda considera que "A formação católica de Alda Lara iludiu-a sempre quanto à maneira de solucionar os problemas humanos. É por isso que o mundo assume uma significação puramente individual e a sua poesia vive de impulsos orgânicos, é certo, mas que não representam uma totalidade. Não esquecemos, não seria possível esquecê-lo, que Alda Lara conhece a existência de um povo, mas as suas preocupações nunca são problemas sociais, ou pelo menos não compreende ela os problemas ao nível da "acção histórica dos grupos." Todavia, mais adiante: "Mas eis que parecem surgir em Alda Lara algumas tendências colectivas, que pretendem devolver-lhe a noção de mundo total. É no poema "Presença" que entrevemos uma autocrítica dilacerar o conformismo da sua poesia, obtigando-a a reexaminar o seu domínio próprio e a medir a relação existente entre o seu comportamento e a totalidade dos comportamentos sociais onde se define uma angolanidade empiricamente imediata."

Margarido cita e transcreve, equivocamente, sob aquele título, - que é de um poema escrito em 1952, em Lisboa - o poema "Presença Africana", escrito em 1953, em Benguela, supostamente no decurso de uma viagem em férias. Agora, já Margarido condescende que o telurismo da Poeta benguelense se abre para uma vivência mais dilemática do que lhe inspira a mera paisagem africana: "A evolução de Alda Lara condu-la, obrigando-a a percorrer um caminho sinuoso e semeado de obstáculos, à verificação de que a vida social é essencialmente prática.Posição esta que só poderia encontrar a sua amplitude natural se a Alda Lara tivesse sido possível continuar a sua obra na terra suave e áspera de Angola, em contacto com a sua humanidade, com o seu povo."

Em 1980, Margarido só podia imaginar que a vivência da Poeta, nos primeiro anos terríveis da guerra colonial, no Norte de Angola, a levaria a escrever sete contos que só são conhecidos em 1973, por iniciativa de Orlando de Albuquerque, nos Cadernos Capricórnio, do Lobito, sob o título de Tempo de Chuva. Nomeadamente, o conto "Diálogo do Futuro", dedicado ao seu irmão (Ernesto Lara Filho), cuja vida instável sempre a preocupara, quer como irmã, quer como médica. Neste conto ela transporta-se intensamente, de alma e coração, para a brutalidade dos massacres de negros e brancos, que não poupavam nem os bons, nem os maus. Mas foralhe poupada ainda a esperança no futuro, no reencontro afectuoso de um branco recém-chegado ao local de um morticínio com um menino negro sobrevivente seu conhecido: "Vamos Amigo...recomeçaremos tudo de novo...Os dois. Como há quarenta anos... Vamos... És tudo o que me resta..."

Estes contos, vertidos na mesma linguagem singela e linear comum a toda a sua poesia, com o acento tónico de uma sensibilidade que, talvez menos onírica que orgânica, podemos considerar feminina (esqueçamos o velho diferendo, sobre a matéria, que já moveu Virginia Woolf e Simone de Beauvoir), seguem uma direcção assumidamente idealista (ou utopista, se quisermos) por recusa de um pragmatismo que até aceita as contradições do real violento na conquista de um mundo melhor, num caminho todavia franqueado a pacifistas como Gandhi e Martin Luther King Jr.: "I have a Dream"....

São essas contradições (com um preço que ela recusa pagar) que Alda Lara vê representadas noutros escritores e poetas angolanos que admira como tal, mas dos quais se distancia quando empenhados numa luta armada pela independência do seu país. É o que inferimos duma carta para Ernesto, então em Lisboa, co-fundador, com Inácio Rebelo de Andrade, da Colecção Bailundo, enviada alguns dias antes da sua morte:

"...o que devo fazer para te enviar uma selecção dos meus poemas para a "Colecção Bailundo"? Creio já ser tempo de os pôr cá fora, e na verdade gostaria mais de os ver "integrados" na Colecção Bailundo do que na dos Autores Ultramarinos. Nem sequer é por razões políticas. Nunca as tive e agora é que as não tenho mesmo. A política e tudo quanto dela deriva dá-me vómitos, para te falar com franqueza. É apenas porque situo a minha poesia mais próxima da tua ou da do Aires de Almeida Santos do que da dos outros.

Compreendido? Mais tarde, a geração futura decidirá quais foram os verdadeiros "poetas". O resto é nada.(...)"
O primeiro desejo da Poeta só seria concretizado pelo marido, em 1966, então com a obra completa, tendo ainda a marca Imbondeiro, de Sá da Bandeira, quando a histórica Imbondeiro (que também a incluira em duas antologias) já estava proscrita. Quanto ao julgamento do mérito no futuro, Alda teria querido dizer: "Só Deus sabe..."

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