Em razão da Poesia Porta Metal

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A propósito do poemário de Akiz Neto

Considero, para os mais desavisados, um título deveras hermético visto que como o  comfrade Lussakalalo escreveu, “Ambiguidade é lei” na versificação do autor e de quase todos os poetas em vias de desenvolvimento.
U.E.A, (União dos Escritores Angolanos) 1000 exemplares de «Guaches da vida» com capa de Kissanga, artista que ireis reencontrar noutros títulos da mesma coleção e editora.

Cento e vinte e oito numeradas páginas de um encontro com a poesia, para além da porta metal conforme a prefaciadora Kátia Frazão Costa Rodrigues, para quem o autor dedica o texto que encerra o livro.

Na estrutura deparar-se-ão com 4 subdivisões, nomeadamente:
- Na garganta da sombra.
- Sargaços da alma. (Cinco tercetos a que o autor denomina Hai-Kais
- Sentinelas da Alma (uma alargada série de quintetos a que o autor chama TANKAS) e, por último;
- Areia e missanga das ilhas.

Não podemos desperceber ao passar por duas intelectuais citações do pensamento de Mikhaill Baktin e de Gerard Blais (a mais conseguida) através de quem o autor transparece saber que a “honestidade é a beleza que harmoniza honorabilidade e honra”.

Entretanto, depois de lido e relido o livro, não posso deixar de debitar algumas ideias para vosso governo, mas, já por conta própria.

Estais diante de um autor que como outros do seu tempo (John Bella, Kamguimbo, Kudijimbe e ou A. Macieira por exemplo), revela-se um exemplo de persistência e vontade literária entre nós, o que é de louvar pois, olhando para a sua trajetória, varias são as tentativas de afirmação artístico - literária e, vêm dos idos de 80 no seio do movimento brigadista huilano, espaço geográfico glocal onde iniciou-se com publicação de:

- No crivo do meu sonho, em 1989
- Na trajetória da Serpente, 1995
- Horoscópio da fragmentação, 1997
- Borboleta da Paz, 1999
- No Umbigo da Palavra, 2003 e mais tarde,
- A Construção Figurativa do Gesto, 2007, para além de outras coletâneas poéticas por si organizadas e das quais é participe, sem esquecer aquela feliz proposta de versificação da prosa do decano dos escritores angolanos que é Uhanhenga Xitu.

Estamos perante um persistente e corajoso trabalhador da palavra poética. Uma outra Akizição do contexto literário local. E para que conste, o pseudónimo do cidadão Martins Bernardo da Silva Neto é proveniente diminutivo da palavra aquisição, com corruptela na grafia.

Ao ler o livro que suponho ser de poesia, esbarro-me com imensa prosa com poética onde “mulheres são unidades callientes à margem dum bom vinho, dão a letra afónica ao sol e o poeta sentadinho no copo de sua alma ri, ela é vista no interior do corpo do poeta falando de ciúmes e de doces declamações sem gritos, poesia é doce como ela, arde nos olhos da mão, anúncios de morte, de ódios, assassinatos, assaltos à mão armada que moradia de morte, 10 emprego na tabuada de seus seios, a ardósia, o olhar doce e comprido, comprimido no barro de nuas argúcias e configura sal, e nem, e nada, e nenhum, e não, e nunca repete-se a contenção do nada, erigido na garganta purpúrea da mesma contenção, rosário ambíguo devora as mãos da cerveja no quarto de seu corpo, coletores semióticos de nova pátria, em abismos fiscais da boca, grito cirúrgico da pedra e as moscas poisam em folclores de mortes, não há tambores que não mostrem a África, a metáfora da garganta desse novo ventre, espíritos dispersos em palavras embriagadas, e a mão habita os espaços da cidade dos lábios de pássaros na dispersão dos nomes, porque habita cristalina a memória da peregrinação d’amor”. Encontro uma nova definição de Kianda, pois para o poeta kianda é dança africana descalça no mar, são falas, salas de papel em corpo assim.

Quanto ao pormenor lexical, tocaram-me vocábulos trespassando o livro tais como:

Kimbanda, Xyela, Pungu, Njinga, Ndongo, Kitaba,
Kabesinya, Mussulo, Xitaka, Mamã, Nguenda, Samakaka,
Kanjika, Kambuta; Múkua, Kitaba, Missanga,
Cacimbo, Xinpaka, Xinguilo, Jinguna, Nganza, Xinguvo,
Kaxibu, Mabanga, Kianda, Sambila, Parakuka,
Humbi, Kissanji ou Kinhame…

Concluo que estou diante de uma proposta teluricamente eufórica, em razão do tal enraizamento espesso de que dizíamos, quando ainda não falávamos.

Chamo a atenção para as letras negritadas que sugerem aos sublinhados outros alcances de leitura do livro no contexto das Sentinelas da Alma (TANKAS)
à pág. 63,64,66,67,70,71,74,84, e etc.

Quem lê, lê com atenção, e lê duas ou mais vezes!

Ao autor fica um recado:
Quem lê somos nós mesmos, antes de mais alguém.
O autor é sempre o primeiro e como tal o mais privilegiado dos leitores dos seus textos. Entretanto, em Poesia Porta Metal Akiz;” se deixa levar, indefeso, pela perceção das cores e pela escuta de sons em seus ritmos múltiplos, na direção do imprevisível” e, uma vez mais recorro a prefaciadora do livro quando a Pág.: (18) diz-nos que “nesse sentido a palavra de AKIZ inicia-se sempre fragmentada e deixando antever, a cada instante, tentativas tensas de pura aventura…”

A poesia é mesmo uma aventura sempre que se propõe artística e a porta metal nem sempre se abre integralmente, mas convida-nos a transpô-la, convida-nos, a perfazer o caminho que vai do profano ao sagrado…

Para não saturar, e porque o momento é do autor, revolto ao começo da minha (suposta…) nota de recensão.

O nosso autor, vem caminhando para explorar e construir criativamente, de um lado a pluralidade polissémica da palavra poética, e, de outro, a tecedura do seu próprio desgasto. Há ainda muito que laborar e, termino citando sem cansaço uma das suas ilustres prefaciadoras:
“Trabalhar o literário, torná-lo denso, bem construído no ardor das concordâncias, da sintaxe, da beleza poética em que fundo e forma podem se estilhaçar em ter sua coesão interna abalada, é uma aprendizagem que demora tempo, paciência, múltiplas e ruminadas leituras.”

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